Realizada desde 1976, a festa anual do Partido Comunista Português continua a ter enchentes: uns vêm pela política, outros pelos concertos. Este ano, marcado pela polémica com a FPLP, Ney Matogroso foi a figura cimeira.
Quando soam os primeiros acordes da Carvalhesa, na Festa do Avante!, todos sabem que a ordem é para dançar: esta música tradicional do interior de Portugal foi adotada em meados dos anos 1980 como hino das campanhas do Partido Comunista Português (PCP) e é uma constante no encontro anual que marca a rentrée do mais antigo dos partidos políticos em Portugal, um dos poucos sobreviventes na Europa do grupo de partidos comunistas tradicionais, e um dos mais fiéis às raízes.
A festa começou a realizar-se em 1976, dois anos depois da restauração da democracia e da legalização do PCP, que até aí operava na clandestinidade, seguindo o modelo de festivais idênticos com o nome dos jornais oficiais dos partidos comunistas na Europa, como a Fête de l'Humanité em França ou a Festa dell'Unità em Itália.
Este ano, a edição número 50 voltou a atrair grandes multidões, com dezenas de milhares de pessoas de todas as idades, incluindo muitos jovens. No entanto, o mundo mudou, o muro de Berlim caiu há 37 anos, Portugal mudou e a representatividade do PCP é muito diferente da que tinha nos primórdios: em 1976, o partido elegeu 40 deputados nas primeiras eleições legislativas livres após o 25 de Abril. Hoje, tem apenas três.
No discurso de fecho, no domingo, o secretário-geral Paulo Raimundo falou sobretudo de política interna, mas é a política externa que está a pôr o PCP nas bocas do mundo. À posição ambígua sobre a Ucrânia, sem uma condenação clara da invasão russa, seguiu-se o convite a uma organização palestiniana que a União Europeia colocou na lista de grupos terroristas, a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), para estar presente. O grupo acabou por não participar, com o PCP a alegar que "não estavam reunidas as condições".
Paulo Raimundo nega que a FPLP tenha sido alvo de um "desconvite". "A história não acabou, porque tivesse acabado, ainda hoje Nelson Mandela seria considerado um terrorista", diz. "A União Europeia que tem essa lista é a mesma União Europeia que recebe de braços abertos aquele que hoje está na presidência da Síria, que até há dois anos estava também na lista (de terroristas)", acrescenta.
O apoio à causa palestiniana está omnipresente no evento, onde os keffiyehs rivalizam com as bandeiras vermelhas e as t-shirts de Che Guevara como acessórios mais usados. Raimundo garante à Euronews que estar pela Palestina não é estar contra todos os israelitas: "Temos um grande orgulho em ter connosco, mais uma vez, o Partido Comunista de Israel. A presença deles enche-nos de orgulho, pois sabemos o esforço que tiveram de fazer para estarem presentes", diz.
A Festa do Avante! atrai multidões à Quinta da Atalaia, na margem sul do Tejo, um terreno que pertence ao partido desde 1989. Mas nem todos vêm por militância: muitos são atraídos pelo vasto programa cultural, nomeadamente pelos concertos. Com um passe de três dias a 35 euros, acaba por ser uma opção muito mais barata que a maioria dos festivais de música. Outro polo de atração é a comida de todas as regiões de Portugal - e até de outros países - trazida pelas várias delegações presentes.
Em termos de cartaz musical, a diversidade é a palavra de ordem: A Nona Sinfonia de Beethoven abriu os concertos no palco principal na sexta-feira. Sábado, foi Ney Matogrosso a provocar a maior enchente. O cantor brasileiro de 85 anos, uma das maiores figuras da música popular do seu país, foi convidado pelo guitarrista português Pedro Jóia num concerto criado especialmente para a ocasião, em que até Manuel João Vieira fez uma aparição para cantar o clássico Hasta Siempre Comandante.