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Islândia: referendo à UE, o que saber antes da votação e o que está em jogo para a Europa

Bandeira islandesa ondula ao vento no porto de Reykjavik, na Islândia, em 9 de agosto de 2026
Uma bandeira da Islândia ondula ao vento no porto de Reykjavik, em Reykjavik, Islândia, em 9 de agosto de 2026. Direitos de autor  AP
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De Angela Skujins
Publicado a Últimas notícias
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Tudo o que precisa de saber sobre o referendo de sábado na Islândia, que decide se o país deve ou não voltar a negociar a adesão à União Europeia

“A Islândia deve retomar as negociações de adesão à União Europeia?”

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É esta a pergunta dirigida a 270 000 islandeses no sábado, 29 de agosto. A partir das 9h, hora local, os eleitores recenseados dirigem‑se às urnas para decidir se o país se aproxima da União Europeia ou se se afasta ainda mais.

O resultado do referendo irá determinar se a ilha, com 400 000 habitantes, deve retomar as negociações para aderir ao bloco de 27 membros ou voltar a arquivar a ideia por tempo indeterminado.

As primeiras sondagens indicam uma disputa renhida. Um inquérito realizado em agosto pela empresa de sondagens Maskína apontou para uma ligeira vantagem do “sim”, com 51,3% dos inquiridos a favor da retoma das conversações e 48,7% contra.

Esta divisão mostra as tensões em torno do próximo referendo, que expôs linhas de fratura política na Islândia, desde a segurança até à gestão dos recursos marítimos.

A defesa continua a ser um dos principais pontos de atrito. A Islândia receia ficar na linha de fogo entre, por um lado, o crescente interesse económico e estratégico da Rússia na região e, por outro, declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem ameaçado repetidamente anexar a Gronelândia.

Mas os habitantes apontam sobretudo para questões internas que podem ditar um resultado decidido por uma margem mínima, desde o aumento do custo de vida até à pesca e agricultura.

A primeira-ministra islandesa, Kristrún Frostadóttir, disse à Euronews, em abril, que é necessária “uma discussão equilibrada” em torno do referendo.

O que está então em discussão, quais são os principais pontos de bloqueio e porque é que tudo isto importa? Antes da votação, a Euronews responde às principais perguntas.

Em que vai a Islândia votar?

A pergunta do referendo de sábado será: “A Islândia deve retomar as negociações de adesão à União Europeia?” As opções de resposta serão apenas “sim” ou “não”.

O referendo serve, em especial, para decidir se o governo islandês deve ou não retomar as negociações de adesão com a UE; não é um voto sobre a própria entrada do país na União. Essa decisão teria de ser submetida a um segundo referendo e ratificada pelos 27 Estados-membros da UE.

As assembleias de voto em Reykjavík abrem às 9h de sábado e encerram às 22h. Espera‑se que os resultados comecem a ser divulgados nas horas seguintes.

Uma carregadora transporta um fardo de feno com os slogans “Afram Island” e “ESB Nei takk”, que significam “Força Islândia” e “UE não, obrigado”, em Akureyri, Islândia, 20 de agosto de 2026.
Uma carregadora transporta um fardo de feno com os slogans “Afram Island” e “ESB Nei takk”, que significam “Força Islândia” e “UE não, obrigado”, em Akureyri, Islândia, 20 de agosto de 2026. AP

Qual é o contexto?

A Islândia apresentou pela primeira vez um pedido de adesão à UE em 2009, um ano depois de ter sido, tal como outros países, abalada pela crise financeira de 2008. As negociações formais começaram em 2010, com o governo islandês a ver a adesão como uma forma de fortalecer e estabilizar a coroa islandesa.

Mas, após dois anos de pressão por parte de um governo eurocético, o processo foi suspenso em 2013.

Desde então, as prioridades de segurança mudaram profundamente, sobretudo depois da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, que redefiniu vulnerabilidades em todo o Extremo Norte.

Os cálculos financeiros também se alteraram. Muitos responsáveis, como o ministro das Finanças da Islândia, Daði Már Kristófersson, disseram à agência Reuters estar confiantes de que a adesão da Islândia à UE poderia impulsionar a economia do país, marcada por uma inflação elevada.

A reeleição de Trump veio também semear discórdia na relação transatlântica e levantar dúvidas sobre o acordo de defesa EUA‑Islândia de 1951. Esse tratado compromete os Estados Unidos a garantir a defesa da Islândia em nome da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), com a Islândia a acolher bases e forças norte‑americanas.

A aproximação da Islândia de novo à via europeia surgiu em 2024, após a chegada ao poder do governo de centro‑esquerda de Frostadóttir. Depois da vitória, o executivo europeu confirmou que o pedido de adesão da Islândia à UE, apresentado mais de uma década antes, continua válido.

No início de 2026, a primeira-ministra cumpriu a promessa e anunciou a realização de um referendo para decidir se as negociações com a UE deveriam ser retomadas, marcando a votação para 29 de agosto de 2026.

O que dizem os apoiantes?

Apesar de não ser membro da UE, a Islândia integra o Espaço Económico Europeu (EEE). Tal como a Noruega, isto garante à Islândia acesso ao mercado único da UE.

