Especialistas dizem que a desinformação sobre o clima está a evoluir, concentrando-se cada vez mais em desmontar políticas verdes. Em paralelo, cresce o conteúdo gerado por inteligência artificial.
De rebater afirmações de que os invernos frios não provam que o aquecimento global é falso às alegações de que o clima muda naturalmente e, por isso, a humanidade não tem culpa, os cientistas passaram décadas a demonstrar a existência de uma crise climática.
Mas especialistas afirmam que estes discursos de desinformação estão a evoluir e que passam cada vez mais por desacreditar as políticas ambientais e a ação climática, em vez de negarem frontalmente o aquecimento global.
“A era do negacionismo climático está praticamente encerrada”, diz Ned Mendez, responsável pela investigação e análise na agência de campanhas digitais 411, à equipa de verificação da Euronews, O Cubo. “A indústria da desinformação desceu um degrau. Já não discute se a luta contra o aquecimento global é real, mas se a resposta é exequível, se é justa e se compensa o custo.”
“Quando pensamos em desinformação, tendemos a associá-la à negação da existência das alterações climáticas ou da sua origem humana. O que vemos hoje, porém, é que esta já não é necessariamente a forma mais comum que o fenómeno assume”, diz Eva Morel, secretária da entidade francesa de vigilância da desinformação climática, Quota Climat.
Este fenómeno insere‑se no contexto político mais vasto do “greenlash” - junção de “green” e “backlash” - que descreve a crescente resistência política à ação climática.
Apesar disso, a desinformação climática continua fortemente condicionada pela atualidade, explica Morel, moldada pelo debate político, pela publicação de documentos de política climática, por grandes encontros internacionais como as COP ou cimeiras europeias, bem como por fenómenos extremos como ondas de calor, cheias e incêndios florestais.
Estas narrativas não se limitam às redes sociais. Embora exista um consenso entre os dirigentes europeus de que as alterações climáticas são reais e exigem resposta, a negação continua presente no espaço político.
Na Alemanha, por exemplo, o partido de extrema‑direita Alternativa para a Alemanha (AfD) pôs em causa o consenso científico de que as alterações climáticas têm origem humana. Há também quem repita declarações do presidente norte‑americano, Donald Trump, que descreveu reiteradamente as alterações climáticas como uma “fraude” e atacou os governos europeus pelas políticas de ação climática, que apelidou de “green new scam”.
Ondas de calor alimentam desinformação
Mesmo assim, falsas alegações sobre a natureza das alterações climáticas continuam a surgir, a par da desinformação sobre as políticas climáticas.
Em junho, a onda de calor recorde na Europa desencadeou uma vaga de desinformação, incluindo publicações virais nas redes sociais que alegavam que as temperaturas elevadas não eram invulgares. Sustentavam que se alinhavam com picos de temperatura anteriores, citando ondas de calor ocorridas em Londres na década de 1970.
Climatologistas afirmam que estas alegações, além de enganadoras, aumentaram a hostilidade e o assédio de que estes cientistas são alvo, com muitos utilizadores online a culpá‑los pelo fracasso da ação climática.
“As pessoas argumentam que, no fundo, os [cientistas do clima] foram demasiado alarmistas, pouco pedagógicos, apontaram para soluções erradas e tomaram decisões erradas e que, por isso, a culpa é deles”, afirma Morel. “A responsabilidade é colocada sobre os especialistas.”
Estas narrativas falsas sobre a mais recente onda de calor europeia não são casos isolados. Quando, em outubro de 2024, o leste de Espanha recebeu em poucos dias a quantidade de chuva equivalente a um ano inteiro, a desinformação sobre um dos desastres naturais mais mortíferos da história do país, que tirou a vida a mais de 230 pessoas, ganhou grande força.
As alegações falsas incluíam acusações de que barragens tinham sido deliberadamente desmanteladas para agravar as cheias, bem como de que a estratégia de biodiversidade da União Europeia e a política de renaturalização dos rios estavam na origem do desastre.
Responsáveis políticos do partido espanhol de extrema‑direita Vox, que contesta a realidade das alterações climáticas, estiveram entre os principais difusores destas alegações.
Uma profunda desconfiança em relação às instituições alimentou estas narrativas, segundo Mendez. “Se alguém está predisposto a desconfiar de uma instituição, mesmo que ela forneça conselhos climáticos úteis, por exemplo, avisar que o nível da água será elevado às 16 horas, pode pensar: estão a inventar isto para provar uma tese.”
Pilares de desinformação
Na desinformação climática surgem várias narrativas recorrentes, incluindo a ideia de que a transição verde é um “plano punitivo” imposto por uma elite distante em Bruxelas.
A transição verde corresponde a uma mudança global de grande escala, que afasta a economia de indústrias altamente poluentes e dos combustíveis fósseis para práticas sustentáveis e amigas do ambiente, com o objetivo de combater as alterações climáticas.
Em torno da transição verde, o discurso negativo reacende‑se frequentemente em resposta a nova legislação ambiental, escudando‑se na ideia de “um debate legítimo sobre competitividade e burocracia”, explica Mendez.
