Os investigadores afirmam que uma campanha de influência coordenada, que suspeitam estar ligada a Moscovo, está a fazer-se passar por meios de comunicação alemães para explorar as divisões entre o Leste e o Oeste, em vésperas das eleições regionais na Alemanha, em setembro.
Uma capa falsa de jornal que afirma que "o Leste odeia o Oeste". Reportagens televisivas geradas por IA que sugerem que os proprietários de imóveis na Alemanha Ocidental preferem alugar a estrangeiros do que a alemães do Leste, e vídeos que afirmam falsamente que a maioria dos jovens alemães quer que a Alemanha Oriental seja restaurada.
Estas imagens e vídeos imitam a identidade visual de algumas das organizações de comunicação social mais conhecidas da Alemanha, como a Spiegel TV, o Bild e o T-Online, bem como de organizações de investigação como o Instituto para o Estudo da Guerra.
No entanto, não são autênticos.
Investigadores do coletivo Antibot4Navalny, que monitoriza operações de influência online, identificaram pelo menos 49 vídeos falsos, 12 capas de jornais falsificadas e uma imagem que alega mostrar grafitis falsos durante a primeira semana da campanha, que está a ser promovida no X, no Bluesky e no TikTok.
Esta campanha promove repetidamente a narrativa subjacente de que a Alemanha está cada vez mais dividida entre o Leste e o Oeste.
Várias publicações alegam que os alemães do Leste são tratados de forma injusta ou marginalizados politicamente, enquanto outras citam estatísticas falsas que alegam, sem fundamento, um apoio à restauração da Alemanha Oriental ou sugerem que os alemães do Oeste discriminam os do Leste em matéria de habitação e noutras áreas.
O Antibot4Navalny afirma que a campanha apresenta características que indicam que esta se insere na "Matryoshka", uma rede de desinformação e influência que as autoridades europeias já associaram, anteriormente, a atividades de influência pró-russas.
As campanhas da Matryoshka são conhecidas por imitar e fazer-se passar por fontes credíveis, tais como órgãos de comunicação social, grupos de reflexão e organizações de investigação — divulgando alegações falsas que pretendem parecer credíveis.
Os investigadores dizem que esta campanha se centrou deliberadamente no leste da Alemanha e procura explorar as tensões sociais e políticas na véspera de duas eleições estaduais cruciais, em setembro.
O país está a acompanhar de perto as eleições nos estados orientais da Saxónia-Anhalt e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, uma vez que ambas são consideradas um teste importante para a popularidade da atual coligação governamental do chanceler alemão Friedrich Merz, entre a União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda.
Em ambos os estados, as sondagens recentes indicam que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) está na liderança. O próprio partido espera conquistar mais de 40% dos votos, um resultado que o colocaria ao alcance de uma maioria absoluta e reforçaria as suas hipóteses de liderar um governo estadual pela primeira vez.
Porquê a oposição entre Leste e Oeste?
Lea Frühwirth, investigadora sénior da agência alemã sem fins lucrativos de monitorização do extremismo, o Centro de Monitorização, Análise e Estratégia (CeMAS), afirma que as campanhas de influência estrangeira procuram frequentemente amplificar as divisões sociais existentes, em vez de inventar outras totalmente novas.
"As campanhas de influência estrangeira visam desestabilizar as sociedades visadas", explicou à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. "É prática comum tentar fazê-lo alimentando um debate polarizado sobre temas sensíveis e questões controversas."
Embora a Alemanha esteja reunificada há mais de três décadas, Frühwirth afirma que as diferenças de identidade e os ressentimentos persistentes significam que as divisões entre o Leste e o Oeste continuam a ser politicamente sensíveis.
"A reunificação não ocorreu em pé de igualdade, e muitas pessoas no Leste relatam profundas queixas em relação aos alemães do Oeste", detalhou. "As diferenças estruturais persistem até aos dias de hoje."
"Há também o aspeto político: a comunicação russa e pró-russa em torno das eleições alemãs favorece partidos pró-russos, como a AfD, de extrema-direita, e tende a denegrir os outros", acrescentou.
Frühwirth afirma que campanhas como esta procuram explorar os ressentimentos existentes, colocando uns grupos contra os outros e aprofundando a polarização política.
É difícil avaliar se campanhas como esta acabam por influenciar o comportamento eleitoral, tal como é difícil determinar o seu alcance real, existindo relatos que sugerem que a campanha inflaciona os números de visualizações nas publicações para fazer parecer que têm mais interação do que na realidade.
Não é a primeira vez que as eleições alemãs são alvo de campanhas de influência com ligações à Rússia. Durante as eleições federais de 2025, as autoridades e os investigadores documentaram várias campanhas, incluindo a "Doppelgänger", a "Storm-1516" e a "Matryoshka", que procuravam difundir narrativas falsas e fazer-se passar por organizações noticiosas de confiança.