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Marrocos e Espanha: rumores nas redes sociais geram maior crise migratória em anos

Forças de segurança marroquinas detêm homem que tentava passar de Fnideq para o enclave espanhol de Ceuta em 31 de julho de 2026
Forças de segurança marroquinas detêm um homem que tentava entrar em Ceuta, enclave espanhol, a partir de Fnideq em 31 de julho de 2026 Direitos de autor  AP
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De Maria Muñoz Morillo com AP
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Publicações virais sobre a abertura da fronteira espanhola levaram milhares de marroquinos a Ceuta e expuseram falhas de controlo, relatam migrantes que dizem ter sido autorizados a passar, sem ação de máfias.

Tudo começou com publicações no Instagram que sugeriam que a fronteira entre Espanha e Marrocos estava a abrir. Depois, surgiram utilizadores do Facebook a seguir as patrulhas da guarda-costeira e vídeos no TikTok a mostrar por onde nadar. Após inúmeras publicações e comentários, milhares de marroquinos convenceram-se de que a Europa estava, de repente, ao alcance da mão.

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Em poucas horas, jovens começaram a dirigir-se para a fronteira com o enclave espanhol de Ceuta, no norte de África. Autocarros apinhados chegavam à cidade marroquina vizinha de Fnideq. Os comboios suburbanos encheram-se. Os táxis também.

Quando as autoridades reagiram, estimava-se que cerca de 60 mil pessoas tinham chegado a Ceuta em apenas alguns dias, naquela maior vaga migratória entre Marrocos e Espanha dos últimos anos. Mais de 80 migrantes morreram dos dois lados da fronteira, alguns afogados e outros numa debandada, segundo as autoridades.

Quase todos os migrantes que sobreviveram regressaram pouco depois, mas as consequências dos acontecimentos da semana passada deverão perdurar.

Rumores começam nas redes sociais

Na cidade marroquina de Larache, a cerca de 150 quilómetros de Ceuta, três amigos viram um vídeo publicado por uma conta de Instagram chamada Haraga Ceuta, que afirmava que a fronteira iria abrir. Haraga é a expressão usada no dialeto marroquino para designar os jovens migrantes que destroem os documentos de identificação e tentam entrar ilegalmente na Europa. A publicação convenceu Anas Amrani, Yahya Harak e Ismail Atik de que valia a pena arriscar a viagem.

Para os migrantes que esperavam chegar a território espanhol, a rota mais habitual começa em Fnideq, de onde muitos tentam nadar cerca de cinco quilómetros ao longo da barreira fronteiriça. Outros partem da aldeia vizinha de Belyounech.

Um vídeo no TikTok mostrava o percurso exato que os nadadores deviam seguir. Em grupos de Facebook, como o Fnideq Bab Sebta, utilizadores partilhavam capturas de ecrã de plataformas de seguimento de embarcações para identificar os momentos em que as patrulhas da guarda-costeira pareciam menos numerosas. Alguns pediam conselhos sobre a utilização de botes insufláveis. Outros anunciavam a venda de fatos de neoprene.

"Vi na internet que a fronteira estava aberta e decidi ir", disse Omar Danbor, de 17 anos, residente em Fnideq, enquanto caminhava exausto de regresso pela costa.

Não é claro quem esteve por detrás das alegações de que a fronteira estava aberta, nem quem geria muitas das contas nas redes sociais, várias das quais foram apagadas pouco depois das travessias. A Associated Press (AP) contactou várias dessas contas, mas não obteve resposta.

Caos no esporão

Quando os migrantes chegaram às praias de Ceuta, instalou-se o caos no estreito esporão de betão por onde muitos tentaram alcançar terra firme.

Segundo vários migrantes ouvidos pela AP, a multidão lançou-se ao mesmo tempo sobre as rochas escorregadias, empurrando-se e trepando uns por cima dos outros. Vários disseram ter visto pessoas cair à água e ficar presas debaixo de outras, incapazes de voltar à superfície enquanto os migrantes lutavam para chegar a terra.

Pisei o rosto de um homem morto enquanto saía. Que Deus me perdoe a mim e a todos aqueles cujos corpos foram encontrados
Lahcen Kalouch, migrante marroquino

"Pisei o rosto de um homem morto enquanto saía. Que Deus me perdoe a mim e a todos aqueles cujos corpos foram encontrados", disse Lahcen Kalouch, um migrante marroquino que chegou a Ceuta antes de regressar ao país, devastado.

Pelo menos 72 pessoas morreram do lado espanhol da fronteira. Outras 11 morreram do lado marroquino.

Dezenas de milhares de migrantes regressaram, entretanto, a Marrocos, quer depois de terem sido expulsos, quer por iniciativa própria, perante a falta de alojamento, comida e água em Ceuta.

Equívocos sobre novas medidas migratórias

Alguns migrantes interpretaram erradamente as mais recentes alterações legislativas em Espanha, incluindo as medidas de regularização migratória do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e uma decisão judicial que limita a capacidade das autoridades para devolver de imediato os migrantes que chegam a nado a Ceuta.