“Isto liga‑se às acusações de hipocrisia dirigidas a quem tem jatos privados e faz sermões sobre o carro ou sobre a turbina eólica, como se fosse uma classe que não partilha a sua realidade”, acrescentou. “Não assenta em factos, mas aproveita muitas outras narrativas da guerra cultural.”
Outra narrativa online procura virar a opinião pública contra as soluções de energia renovável, como as energias eólica e solar, apresentando‑as como uma “intrusão estrangeira” que impede a “soberania climática”. Foi o que aconteceu durante o apagão na Península Ibérica na primavera de 2025, que deixou sem eletricidade grande parte de Portugal continental e da Espanha peninsular.
O incidente desencadeou uma vaga de críticas às energias renováveis, com teorias amplamente divulgadas após o apagão a defender que a dependência de Espanha da energia solar e eólica desestabilizou a rede e provocou este apagão.
Essa explicação foi rapidamente contestada. Um relatório final da ENTSO‑E, a rede europeia de operadores de sistemas de transporte de eletricidade, concluiu que o apagão teve múltiplas causas, entre elas falhas no controlo de tensão e oscilações na rede. As energias renováveis não foram a causa determinante do apagão.
“Vimos as energias renováveis serem rapidamente responsabilizadas, por exemplo, em grupos locais de Facebook”, diz Mendez. “Em menos de um dia chegavam a comunidades no WhatsApp e explicações técnicas fabricadas eram difundidas por pseudoespecialistas.”
Mas, segundo os especialistas, há raízes mais profundas para este ceticismo em relação às renováveis, com a preocupação quanto à segurança energética a disparar desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
“Encontramos muitas destas narrativas na Europa Central e de Leste, onde o carvão ou a energia nuclear estão associados a uma certa identidade nacional”, explica Mendez. “E também em comunidades rurais confrontadas com projetos concretos.”
Mendez acrescenta que tudo isto se insere num contexto mais amplo de incerteza económica na Europa, explorada para virar as pessoas contra as medidas climáticas, com opositores a alegarem que a neutralidade carbónica vai destruir empregos, aumentar as contas e prejudicar as indústrias tradicionais.
“E isto nem precisa de ideologia alguma, basta receber a conta do aquecimento”, resume.
“As mentiras são divertidas e prendem a atenção”
Apesar de os canais por onde circula a desinformação climática terem evoluído, grande parte da mensagem manteve‑se constante ao longo das décadas.
“A maior fonte de desinformação climática é provavelmente a publicidade em que as grandes empresas de combustíveis fósseis gastam somas elevadas, seja no patrocínio de eventos desportivos ou culturais, seja em anúncios de televisão, rádio, imprensa ou plataformas digitais”, afirma Philip Newell, copresidente de comunicações da coligação Climate Action Against Disinformation. “O sector está a investir valores enormes e a chegar à maioria das pessoas de uma forma ou de outra, por isso, em quase todos os indicadores, é a fonte principal.”
A monetização das redes sociais, que alimenta a economia da atenção, funciona também como incentivo à desinformação climática.
“O que perceberam é que as mentiras são divertidas e cativantes”, explica Newell. “E por isso, esse tipo de teorias da conspiração, o ABC da desinformação climática… transforma‑se quase sempre num meme viral.”
Acrescenta que estes “desinfluencers” dependem da economia da atenção para ganhar dinheiro, pelo que têm interesse em publicar diariamente e participar nas conversas mais amplas para gerar interações, independentemente do tema.
Papel da inteligência artificial na desinformação climática
A inteligência artificial é hoje uma fonte constante de desinformação, sobretudo no caso de imagens geradas digitalmente. Investigadores afirmam que a ferramenta levou um leque mais vasto de pessoas a difundir narrativas falsas sobre o clima.
“Aquilo que antes só estava ao alcance de atores estatais com orçamentos enormes”, diz Mendez, “agora pode ser feito num simples telemóvel.”
Ferramentas acessíveis, apoiadas por inteligência artificial generativa, permitem aos utilizadores das redes sociais criar conteúdos climáticos convincentes e difundi‑los rapidamente em grupos locais de Facebook, no TikTok e noutras plataformas.
“A cobertura mediática e, em geral, o ambiente informativo em torno da onda de calor de maio e junho de 2026 mostraram que estava a surgir uma nova narrativa”, observa Morel.
“Apoia‑se em narrativas já existentes, como negar a eficácia de certas soluções climáticas ou promover o ar condicionado como solução milagrosa para o aquecimento global, ao mesmo tempo que introduz uma nova narrativa que culpa os próprios climatologistas e defensores do ambiente.”
Por exemplo, um residente indignado com a proposta de um parque eólico pode usar inteligência artificial generativa para criar um vídeo falso convincente, a alegar que as turbinas arderam ou colapsaram, e partilhá‑lo depois num grupo local de Facebook.
Isto aconteceu em 2025, quando negacionistas das alterações climáticas promoveram aquilo que diziam ser um artigo científico que refutava a origem humana do aquecimento global.
Acabou por se saber que fora gerado pelo chatbot Grok, da xAI. Verificadores de factos também concluíram que o texto continha inúmeros erros factuais e deturpava a ciência do clima.