Após um caso de que a avó foi vítima, Rita Barbosa teve uma ideia de génio e venceu um importante concurso na Alemanha com uma app que bloqueia burlas, sobretudo às pessoas mais vulneráveis. A PSP e outros parceiros de peso entraram no projeto.
Tem apenas 24 anos, mas está na origem de uma das apps mais faladas do momento, antes ainda de ter sido oficialmente lançada: o Guardião, ainda em fase de testes, deverá estar disponível dentro de algumas semanas e promete acabar com o flagelo das burlas por telefone e SMS, sobretudo junto das pessoas mais idosas e mais vulneráveis. A startup criada por Rita Barbosa e pelo irmão Tiago, de 27 anos, anunciou novos parceiros de peso, depois de ter já anunciado uma colaboração com a Polícia de Segurança Pública (PSP).
A avó de Rita caiu numa "esparrela" igual à de muitos outros idosos: um dia, recebe um telefonema dizendo-lhe que a água que consome é imprópria e deve usar filtros que a tornam limpa e potável. A "empresa" que a contacta propõe-lhe vender quatro filtros a mil euros cada, perfazendo uma despesa de quatro mil euros, que a idosa aceita pagar. Problema: os mesmos filtros estão à venda no mercado a cerca de vinte euros...
Só numa das visitas da neta se deu conta de que tinha sido enganada. Rita entrou, nesse mesmo ano de 2024, para um mestrado em Inteligência Artificial com aplicações em medicina, na Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Teve então a ideia de criar uma app que ajudasse a prevenir situações como a que aconteceu com a avó, algo que foi tornado possível pelos recentes avanços na inteligência artificial: "Estando muito em cima desta nova tecnologia de ponta, percebi que já era possível, com os desenvolvimentos mais recentes, realizar uma aplicação que prevenisse burlas nos telemóveis sem ter problemas de privacidade", explica Rita Barbosa. "Algo que, há apenas seis meses, ainda não era possível".
Daí a apresentar a ideia num concurso internacional foi um passo: a ideia do Guardião foi mostrada no Cursor Hackathon AI realizado em Hamburgo e foi galardoada com o primeiro prémio.
Rita e Tiago juntaram-se então para desenvolver o projeto. Rita tinha o mais precioso: a ideia. Tiago, detentor de um mestrado na área da inteligência artificial aplicada à cibersegurança, tinha a experiência de desenvolver startups, tendo já criado a Three Sigma, uma empresa líder no setor da tecnologia financeira (fintech).
"O meu irmão, sendo ele da área de inteligência artificial e cibersegurança, viu este projeto com que ganhei o prémio e disse que me ajudaria a trazer isto para Portugal", conta Rita. "Como ele já tinha muita experiência em montar startups, ajudou-me a operacionalizar tudo. Sendo que era uma história pessoal, não apenas minha, mas também dele, achou que a minha missão de querer proteger os telemóveis das pessoas mais vulneráveis era algo que tinha de ser feito, porque a tecnologia está a ficar cada vez mais sofisticada e a única forma de combater este tipo de tecnologia é usar o mesmo tipo de tecnologia".
A ideia existia, o know-how também, havia também uma empresa montada. Faltava algo: um parceiro que ajudasse a transformar o conceito numa aplicação prática que pudesse ser usada por milhões de pessoas. É aí que entra a Subvisual, uma das mais importantes empresas portuguesas na área da criação de apps, que tem no currículo, entre outras coisas, o desenvolvimento da StayAway Covid, a app do Serviço Nacional de Saúde para os alertas relativos à Covid 19.
"Eles têm os conhecimentos de aceleração e sabem o que é preciso para fazer uma aplicação segura que todos os portugueses consigam usar", explica Rita. Além da Subvisual, também a Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova (Nova FCT), onde Rita se licenciou, "entrou no barco" e tornou-se parceira do projeto.
Como funciona o Guardião?