Os recentes esforços de Sánchez para regularizar a situação de migrantes destinavam-se apenas a pessoas que já residiam em Espanha antes de 1 de janeiro. A maioria é oriunda da América Latina, entrou legalmente no país, mas permaneceu para além do período permitido pelos vistos. No entanto, alguns em Marrocos interpretaram mal a medida, acreditando que lhes seria permitido ficar. A ideia espalhou-se rapidamente pela internet.

Pedro Sánchez é um mentiroso. Disse-nos que, se viéssemos, conseguiríamos trabalho e documentos, mas fomos enviados de volta
Adam Assil, migrante de Casablanca

"Pedro Sánchez é um mentiroso. Disse-nos que, se viéssemos, conseguiríamos trabalho e documentos, mas fomos enviados de volta", afirmou Adam Assil, um migrante de Casablanca, apesar de Sánchez nunca ter feito essa promessa.

Embora as tentativas de chegar a Ceuta sejam frequentes, ativistas pró-migrantes salientaram que este episódio foi diferente pela forma como os rumores se propagaram na internet, levando milhares de pessoas a dirigirem-se ao enclave em simultâneo, em vez de o fazerem em grupos mais pequenos e dispersos.

Falhas ocorrem dos dois lados da fronteira

As autoridades marroquinas afirmaram que a vaga migratória não foi espontânea. O Ministério do Interior atribuiu a responsabilidade à "exploração do espaço digital" e à "difusão de desinformação". Os responsáveis não apresentaram provas, mas disseram que foi aberta uma investigação. O Governo espanhol fez declarações semelhantes.

Responsáveis de Ceuta garantiram ter alertado o Governo espanhol para um aumento das chegadas antes da vaga massiva de quinta-feira. O Ministério do Interior espanhol afirmou, na segunda-feira, que não tinha recebido "qualquer relatório ou aviso sobre a chegada massiva de pessoas a Ceuta" e elogiou a cooperação com as autoridades marroquinas para devolver a maioria dos migrantes.

"Ninguém explicou como é que estas pessoas conseguiram atravessar a fronteira", afirmou Mustapha Azaitraoui, geógrafo marroquino especializado em dinâmicas migratórias. "Se um grande grupo de pessoas consegue atravessar a fronteira nestas circunstâncias, isso sugere um problema de segurança mais amplo que ainda não foi reconhecido publicamente."

Migrantes rejeitam acusações de tráfico humano

Tanto Marrocos como Espanha atribuíram a crise de Ceuta aos traficantes de pessoas e às redes de tráfico humano, alegando que grupos criminosos organizados incentivaram as travessias em massa. No entanto, a maioria dos migrantes marroquinos que regressaram e foram ouvidos pela AP rejeitou essa explicação.

"Ninguém me ajudou a atravessar. Quis ir por vontade própria, mas aquele país não merece tanto sacrifício", disse Kalouch. "Não há máfias. A fronteira estava aberta e atravessei. Mas agora arrependo-me", afirmou Danbor, com a roupa ainda molhada após a viagem de regresso.

O Ministério do Interior espanhol afirmou que as investigações às redes de tráfico humano continuam e salientou que Espanha e Marrocos realizaram operações conjuntas contra grupos de traficantes. O Ministério do Interior marroquino não respondeu às perguntas sobre estas redes.

Desemprego jovem alimenta emigração

Prevê-se que a economia de Marrocos cresça 4,5% este ano, impulsionada por grandes fábricas, portos modernos e pela ambição de se tornar um centro regional da indústria automóvel.

No entanto, para muitos jovens marroquinos, essa transformação ainda não se traduziu em emprego estável. O desemprego jovem continua elevado, com 37% das pessoas entre os 15 e os 24 anos sem trabalho. Entre os licenciados, a taxa de desemprego aproxima-se dos 20%. O sonho da emigração é muitas vezes alimentado pelas histórias de familiares que partiram e regressaram com carros, roupa nova e moeda estrangeira.

Entre os que atravessaram a fronteira estava um jovem de 16 anos que cresceu a poucas dezenas de quilómetros de Ceuta. A Europa sempre lhe pareceu um sonho suficientemente próximo para ser visto, mas demasiado distante para ser alcançado.

Por isso, quando viu uma publicação no Facebook a sugerir que a fronteira estava aberta e que milhares de pessoas estavam a conseguir atravessá-la, juntou-se à vaga. Dias depois, estava de volta ao lado marroquino, a chorar enquanto pedia dinheiro a desconhecidos para pagar um táxi para casa.

"Atiraram-me gás lacrimogéneo e bateram-me com cassetetes. Lá não há nada para mim", disse o adolescente, que falou sob condição de anonimato por receio de ser estigmatizado após a tentativa falhada de atravessar a fronteira. "Só queria conseguir sustentar a minha mãe", afirmou, enxugando as lágrimas.

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