A participação no EEE significa que o país já adotou a maioria das regras europeias, cerca de 9000 atos jurídicos. Os defensores do “sim” argumentam que a retoma das negociações de adesão, com vista a uma futura entrada no bloco, daria à Islândia um lugar à mesa quando estas normas são negociadas.

Os defensores do “não” sustentam que a participação no EEE e o acesso ao mercado único são suficientes e que a adesão plena não é necessária.

Haraldur Ólafsson, presidente da plataforma eurocética Heimssýn, afirmou anteriormente à Euronews que, uma vez que a Islândia já cumpre 75% das regras da UE, “não há necessidade de ir mais longe”.

A ministra dos Negócios Estrangeiros, Þorgerður Katrín Gunnarsdóttir, sublinhou que as pescas são a outra grande preocupação entre os eleitores do “não”. A associação do setor, Fisheries Iceland, tem levantado reservas sobre várias regras europeias em matéria de pesca, defendendo que a adesão à UE deixaria a Islândia sem “poder para atuar como Estado costeiro independente”.

A Política Comum das Pescas da UE define limites de captura e quotas para os Estados-membros, uma política que há muito tensiona as relações entre Reykjavík e Bruxelas.

As chamadas “guerras da cavala” resultaram de uma posição unilateral da Islândia sobre quotas de cavala considerada excessiva pela UE, o que colocou sob pressão a anterior candidatura islandesa à adesão.

Este capítulo da história recente islandesa deverá pesar na memória de muitos eleitores, já que o setor das pescas representa cerca de 6,5% do PIB do país e emprega milhares de pessoas.

O que diz a União Europeia?

“Partilhamos valores, conhecemo‑nos muito bem, pensamos de forma semelhante, por isso somos parceiros próximos”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, durante uma visita à Islândia, em julho de 2025.

A responsável aproveitou a deslocação à ilha nórdica para destacar os seus trunfos: partilha de valores com a UE, participação no mercado único e, para um país maioritariamente pacifista, capacidade de defesa robusta.

Coube, no entanto, à comissária para o Alargamento, Marta Kos, clarificar em termos mais concretos as perspetivas de adesão da Islândia. Segundo revelou o Politico em primeira mão, Kos afirmou que a Islândia poderia formalizar a retoma das negociações de adesão até 2027, uma vez que a candidatura anterior continua válida.

Quando a Islândia suspendeu o processo em 2013, estavam abertos 27 capítulos de negociação, dos quais 11 tinham sido provisoriamente encerrados. O capítulo relativo às pescas permanecia, porém, um dos principais obstáculos nas conversações.

Recentemente, Kos deu a entender, na rede social Bluesky, que Bruxelas poderá estar disposta a encontrar um compromisso neste dossiê sensível. “As negociações de adesão refletem sempre as realidades específicas de cada país candidato”, escreveu.

Que peso têm as ameaças externas no voto?

Magnús Magnússon lidera uma plataforma que defende uma aproximação à UE. Em declarações anteriores à Euronews, afirmou que as infraestruturas críticas do país estão sob “ataque constante” de atores russos e que é preciso reforçar a sua proteção. “Há muitas áreas em que a UE pode ajudar”, acrescentou.

A NATO também reconheceu o apetite crescente de Rússia e China pelo poder no Extremo Norte. Em resposta, a Aliança reforçou a presença na região, com mais missões de policiamento aéreo e maior vigilância submarina.

Outra motivação para este reforço passa por apaziguar Trump, que defende que os Estados Unidos precisam do território autónomo da Gronelândia por razões de segurança nacional, apontando o aumento da atividade russa e chinesa na zona.

Trump confundiu frequentemente a Islândia com a Gronelândia ao repetir estas ameaças, o que, segundo especialistas ouvidos pela Euronews, fez soar alarmes em Reykjavík. Também não é segredo que Washington pretende “europeizar” a NATO e rever a sua presença de segurança no continente, algo que o comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, estima poder custar aos europeus cerca de 500 mil milhões de euros.

A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, reconheceu igualmente que as situações de segurança da UE e da Islândia estão interligadas, num contexto de interesse crescente tanto do Kremlin como de Pequim.

“Das ameaças russas às infraestruturas submarinas ao interesse crescente da China no Ártico, responder em conjunto dá‑nos mais margem de manobra”, afirmou Kallas numa conferência de imprensa conjunta, em março, por ocasião da assinatura da Parceria em matéria de Segurança e Defesa entre a Islândia e a UE.

Na reunião que assinalou este pacto, destinado a reforçar a cooperação em defesa entre as duas partes, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Þorgerður Katrín Gunnarsdóttir, terá afirmado que o acordo do EEE forneceu bases sólidas para esta relação, mas que o mundo está a mudar. “Temos de enfrentar estas mudanças”, acrescentou.

O conselheiro sénior do European Policy Centre, Tobias Etzold, considera que a crescente dúvida sobre a fiabilidade dos Estados Unidos na região, combinada com uma Rússia cada vez mais adversarial, reacendeu o debate sobre a UE na Islândia.

É este palco geopolítico que trouxe “novo dinamismo” a uma discussão que esteve praticamente adormecida durante mais de uma década.

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