O genro de Trump apresentou um novo plano para a distribuição de ajuda humanitária em Gaza, que rompe com as práticas das Nações Unidas, segundo apurou a Euronews numa reunião à porta fechada realizada em Bruxelas.
O genro do presidente dos EUA, Donald Trump, Jared Kushner, apelou a uma reformulação radical do apoio financeiro a Gaza durante uma reunião à porta fechada com ministros europeus e árabes, que deu início a um pacote de recuperação de quase 900 milhões de euros para a Faixa de Gaza, segundo apurou a Euronews.
Numa intervenção na reunião por videoconferência, Kushner rejeitou as iniciativas de ajuda a Gaza levadas a cabo até ao momento, considerando-as "concebidas passo a passo por ONG e terroristas", e apelou a uma mudança fundamental de abordagem para "inverter a maré", segundo fontes familiarizadas com o conteúdo das conversações privadas consultadas pela Euronews.
Embora não tenha mencionado a Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados Palestinianos (UNRWA) pelo nome, as suas observações pareceram sinalizar apoio à marginalização da organização: uma posição que o poderia colocar em desacordo com a UE, o maior doador da UNRWA.
Kushner revelou-se uma figura-chave nos esforços para garantir um importante pacote de financiamento internacional para Gaza, apesar de não ocupar qualquer cargo formal no governo. A par do seu papel como enviado de Trump, integra também o Conselho da Paz, o controverso órgão presidido pelo presidente dos EUA que deverá supervisionar a reconstrução da Faixa de Gaza.
Kushner é casado com Ivanka Trump, filha do presidente dos EUA.
De acordo com vários responsáveis da UE, a sua presença na reunião de segunda-feira teve um peso significativo graças às suas ligações diretas com Israel.
"A mudança é como o céu: toda a gente quer ir para lá, mas ninguém quer morrer", terá dito Kushner na conferência, que contou também com a presença de representantes árabes, descrevendo a situação em Gaza como "um passivo perpétuo e ilimitado", onde as condições de vida não melhoram e os doadores estão "constantemente a aplicar novocaína no problema".
Kushner estabeleceu uma ligação clara entre o atual sistema de ajuda humanitária e o financiamento indireto do Hamas, alegando que um fluxo consistente de dinheiro tem caído nas mãos desse grupo militante, que o utiliza para comprar armas, construir túneis e desenvolver mísseis. Israel acusa a UNRWA de ligações a grupos terroristas, mas a organização nega ter desviado qualquer ajuda.
O desarmamento do Hamas foi um tema central do discurso de Kushner. Ele deixou claro que a reconstrução não pode ter sucesso enquanto os grupos armados mantiverem capacidades militares, sublinhando o princípio de "um governo, uma arma".
Kushner argumentou que os esforços para reconstruir Gaza fracassariam a menos que o Hamas fosse desmilitarizado, segundo as fontes. Pareceu também lançar uma crítica velada aos participantes na conferência, afirmando que o objetivo final deveria ser garantir que não fosse necessária outra reunião internacional de doadores sobre Gaza.
O tom geral das observações de Kushner, no entanto, foi conciliatório, segundo diplomatas informados, com ênfase na cooperação com a UE e os parceiros regionais.
Destacou os Estados Árabes pela sua experiência na construção rápida de cidades para milhões de pessoas, argumentando que estavam em melhor posição para ajudar a reimaginar um futuro para os mais de dois milhões de residentes de Gaza, e elogiou também o Egito e a Turquia.
Kushner foi convidado para a conferência pela comissária da UE para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, que tem investido um esforço diplomático considerável no cultivo de laços com ele desde a primeira, e até agora única, reunião do Conselho da Paz, em Washington, em fevereiro passado.
A sua visita ocorreu num contexto de críticas por parte de vários Estados-membros da UE, que argumentaram que a ONU, e não o Conselho da Paz, deveria liderar as negociações.
"Só um esforço coletivo pode ajudar a reconstruir Gaza", afirmou Šuica após a reunião, sem comentar diretamente o papel de Kushner ou as suas declarações na sessão à porta fechada.