A Irlanda enfrenta críticas pelas vendas continuadas de alumina à Rússia. O escândalo ensombrou o início da presidência da UE e levantou questões incómodas a que Dublin ainda não respondeu.
A presidência irlandesa do Conselho da UE, a oitava na história do país, deveria ser um momento de orgulho para mostrar os benefícios que a adesão ao bloco trouxe à República do Trevo e as competências diplomáticas que desenvolveu como resultado.
"Assumir a presidência é uma honra e uma responsabilidade, e estamos prontos para dar tudo", afirmou o Taoiseach Micheál Martin na cerimónia de abertura da presidência no Castelo de Dublin.
Mas a ocasião especial tem sido largamente ofuscada por um escândalo explosivo em torno das vendas de alumina da Irlanda à Rússia, uma imagem desconfortável, talvez insustentável, para um país que colocou o apoio à Ucrânia no topo das prioridades e que se apresenta como "mediador honesto" entre os outros 26 Estados-membros.
Para a Irlanda, um país cujas polémicas costumam girar em torno das grandes empresas tecnológicas e da baixa tributação, a percepção de estar a contribuir de forma indireta para o maior conflito armado em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial está a revelar-se uma crise de imagem devastadora.
A contestação começou a ganhar força no final de março, quando um grupo de media expôs os laços lucrativos entre a Aughinish Alumina, uma vasta refinaria no oeste da Irlanda, e o complexo militar-industrial russo, e acelerou esta semana, numa altura em que a Irlanda assinala com pompa e circunstância o início da sua presidência rotativa.
Martin manteve-se com expressão fechada enquanto o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, convidado de honra na cerimónia de abertura de quarta-feira, criticava publicamente Dublin por permitir exportações de alumina para o agressor do seu país.
A alumina é um pó branco usado para fabricar alumínio, um metal leve que é comumente encontrado em armas no campo de batalha na Ucrânia.
"Cada tonelada de matérias-primas que acaba na Rússia é usada contra nós nesta guerra. É assim que o entendemos. É assim que o vemos", disse Zelenskyy.
Martin tentou aliviar as tensões, explicando que tinha tido uma "boa conversa" com o líder ucraniano sobre o tema e prometendo partilhar as conclusões de uma investigação com a Comissão Europeia. A investigação está perto de ser concluída, adiantou.
"Não queremos estar numa situação em que material proveniente de uma fábrica na Irlanda acabe a apoiar a máquina de guerra russa", afirmou Martin.
Zelenskyy apelou a Martin para que evite adiar uma decisão sobre o assunto.
"Esperamos muito um resultado positivo para nós nesta investigação e esperamos não ter de esperar meses por esse resultado", declarou Zelenskyy.
No dia seguinte, quinta-feira, Martin enfrentou novas perguntas sobre o escândalo da alumina, colocadas por jornalistas sediados em Bruxelas, convidados a acompanhar os eventos de arranque da presidência (a Euronews integrou este grupo de imprensa).
No dia seguinte, sexta-feira, o discreto Taoiseach voltou a ser obrigado a abordar o tema depois de receber a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na sua cidade natal, Cork.
"A Alumina não consta, até agora, de qualquer lista de sanções", declarou Martin, retomando um argumento usado tanto pelo seu governo como pela Aughinish para responder às críticas.
Von der Leyen, cujo executivo tem visado uma lista exaustiva de materiais e componentes que alimentam a produção de guerra de Moscovo, foi sucinta na sua posição.
"Compete à Irlanda conduzir esta investigação e definir o calendário", afirmou.
Uma dor de cabeça tremenda
Importa sublinhar que a Irlanda não é o primeiro país da UE – e provavelmente não será o último – a ser embaraçosamente acusado de sustentar a economia de guerra de Moscovo.
Hungria e Eslováquia há muito que são criticadas pela continuação da dependência do petróleo bruto e do gás russo por gasoduto. Espanha e França têm sido censuradas por importarem grandes quantidades de gás natural liquefeito russo. Grécia e Malta têm suscitado críticas por bloquearemuma proibição total de serviços marítimos para petroleiros russos. E a Áustria tem estado sob escrutínio pelas operações do Raiffeisen Bank International na Rússia.
Trata-se apenas de uma amostra dos restos pouco edificantes deixados depois da UE ter imposto o maior regime de sanções da sua história contra um país que, até decidir lançar a invasão em grande escala da Ucrânia, era um dos principais parceiros comerciais do bloco.
Estão em causa milhões, e por vezes milhares de milhões, quando se cortam relações comerciais de um dia para o outro.
É isso que explica por que nem Martin nem nenhum dos seus adjuntos assumiram um compromisso inequívoco de aceitar sanções à alumina – caso algum dia sejam propostas. (Ironia das ironias, uma das tarefas mais urgentes da presidência irlandesa é chegar a um acordo sobre o 21.º pacote de sanções contra a Rússia.)
"A Irlanda nunca fará seleção de conveniência no que toca às sanções. Nunca escolherá critérios à medida. Os critérios são claros. Os critérios têm de ser aplicados. Isso é importante", afirmou o vice-primeiro-ministro Simon Harris.
"Mas é importante que estabeleçamos os factos."
Tendo em conta que a Aughinish vende cerca de metade das suas exportações de alumina à Rússia, as sanções arriscam ter consequências devastadoras para a empresa, que é a maior refinaria de alumina da Europa. O governo irlandês tem manifestado repetidamente preocupação com o impacto nos empregos diretos e indiretos, no ambiente e na cadeia de abastecimento estratégica da Europa.
A Aughinish tem feito pressão sobre Dublin para dissuadir sanções e chegou mesmo a levantar a hipótese de nacionalização caso seja introduzida uma proibição de exportação de alumina, a principal exigência de Kiev.
Embora Martin e Harris tenham afastado a possibilidade de intervenção do Estado, insistem também em que as possíveis repercussões sejam devidamente ponderadas.
Numa nova reviravolta embaraçosa, as autoridades suecas concluíram recentemente que a Rusal, empresa-mãe da Aughinish, continua sob o controlo efetivo de Oleg Deripaska, um oligarca russo com laços estreitos ao Kremlin que está sob sanções da UE.
Zelenskyy pegou nesse facto para sublinhar o seu descontentamento.
"Infelizmente, há empresas na Europa que são detidas ou efetivamente controladas pela Rússia e pelos seus oligarcas sancionados. Continuam a fornecer ao agressor materiais essenciais. Mesmo agora", disse Zelenskyy na cerimónia de abertura.
Resta saber como Dublin vai sair do escândalo da alumina que, como se viu nos últimos dias, não dá sinais de abrandar tão cedo.
As conclusões da investigação, quando forem publicadas, abrirão um novo capítulo nesta saga e trarão ao governo punição ou absolvição. Para alguns, o dano já está feito. Para outros, ainda pode ser varrido para debaixo do tapete.