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UE perde um em cada quatro litros de água tratada. Poderá a digitalização resolver este problema?

Agricultor de arroz Giovanni Daghetta caminha num arrozal enquanto uma bomba retira água de um canal para um campo seco, em Mortara, Lomellina, Itália, 27 de junho
Agricultor de arroz Giovanni Daghetta caminha pelo arrozal enquanto uma bomba retira água de um canal para um campo seco, em Mortara, Lomellina, Itália, 27 de junho Direitos de autor  Luca Bruno
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De Elisabeth Heinz
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Até 2050, a procura mundial de água deverá crescer 55%, enquanto na Europa se perde 23% da água tratada antes da faturação. Segundo a Water Europe, soluções com IA podem poupar 3 mil milhões de euros anuais e criar mais de 13 000 empregos.

Com as secas a intensificarem-se por toda a Europa e a provocarem falta de água, as canalizações envelhecidas estão a acelerar o esgotamento das reservas hídricas da União Europeia.

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A Europa perde 23% da sua água não faturada (non-revenue water, NRW) em fugas – água que é captada e tratada, mas nunca chega às habitações. Os níveis de NRW variam entre 6% nos Países Baixos e 45% na Bulgária, o que se traduz em reparações reativas dispendiosas.

Só em 2024, 67% dos imóveis monitorizados na UE tiveram fugas, perdendo 772 milhões de litros de água (o equivalente a 300 piscinas olímpicas) e gerando custos superiores a 3 milhões de euros. Dos 19,3 mil milhões de litros monitorizados em 2025, 1,47 mil milhões (o equivalente a 9,8 milhões de banheiras) perderam-se em fugas, segundo a empresa finlandesa Smartvatten.

A digitalização pode ajudar a resolver o problema. A IA está a levar os operadores a passarem de “inspeções periódicas e intervenções reativas para uma monitorização contínua, manutenção preditiva e gestão proativa”, explicou Durk Krol, diretor-executivo da Water Europe.

Prioridade baixa

Grande parte dos 4,4 milhões de quilómetros de redes de água potável e dos 2,6 milhões de quilómetros de redes de esgotos da Europa, construídas no pós-guerra, continua obsoleta. As variações de temperatura, os movimentos do solo e a própria química da água fragilizaram as canalizações, que agora cedem com maior frequência.

“Grande parte da infraestrutura hídrica europeia está enterrada, pelo que permanece politicamente e publicamente invisível até algo falhar”, afirmou Krol. “As condutas são também ativos de longa duração, muitas vezes pensados para permanecer em serviço durante várias décadas, enquanto as tarifas e os orçamentos públicos nem sempre cobriram o custo total da sua exploração, manutenção e renovação”, acrescentou.

A causa da manutenção adiada é mais profunda, considerou Hildegard Bentele, eurodeputada do Grupo do Partido Popular Europeu (PPE) e presidente do MEP Water Group no Parlamento Europeu. A Europa nunca valorizou verdadeiramente a água, tratando-a como um recurso barato e facilmente disponível. “A água não era anteriormente considerada uma prioridade estratégica – uma questão que a Estratégia para a Resiliência da Água está agora a abordar”, explicou.

Esta negligência está agora a acelerar a escassez de água à medida que as ondas de calor se alargam pela Europa. “As secas são sobretudo provocadas por períodos prolongados de défice de precipitação e temperaturas mais altas. Mas as fugas reduzem a quantidade de água utilizável disponível, tornam os efeitos das secas mais graves e fazem com que se traduzam mais rapidamente em escassez de água”, advertiu Krol.

Progresso ainda insuficiente

O relatório EurEau 2026 aponta para uma ligeira descida das perdas de água na Europa, para cerca de 23,5%, face aos 24% do relatório de 2021. Os fornecedores de serviços de água investem cerca de 36,6 mil milhões de euros por ano em infraestruturas, o que representa um aumento de 17,5% em relação a 2021. Isto corresponde a apenas 82,38 euros por pessoa por ano.

Os Estados-membros continuam, contudo, a enfrentar atrasos na manutenção, prioridades concorrentes, fraca recuperação de custos e capacidade limitada para desenvolver projetos, assinalou Krol. Para Bentele, as tarifas baixas da água – que chegam a 1,5 euros por metro cúbico na Roménia – agravam o problema.

Na Europa, a definição do preço da água continua politicamente sensível, por se tratar de um direito humano e de um serviço essencial, mas “manter as tarifas artificialmente baixas pode adiar investimentos necessários e transferir custos e riscos mais elevados para os utilizadores do futuro”, alertou Krol.

