Gianni Infantino escreveu às 211 federações, oferecendo 40 milhões de dólares (35 milhões de euros) a cada, se apoiarem o seu polémico plano de vender participações nas competições do organismo.
Uma proposta que pode redefinir o futuro comercial do Mundial de futebol está a provocar forte oposição das instâncias dirigentes do futebol.
Na terça-feira, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, apresentou planos para criar uma empresa de 20 mil milhões de dólares (17,5 mil milhões de euros) para gerir o Mundial de futebol com investidores privados.
A nova subsidiária comercial, denominada FIFA Forward Enterprise (FFE), passaria a supervisionar competições como o Mundial e o Mundial de Clubes, segundo o jornal The Times, de Londres.
O antigo presidente da FIFA, Sepp Blatter, manifestou preocupação com os laços estreitos entre Infantino e o presidente dos EUA, Donald Trump, já que um dos potenciais investidores privados será alegadamente a família do genro de Trump, Jared Kushner, enquanto o responsável pelo Desporto da UE, Glenn Micallef, pediu à FIFA para “não mexer no nosso jogo”.
Da Europa às Américas e à Ásia, as entidades que tutelam o futebol têm manifestado preocupação com a proposta da FIFA. A Euronews reúne algumas das principais reações.
UEFA: “A alma e a governação do futebol não são ativos para negociar”
A UEFA foi uma das primeiras organizações a condenar a proposta. O organismo que gere o futebol europeu deixou claro que o futebol não está à venda, alertando para o risco de transformar a modalidade num mero ativo comercial.
“Isto ultrapassa uma linha que as instituições que regem o futebol nunca deveriam ultrapassar. A UEFA leva o assunto extremamente a sério. O mesmo deveria acontecer em todas as federações nacionais de futebol”, indicou a UEFA numa declaração contundente divulgada pouco depois da publicação do artigo no The Times.
“A alma e a governação do futebol não são ativos para negociar, sobretudo quando não há qualquer transparência sobre quem beneficia financeiramente”, acrescentou a UEFA, na terça-feira, em reação às notícias sobre a venda de participações nas competições da FIFA.
O vice-presidente da UEFA, Gabriele Gravina, também criticou a proposta da FIFA.
“O futebol não pode ser reduzido a um assunto privado”, afirmou Gravina.
“Estamos a ultrapassar os limites. O equilíbrio, construído com esforço ao longo dos anos, entre o futebol-espetáculo e o futebol enquanto grande paixão popular", continua o antigo presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC), "corre o risco de ser varrido por uma visão de negócios que não é boa para o futebol”.
A UEFA vai realizar esta quarta-feira uma reunião de emergência para discutir a resposta aos planos da FIFA de envolver investidores privados, de acordo com a ministra francesa do Desporto, Marina Ferrari.
“Assinalo a reunião de emergência que terá lugar na quarta-feira entre as autoridades do futebol europeu. Perante um projeto que pode transformar profundamente o equilíbrio da nossa modalidade, é essencial que os intervenientes europeus falem a uma só voz”, escreveu Ferrari numa publicação nas redes sociais.
Presidente da La Liga critica plano da FIFA
O presidente da La Liga, Javier Tebas, atacou Infantino, acusando-o de misturar “política, disciplina, dinheiro e poder, sem transparência”.
Na publicação na plataforma X, ilustrada com um icebergue, a parte visível continha a expressão “O que já se sabe”, enquanto a parte submersa dizia “Isto é apenas a ponta do icebergue”, sugerindo que há muito mais por revelar sobre a gestão de Infantino à frente da FIFA.
“E agora a FIFA promete mais de 10 mil milhões de dólares e até mais 20 milhões para cada associação membro, ao mesmo tempo que se prepara para trazer investidores privados para os seus direitos e competições. Isto não parece uma reforma. Parece uma campanha eleitoral financiada à custa do futuro do futebol”, escreveu.
“O desenvolvimento não pode ser usado para comprar votos ou silenciar críticas. As competições e os direitos comerciais da FIFA não são propriedade pessoal de Infantino. Quem mistura política, disciplina, dinheiro e poder sem transparência não pode liderar nada. Infantino não é a solução para a governação da FIFA. É o problema. Estamos apenas a arranhar a superfície do icebergue”.
Inglaterra: federação “completamente alheia” ao plano
A Federação de Futebol de Inglaterra (FA) afirmou não ter sido informada da proposta da FIFA antes de esta se tornar pública e manifestou preocupação com a forma como o processo foi conduzido.
