Mikhail Kamynin, chefe da representação diplomática da Rússia em Portugal, foi convocado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, após a Alemanha ter acusado a Rússia de responsabilidade direta na tentativa de ataque com drones.
O embaixador da Rússia em Lisboa rejeita que o país esteja por detrás da alegada tentativa de ataque contra o aeroporto de Leipzig, na Alemanha, na noite de 4 para 5 de agosto, depois de o governo de Berlim ter acusado formalmente a Rússia pelo sucedido e ter anunciado uma série de sanções adicionais.
Na terça-feira, o ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt, disse que a análise do incidente "encaixa no padrão conhecido das operações híbridas russas na Europa". A Alemanha, membro da NATO, há muito que acusa Moscovo de a ter como alvo numa campanha de "ataques híbridos" que envolvem espionagem e sabotagem, o que o Kremlin rejeita.
O chefe da representação diplomática russa em Lisboa, Mikhail Kamynin, esteve reunido com a diretora-geral da Política Externa, Helena Malcata, esta quarta-feira, depois de o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, o ter convocado a dar explicações no MNE.
A embaixada emitiu uma nota na sequência da reunião, em que desmente qualquer envolvimento russo no incidente de Leipzig, argumentando que as autoridades ucranianas "procuram envolver a União Europeia o mais profundamente possível no confronto com a Rússia, conduzindo a situação para uma escalada perigosa". Isto numa altura em que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, diz que a Europa precisa de se preparar para uma "nova era de segurança" e que a chamada "guerra híbrida" movida por Moscovo é o "novo normal".
A nota da embaixada russa acrescenta que os dois diplomatas discutiram os "ataques deliberados de Kiev contra alvos civis que têm sido realizados desde 2014".
"Portugal é um dos países mais hostis à Rússia"
A convocatória feita por Rangel ao embaixador foi motivada pelas acusações da Alemanha e segue-se também às declarações feitas num canal de televisão por parte do adido de imprensa da embaixada, Aleksei Chekmarev, que acusa Portugal de ser "um dos países mais hostis à Rússia na Europa", dizendo que "Lisboa segue as políticas antirrussas da União Europeia e da NATO e apoia completamente as sanções de Bruxelas contra Moscovo", além de que "presta apoio abrangente ao regime de Kiev, que visa reforçar as capacidades defensivas de Ucrânia e, deste modo, causar danos à Rússia".
Ao acusar a Rússia de estar por detrás do incidente de Leipzig, o governo de Friedrich Merz mandou encerrar a "Casa Russa da Ciência e da Cultura" em Berlim, um edifício de sete andares inaugurado em 1984 naquela que era então a Berlim Oriental, capital da extinta RDA. O edifício situa-se perto da embaixada russa e, segundo especialistas, pode ser um centro de espionagem. O consulado russo em Bona também fecha as portas a mando do governo de Berlim. Em retaliação, a Rússia mandou encerrar os institutos Goethe no país.
Na noite de 4 de agosto, um drone carregado com explosivos foi encontrado numa zona do aeroporto de Leipzig onde estavam vários aviões de carga ucranianos. Um segundo aparelho atingiu um avião da transportadora DHL. Dez dias depois, foi encontrado um terceiro drone num campo em Kabelsketal, no estado da Saxónia-Anhalt, junto à zona ocidental do aeroporto.
O aeroporto de Leipzig é um importante centro europeu de transporte de carga, utilizado como ponto de trânsito para o envio de ajuda militar destinada à Ucrânia.