A fragmentação torna a manutenção ainda mais difícil. Alemanha e França têm cada uma mais de 5 000 operadores de água, indica a EurEau. Para Krol, muitos são demasiado pequenos para suportarem sozinhos os investimentos, faltando-lhes competências, capacidade digital, economias de escala e acesso a financiamento. Mas a cooperação regional, a partilha de serviços, sistemas de dados comuns e a agregação de projetos podem ajudar a enfrentar estes desafios, acrescentou.

A verdadeira questão é quem deve pagar já, afirmou Bentele. Para Krol, a solução não passa apenas por contas da água mais elevadas, mas por reconhecer o verdadeiro valor da água para a economia, a saúde e a segurança energética. Isso implica usar tarifas, impostos e financiamento público nas decisões sobre infraestruturas, indústria e investimento, de modo a garantir serviços fiáveis e a proteger os agregados familiares vulneráveis, acrescentou.

IA “torna visíveis as perdas invisíveis”

Criar nova capacidade no setor da água e renovar infraestruturas é importante, mas digitalizar as redes é fundamental para reduzir a água não faturada (ANF). A principal vantagem, disse Krol, é que “a digitalização pode tornar visíveis as perdas invisíveis”, já que as fugas tendem a ser subtis e contínuas, tornando-se dispendiosas precisamente porque passam despercebidas ao longo do tempo.

Sistemas de deteção de fugas em tempo real assinalam falhas na rede. A monitorização acústica identifica fugas através de ruídos no subsolo. A gestão de pressão com recurso a IA ajusta automaticamente a pressão nas canalizações para reduzir ruturas, enquanto as zonas de medição e controlo (DMAs) dividem as redes em áreas mais pequenas para detetar fugas.

A IA também ajuda os operadores a reduzir a pressão hídrica causada pelas alterações climáticas. “A IA pode melhorar a preparação para a seca ao combinar observações por satélite com dados de estações meteorológicas, sensores no solo, monitorização de águas subterrâneas e albufeiras. Pode fornecer avisos probabilísticos com semanas ou, em condições adequadas, meses de antecedência”, afirmou Krol.

Segundo o diretor-executivo da Water Europe, as ferramentas de IA atingem todo o seu potencial quando os dados sobre a água são partilhados de forma aberta. A Water Europe defende um Mercado Único Digital da UE para Dados e Operações da Água, funcionando como “uma fonte única de informação fidedigna ao nível das bacias hidrográficas, para que autoridades, operadores e utilizadores económicos trabalhem com dados coerentes e validados. Isto não exige centralizar tudo numa única base de dados. Pode conseguir-se através de um sistema federado que ligue dados fiáveis detidos por diferentes organizações”, explicou.

Digitalização tem custos

A digitalização “oferece, sem dúvida, oportunidades significativas, mas também comporta alguns riscos”, observou Bentele. Lembrou que os serviços de água fazem parte das infraestruturas críticas dos Estados-membros e precisam de salvaguardas robustas contra ciberataques e potenciais enviesamentos algorítmicos nos sistemas digitais de gestão da água.

A digitalização não tem um preço padrão, nem existe uma percentagem fixa de redução de fugas que possa ser garantida. “Ambos dependem das características e do estado de partida de cada rede”, afirmou Krol. Mas levá-la a sério é crucial, porque o que está em causa para a sociedade é muito elevado.

Explicou que os setores europeus com forte consumo de água, incluindo a agricultura, a energia e os semicondutores, valem 192 mil milhões de euros e podem atingir 1 bilião de euros até 2030, com uma procura de água 2,6 vezes superior. Sem um abastecimento de água fiável e bem monitorizado, estes setores podem enfrentar limites de produção, uma vez que a atividade depende de uma disponibilidade de água constante. Os investimentos são desencorajados e as cadeias de abastecimento perturbadas.

Sem monitorização digital, fugas e quebras de pressão podem passar despercebidas até que as condutas rebentem, provocando cortes de água ou falhas no sistema e aumentando os custos de reparação para as famílias. A água da torneira é, em geral, segura graças à monitorização e ao controlo de pressão, explicou Krol, mas as redes podem deixar entrar bactérias, prejudicando a qualidade da água e a saúde se não forem constantemente vigiadas à distância.

A ausência de controlo digital prejudica também o ambiente. A água tem de ser captada, tratada e bombeada, o que consome energia e produtos químicos. “Quando se perde em fugas, desperdiçam-se também esses recursos e as emissões associadas”, sublinhou Krol. De acordo com o Eurostat, uma perda de água de 1% aumenta o consumo de energia em 3% e liberta cerca de 119 milhões de toneladas de CO2. “O verdadeiro teste do investimento digital é saber se produz resultados mensuráveis: água poupada, falhas evitadas, consumo de energia reduzido e vida útil das infraestruturas prolongada”, disse Krol à Euronews.

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