O organismo dirigente disse estar “profundamente preocupado com a inexistência de processos e de governação para chegar a este ponto, bem como com a substância e os princípios em causa”.
“Quando a proposta for partilhada de forma completa e transparente, como a FIFA agora promete, tornaremos clara a nossa posição e comentaremos em maior detalhe”, afirmou um porta-voz, acrescentando que a federação estava “completamente alheia” ao plano.
Alemanha: federação diz que “foi ultrapassada uma linha”
A Federação Alemã de Futebol (DFB) juntou-se à UEFA nas críticas ao alegado plano do presidente da FIFA, Gianni Infantino, para vender uma participação de 20 a 30% no Mundial a investidores privados, com o vice-presidente da DFB, Hans-Joachim Watzke, a afirmar que “foi ultrapassada uma linha”.
“Muitos no futebol europeu veem os planos da FIFA como um ataque direto à modalidade. Partilho dessa opinião”, declarou Watzke, que é também vice-presidente do Comité Executivo da UEFA.
“Existe um consenso alargado entre as associações membro. Isso ficou-me claro em várias conversas nos últimos dias com Aleksander Ceferin e outros colegas”, acrescentou. Watzke sublinhou ainda a importância da Europa para o Mundial.
“No Mundial de 2026, seis equipas europeias chegaram aos quartos de final e três às meias-finais. Se o futebol europeu se apresentar unido contra estes planos, isso terá um peso significativo”.
França: FFF vai consultar homólogos europeus sobre plano da FIFA
Philippe Diallo, presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), criticou igualmente a total ausência de comunicação em torno da proposta.
“Tomámos conhecimento deste projeto de grande impacto através de um comunicado de imprensa. Não temos qualquer detalhe e, face à sua orientação – trazer fundos de investimento para uma empresa comercial ao lado da FIFA –, levanta muitas questões”, afirmou Diallo.
Acrescentou que as federações nacionais de futebol não foram consultadas e não receberam informação concreta que lhes permita tomar posição sobre aquilo que descreveu como questões fundamentais para o futuro da modalidade.
Diallo adiantou ainda que iria começar de imediato a dialogar com os presidentes das principais federações europeias de futebol para definir a resposta aos planos da FIFA.
“A partir de hoje estarei em contacto com os meus homólogos das grandes federações europeias de futebol para determinar a forma como devemos abordar estes planos, sobre os quais não recebemos qualquer informação específica”, disse.
Para lá da Europa: preocupações alargam-se à Ásia e às Américas
As preocupações já ultrapassaram a Europa, com as entidades dirigentes do futebol na Ásia, na América do Norte e Central e nas Caraíbas, e na América do Sul a exigir mais transparência e um processo de consulta mais aberto antes de assumirem uma posição sobre a proposta da FIFA.
“A AFC não foi consultada sobre a proposta e lamenta que uma questão de tal relevância tenha chegado ao domínio público antes de a família da AFC ter tido oportunidade de a analisar e discutir através dos canais de governação adequados e estabelecidos”, afirmou a Confederação Asiática de Futebol (AFC na sigla original) em comunicado.
“Embora a AFC reconheça a importância de explorar abordagens inovadoras que possam reforçar o futuro do futebol mundial, iniciativas desta dimensão e impacto têm de assentar nos princípios de boa governação, transparência e consulta significativa.”
A CONCACAF, organismo que rege o futebol na América do Norte e Central e nas Caraíbas, também expressou preocupações com a proposta. O seu presidente, Victor Montagliani, afirmou que a confederação não foi consultada antes de a FIFA revelar os planos.
“A Concacaf só tomou conhecimento desta questão através de notícias na comunicação social e, posteriormente, por meio de um comunicado de imprensa”, indicou a confederação numa nota enviada ao diário The Guardian. “Estamos profundamente preocupados com a ausência de devido processo.”
“Enquanto dirigentes no mundo do futebol, somos os guardiões do jogo. Em conjunto, a FIFA, as confederações e cada associação membro têm a responsabilidade de agir sempre no melhor interesse da modalidade. Cada decisão que tomamos deve ser orientada por boa governação, processos robustos e uma gestão responsável a longo prazo.”
Prazo aproxima-se
A FIFA deu às suas associações membro até 19 de setembro para aderirem à proposta e garantirem o incentivo financeiro. Até agora, porém, a oferta pouco fez para acalmar as críticas, com muitas entidades dirigentes do futebol a insistirem em mais transparência e consulta.