François Hollande lançou esta quinta-feira um livro com 80 propostas políticas. Apesar do lançamento, que se assemelha a um manifesto, o ex-presidente anunciou que vai esperar até dezembro para decidir sobre possível candidatura.
No seu novo livro “Unir. Novo mundo, nova esquerda”, publicado pela editora Robert Laffont a 3 de setembro, François Hollande apresenta 80 propostas, algumas das quais aparentemente destinadas a conquistar um eleitorado que vai até ao centro.
Embora o livro tenha contornos de manifesto, François Hollande mantém o suspense sobre as suas ambições presidenciais: afirmou que só em dezembro dirá se avança ou não com uma eventual candidatura ao mais alto cargo da República.
Assim, não participará nas primárias da esquerda marcadas para outubro e esperará para ver se daí sai um candidato sólido, para então se posicionar caso tal não aconteça.
O antigo presidente tinha negado a possibilidade de se recandidatar ao cargo em 2017, face à sua forte impopularidade na altura. Hoje, afirma no novo livro que é preciso “mudar de método, de perspetivas e de ambição”.
Apesar da ambiguidade que alimenta, François Hollande já anda em campanha. O deputado da Corrèze, que debateu recentemente com o candidato de Horizons, Édouard Philippe, e apareceu nas jornadas de verão do PS em Blois, é esperado na quinta‑feira na feira de Châlons‑en‑Champagne (Marne) e estará na próxima semana na festa da Rosa de Frangy‑en‑Bresse (Saône‑et‑Loire), antes de iniciar uma série de sessões de autógrafos do livro.
“O desafio é unir os franceses”, face à bipolarização da sociedade entre “extremos que exploram a divisão” e um contexto internacional tenso, em que França deve afirmar a sua independência em relação aos Estados Unidos e à Rússia, explicou na quarta‑feira na rádio France Inter.
Para isso, “vai ser preciso ir para lá das estruturas partidárias”, deixou escapar à margem das jornadas de verão do Partido Socialista, em Blois. Entre as propostas que apresenta no livro, Hollande afasta‑se da linha do partido em vários pontos, nomeadamente na chamada taxa Zucman – a proposta de taxar o património dos ultra‑ricos –, que classifica como “um slogan. Não uma resposta”, e também na questão das pensões de reforma.
Propostas sociais e económicas em rutura com o Partido Socialista
Enquanto o Partido Socialista (PS) quer voltar a fixar a idade legal de reforma nos 62 anos, François Hollande propõe elevá‑la para 63 anos e depois prolongar progressivamente o período de descontos. “A idade de referência tem de refletir o aumento da esperança de vida e ser ajustada permanentemente”, justificou no livro.
O ex‑chefe de Estado quer também “limitar a 1% durante cinco anos a atualização das pensões, o que geraria uma poupança equivalente ao adiamento em um ano da idade de saída”, e “introduzir uma componente de capitalização”, que seria gerida pelos parceiros sociais.
Outra novidade no plano económico: para melhorar o rendimento disponível, François Hollande sugere “aumentar o salário líquido, reduzindo as contribuições pagas pelos trabalhadores”.
Esta perda de receitas para a Segurança Social seria compensada por um imposto sobre o capital, através de “uma maior progressividade do imposto sobre os rendimentos financeiros” e de “um aumento gradual da taxa normal de IVA, dos atuais 20% para 24%”, imposto que Olivier Faure considera “o mais injusto de todos”. Segundo o antigo presidente, este novo sistema permitiria “aumentar os salários em cerca de 10 % para todos”.
E, para fazer passar a pílula amarga, propõe suprimir a taxa reduzida de IVA de 5,5%, aplicável aos produtos alimentares e às obras de eficiência energética, e fazer o mesmo, mas de forma pontual, com os combustíveis. Quer ainda reduzir os impostos de produção, diminuindo as ajudas às empresas, tal como propõe Édouard Philippe.
Que lugar para a Europa?
No livro, François Hollande traça um retrato alarmante da situação política mundial.
“As democracias estão apanhadas na tempestade, atingidas pela irrupção das guerras, pelo aquecimento global, pela escalada vertiginosa das desigualdades, pelos crimes do narcotráfico ou pela revolução da IA. Os medos alimentam as revoltas, de que os extremistas se apoderam ao semear a divisão.”
Para o antigo presidente, “o próximo ano determinará mais do que o nosso futuro. Decidirá o destino do nosso continente e o nosso lugar no mundo.”
Sobre a Europa, defende o papel de França na União Europeia, ao mesmo tempo que pede o reforço da autonomia estratégica do bloco, num contexto internacional cada vez mais fragmentado.
Em abril, no evento Printemps du Souffle breton, organizado pelo movimento político do presidente da região Bretanha, Loïg Chesnais‑Girard, deixou o aviso: “não pensemos que, quando Donald Trump deixar de ser presidente, os Estados Unidos vão voltar à Europa como dantes. Isso acabou”.
Defendeu ainda uma Europa a várias velocidades, com um grupo restrito de seis a oito Estados‑Membros a liderar as “indústrias de futuro, do digital e da inteligência artificial”, mas também a área da defesa.
Argumentos para seduzir os centristas?
Numa entrevista à Radio J, o presidente do MoDem, François Bayrou, afirmou que François Hollande defende “ideias que são hoje mais compatíveis do que eram” com o centro político.
Questionado pela AFP, um dirigente do partido Horizons, liderado por Édouard Philippe, candidato já declarado às presidenciais, considera que François Hollande transmite “a impressão de ser um candidato de centro‑direita. É um posicionamento interessante”, enquanto outro candidato à eleição presidencial nota que ele “fala bastante à direita para um candidato de esquerda”.
Mas o antigo presidente insiste que continua “socialista” e mantém vários marcadores de esquerda, ao indicar no livro que pretende “fazer contribuir as grandes heranças e os patrimónios superiores a 10 milhões de euros brutos”, elevar para 30 % a representação dos trabalhadores nos conselhos de administração das empresas e criar um cheque de 10 mil euros, batizado “entrada na vida”, para os jovens que cumprirem serviço cívico.