O seu homicídio chocou o mundo e colocou Malta, o mais pequeno Estado-Membro da União Europeia, no centro das atenções devido às suas aparentes falhas no Estado de direito.
Um tribunal maltês absolveu, na quarta-feira, o magnata Yorgen Fenech da acusação de ter orquestrado o assassinato da repórter de investigação Daphne Caruana Galizia num atentado com carro-bomba, o que provocou indignação por parte da família da vítima e dos defensores da liberdade de imprensa.
O abastado empresário tinha sido acusado de ser o mentor do assassinato, em 2017, de Caruana Galizia, de 53 anos, que desencadeou protestos sem precedentes e levou à queda de um governo.
A família de Caruana Galizia afirmou num comunicado que a absolvição de Fenech “lhe negava a justiça que ela merece”.
O seu filho, Matthew Caruana Galizia, afirmou que os jurados tomaram uma “decisão terrível... da qual o nosso país poderá nunca recuperar”.
O Centro Europeu para a Liberdade de Imprensa e dos Media (ECPMF) afirmou que o veredito envia “uma mensagem perturbadora a quem ataca e mata jornalistas”.
Apelidada de “WikiLeaks de uma só mulher”, Caruana Galizia expôs corrupção ao mais alto nível no país, revelando ligações obscuras entre as elites empresarial e política de Malta.
O assassínio de Caruana Galizia chocou o mundo e colocou Malta, o mais pequeno Estado-membro da União Europeia, sob os holofotes pelas aparentes falhas no Estado de direito.
O crime provocou também uma crise política e a demissão do então primeiro-ministro Joseph Muscat, em janeiro de 2020, depois da indignação generalizada e de protestos em massa devido à perceção de que tentava proteger amigos e aliados da investigação.
Um inquérito público de dois anos, publicado em julho de 2021, concluiu que o Estado deve “assumir a responsabilidade” pelo assassínio, devido ao “clima de impunidade” criado pelo governo.
Fenech, magnata com interesses nos setores da energia e do turismo, foi detido no seu iate em 2019 quando tentava sair de Malta por mar, depois de um intermediário no assassínio ter recebido a promessa de um perdão em troca da identificação dos envolvidos.
O Ministério Público acusava Fenech de ter mandado matar a jornalista porque ela estava prestes a publicar um artigo comprometedor sobre o tio.
Indignação extrema
Até ao momento, cinco pessoas foram condenadas no âmbito do caso, por fornecerem os explosivos e executarem o assassínio.
Em junho de 2025, Robert Agius e Jamie Vella foram considerados culpados de fornecerem a bomba que matou Caruana Galizia e condenados a prisão perpétua.
Os três homens que executaram o crime, os irmãos George e Alfred Degiorgio e Vince Muscat, cumprem penas de prisão depois de terem sido considerados culpados pelo seu papel.
Um relatório de 437 páginas, elaborado em 2021 por um painel de três juízes, concluiu que o Estado falhou no dever de proteger Caruana Galizia e a sujeitou a ataques pessoais e abusos verbais por parte de políticos.
O ambiente criado gerou um “clima favorável” ao seu assassínio e havia “provas convincentes” de que os autores sabiam que seriam protegidos por “pessoas nos mais altos cargos do Estado”.
“A responsabilização de todos os que permitiram, facilitaram ou protegeram os assassinos está há muito em falta”, afirmou a família no comunicado de terça-feira.
“Nove anos após o brutal assassínio de Daphne, as falhas institucionais que permitiram o crime continuam por corrigir e por reformar.”
A organização de defesa da liberdade de imprensa Repórteres Sem Fronteiras (RSF) disse estar “profundamente indignada”.
“O veredito significa que, quase nove anos após o assassínio de Daphne Caruana Galizia, as autoridades maltesas não conseguiram identificar nem condenar o autor moral.”
“É preciso que seja feita justiça plena e que as autoridades maltesas implementem, sem mais demora, as medidas de proteção de jornalistas e da liberdade de imprensa que há muito são necessárias”, acrescentou.