Segundo o primeiro-ministro húngaro, a ida do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros para uma grande empresa chinesa levanta suspeitas de corrupção. Analistas apontam riscos de segurança nacional, já que o Estado chinês controla a BYD.
Péter Magyar, primeiro-ministro da Hungria, afirma que foi aberta uma investigação ao antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Péter Szijjártó, devido às suas ligações à Rússia.
O chefe do governo falou do assunto na conferência de imprensa do porta-voz, depois de um jornalista lhe ter recordado que, antes da mudança de governo, tinha escrito numa publicação que Szijjártó atuara em conluio com os russos, o que considerou traição à pátria.
Péter Szijjártó, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, anunciou na quarta-feira que iria cessar o seu mandato parlamentar para ser o responsável pelas relações externas da BYD e pelo desenvolvimento de novas áreas de negócio.
Segundo o primeiro-ministro, esta decisão levanta suspeitas de corrupção.
"Numa democracia normal, uma situação destas certamente não acontece e não pode acontecer – sobretudo se alguém se considera um político nacional, patriota – que se vá trabalhar para uma multinacional global à qual foi essa própria pessoa a garantir apoios. Isto levanta não só responsabilidades morais, mas também jurídicas, e estou convencido de que as autoridades vão investigar", afirmou Péter Magyar.
Não existem dados oficiais sobre o montante do apoio recebido pela BYD do governo do Fidesz.
Péter Magyar afirmou que a empresa chinesa recebeu cerca de 300 mil milhões de forints em apoios, incluindo compromissos do Estado húngaro em matéria de desenvolvimento de infraestruturas e de energia.
Na opinião do chefe do governo húngaro, Péter Szijjártó já antes servia interesses estrangeiros e na sua página de Facebook, Magyar escreveu: "o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, que já anteriormente representava interesses estrangeiros, vai tornar-se dirigente de uma empresa chinesa para a qual ele próprio negociou, no passado, avultados apoios do Estado húngaro. A única diferença em relação ao que acontecia até agora é que, de futuro, pelo mesmo trabalho, já não serão os cidadãos húngaros a pagar a Péter Szijjártó, mas sim o seu verdadeiro empregador."
Num comunicado, a bancada parlamentar do Fidesz descreveu Péter Szijjártó como o ministro dos Negócios Estrangeiros de maior sucesso dos quase quatro decénios após a mudança de regime, acrescentando que, com o cargo de direção assumido na BYD, "vai tornar-se o mais importante e mais significativo gestor de empresas húngaro no mundo".
Risco de segurança nacional
Na Hungria não havia até agora precedentes de um ex-ministro aceitar um cargo numa empresa com a qual manteve uma relação tão direta durante o exercício de funções governativas.
Segundo o analista de política externa István Szent-Iványi, o facto de uma grande empresa chinesa empregar Péter Szijjártó não representa apenas um risco de corrupção.
"Há também um risco para a segurança nacional. Péter Szijjártó supervisionou o Gabinete de Informação, que é o serviço de informações externas da Hungria. Dispõe de uma base de dados de informação extremamente valiosa sobre os assuntos internos da União Europeia e da NATO. Isso pode ser muito valioso para os chineses", explicou acrescentando que na China, "a lei de segurança nacional determina que as grandes empresas são obrigadas a cooperar estreitamente com os serviços secretos chineses, por isso, se Szijjártó entrar nessa estrutura, essa obrigação de cooperação também se lhe aplicará."
O antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros recorda que, em vários países da Europa Ocidental, justamente para evitar situações deste tipo, existem limitações que impedem um político, após deixar o cargo, de aceitar de imediato um emprego no sector por que era responsável enquanto titular de uma pasta governamental. Na Hungria não existe, porém, qualquer proibição deste género.
Para o diretor jurídico da Transparency International Hungria, Miklós Ligeti, a contratação de um ex-ministro de um país da NATO pode envolver até o próprio Estado chinês, uma vez que o poder estatal centralizado exerce uma influência muito maior sobre as empresas chinesas do que é habitual nos países de economia de mercado.
"Mesmo que Péter Szijjártó tivesse obtido um cargo idêntico na BMW ou na Mercedes, o caso seria igualmente preocupante. Tendo em conta, porém, que, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, foi responsável pela política de abertura a Leste, pela aproximação à China e fez da instalação na Hungria da indústria automóvel e da produção de baterias chinesas uma causa pessoal, dirigindo as negociações com as delegações chinesas, neste caso podem surgir, se possível, ainda mais graves problemas de incompatibilidade", afirmou Miklós Ligeti ao 24.hu.
De acordo com um levantamento do Telex (fonte em húngaro), Péter Szijjártó não é o único diplomata húngaro que assinou contrato com uma empresa chinesa.
A empresa de Előd Tasnády abriu em Cegléd o Centro Húngaro-Chinês de Desenvolvimento de Negócios e Incubação, criado pela CCTA. Enquanto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Tasnády trabalhou também nos consulados-gerais de Xangai e Cantão.
O vice-presidente da filial húngara da Semcorp, Csaba Wolf, foi diretor do Departamento de Estratégia para Instituições Financeiras Internacionais do Ministério do Desenvolvimento Económico, acumulando ao mesmo tempo a presidência do conselho de supervisão da Nemzeti Eszközgazdálkodási Zrt., empresa pública de gestão de ativos.
Responsável pela gestão estratégica da filial húngara da indústria de baterias da CATL é Lóránd Dióssi, que também passou pela carreira diplomática e foi cônsul-geral em Chongqing, na China.