O demitido ministro da Defesa ucraniano Mykhailo Fedorov acusou o comandante Oleksandr Syrskyi de travar a reforma militar e dividir o país, dizendo que o presidente Zelenskyy decidiu mantê-lo no cargo.
Milhares de ucranianos saíram às ruas, na quinta-feira, para protestar contra a decisão do presidente Volodymyr Zelenskyy de demitir o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov. O antigo ministro reconheceu publicamente que o conflito com o chefe do Estado-Maior das forças armadas ucranianas contribuiu para a sua saída.
Numa conferência de imprensa tensa, Fedorov revelou que Zelenskyy foi obrigado a escolher entre ele e Oleksandr Syrskyi. Garantiu, no entanto, que nunca apresentou ao presidente um ultimato de "ou eu ou Syrskyi".
"Então vamos vencer com este chefe do Estado-Maior."
Segundo Fedorov, aceitou a decisão do presidente apesar das divergências entre ambos.
"Quando o presidente disse que não tencionava demitir Syrskyi, respondi que estava de acordo. É a sua decisão, como comandante-chefe supremo, e eu aprenderia a trabalhar com ele, porque, em última análise, o nosso 'cliente' é o povo ucraniano, mais ninguém", afirmou.
Fedorov alegou, porém, que a sua agenda de reformas esbarrou rapidamente na resistência da alta hierarquia militar.
"Deparámo-nos com um bloqueio total de todas as nossas iniciativas", disse.
"Syrskyi não está preparado para falar abertamente, frente a frente, sobre os problemas."
"Está disposto a ir a reuniões, a tecer intrigas, a pensar que alguém organiza campanhas mediáticas contra ele. E apresentou um ultimato."
"Em vez de pensar em como derrotar a Rússia de forma assimétrica, encontrou maneira de dividir o país", acrescentou Fedorov, numa das críticas públicas mais duras que até agora dirigiu ao militar.
Apesar das críticas, Fedorov reconheceu o papel de Syrskyi nas primeiras fases da invasão russa em grande escala.
"Na realidade, Syrskyi salvou o nosso país em 2022, conduziu várias operações bem-sucedidas e não o podemos subestimar. Mas a guerra mudou", afirmou, procurando apresentar os seus apelos a mudanças na liderança militar como resposta a um contexto estratégico em evolução e não como uma vendetta pessoal.
Zelenskyy, que apresentou esta remodelação como um esforço para renovar a equipa e reforçar a governação em tempo de guerra, ofereceu a Fedorov um cargo de conselheiro depois de o afastar da pasta da Defesa.
Fedorov afirmou que recusou a proposta, descrevendo a sua saída como resultado da resistência institucional enraizada às tentativas de modernizar as forças armadas através de maior inovação tecnológica e de uma abordagem mais descentralizada.
Esta demissão desencadeou protestos em Kiev e noutras cidades, com manifestantes a criticarem Zelenskyy por afastar Fedorov apesar do seu sólido desempenho no cargo e da ampla popularidade junto das forças armadas, da sociedade civil e em vários setores políticos.
Reformador tecnológico em confronto com general à moda antiga
A disputa entre o ministro da Defesa e o comandante-chefe era há muito um segredo aberto na Ucrânia, frequentemente descrita como um choque geracional entre um jovem reformador orientado pela tecnologia, com experiência em startups, e um comandante militar mais convencional.
Este dirigente de 35 anos, profundamente familiarizado com as novas tecnologias, era o último ministro ainda em funções que tinha integrado todos os governos de Zelenskyy, sendo um dos aliados mais próximos do presidente desde a sua eleição, em 2019.
Fedorov foi vice-primeiro-ministro da Ucrânia e ministro da Transformação Digital entre 2019 e a nomeação para a Defesa, no início deste ano.
Foi amplamente elogiado por liderar a visão de um "Estado no telemóvel", destinada a reduzir a burocracia e a digitalizar os serviços públicos.
Desde o lançamento da aplicação Diia, em 2020, os ucranianos passaram a poder aceder, através do telemóvel, a um número crescente de serviços do Estado.
Após a invasão russa em grande escala, em 2022, o seu ministério assumiu também um papel central na expansão das capacidades de drones da Ucrânia, no apoio à tecnologia de defesa e na promoção de iniciativas de educação digital.
Nos seis meses em que esteve à frente da Defesa, Fedorov foi amplamente creditado por acelerar a inovação militar e contribuir para inverter o curso dos combates a favor da Ucrânia.
Em fevereiro, trabalhou com a Starlink para travar a utilização não autorizada do serviço de internet via satélite pela Rússia, tirando partido da relação pessoal com o proprietário da SpaceX, Elon Musk, desenvolvida ao longo da guerra.
Fedorov desempenhou ainda um papel central no reforço da cooperação entre o Ministério da Transformação Digital e o Ministério da Defesa, com vista a acelerar o desenvolvimento e a implementação de novas tecnologias militares.
Mais recentemente, supervisionou o lançamento da campanha para "transformar a Crimeia numa ilha", uma operação que visa as rotas logísticas russas e a infraestrutura militar na Crimeia anexada por Moscovo e noutras áreas do sul da Ucrânia sob ocupação russa.