A grande vantagem para o utilizador, sobretudo para o público-alvo que se quer atingir com esta ferramenta, é que não é preciso fazer absolutamente nada para a app funcionar, uma vez instalada: "Isto foi feito a pensar na população mais idosa, por isso queremos sempre atuar de forma invisível e proativa". Na prática, isso significa que basta instalar a app e dar as autorizações necessárias. Tudo o resto é feito sozinho pela aplicação, que bloqueia automaticamente qualquer chamada telefónica ou SMS que se suspeite ser uma burla. "A app deteta todos os padrões de burlas conhecidas, seja o do filho que escreve de um novo número a pedir dinheiro, o velho golpe do anúncio de que se ganhou um prémio importante ou outras burlas padronizadas", explica Rita Barbosa. "É como se fosse uma assistente virtual que verifica e faz a triagem da chamada antes de esta chegar ao telemóvel. Ou seja, quando é uma chamada, nem toca se for burla. Se for uma mensagem, não chega. Verifica os links, verifica o padrão de urgência e se corresponde a algum padrão conhecido".
A app consegue mesmo distinguir, segundo a criadora, uma mensagem fraudulenta de uma mensagem legítima, por exemplo, de um filho a dizer que perdeu o telemóvel ou ficou sem bateria e está a usar um novo número. Além de muitos números usados por burlões estarem referenciados (embora nem sempre isso aconteça), a inteligência artificial usada pela app é eficaz na triagem.
Por enquanto, apenas funciona em relação às SMS e às chamadas telefónicas, mas Rita planeia alargar o âmbito, numa fase posterior, ao e-mail ou ao Whatsapp: "O que nós queremos é proteger todas estas novas plataformas de burlas, estamos a trabalhar nisso".
Uma das primeiras situações que Rita testou foi a burla de que a avó foi vítima. A app detetou imediatamente a origem maliciosa da mensagem e bloqueou-a: "Foi um dos primeiros testes que fizemos internamente e detetou imediatamente que era burla". Para ela, mais do que fazer com que as pessoas não percam dinheiro com este tipo de esquemas, é importante impedir que outras pessoas vulneráveis passem pelo que a avó passou a nível emocional: "Além do dinheiro, há o medo, a incerteza, o isolamento. São coisas que afetam a pessoa, muitas vezes, mais do que o próprio facto de perder dinheiro".
Rita acredita que, dos dois milhões de pessoas com mais de 65 anos existentes em Portugal, uma parte importante esteja vulnerável a este tipo de situação, sendo este o grupo mais exposto a casos semelhantes, segundo dados da polícia. Se este tipo de burlas atinge particularmente os idosos, outras fraudes, como a chantagem sexual online, atingem a população mais jovem. Rita acredita que, numa fase posterior, esta app ou outra que venha a criar possa também prevenir essas situações.
Quando estará operacional?
O Guardião terá de passar por várias fases de testes antes de ser disponibilizado ao grande público.
Para já, está a passar por uma fase de testes interna. A próxima etapa, que Rita Barbosa prevê estar concluída ainda durante o mês de abril, é fazer um teste num grupo de cerca de cem pessoas. Rita rejeita o termo "cobaias", até porque não se trata exatamente disso, mas de pessoas com conhecimento na área que darão um feedback importante, algumas ligadas a instituições como a PSP ou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Algumas pessoas-chave na estruturta da APAV, incluindo elementos que trabalham na área das linhas de apoio a idosos, como a Linha Internet Segura, que contactam todos os dias com casos semelhantes ao da avó de Rita, vão colaborar nesta fase.
Na terceira fase, os testes serão alargados a todas as pessoas que se inscreveram no site da aplicação para experimentarem (ainda é possível fazê-lo).
"Queremos testar num grupo de cerca de mil pessoas e depois ir alargando a dois mil, três mil, e assim por diante. Só depois de a app ter sido testada em milhares de pessoas, as chamadas cohorts, será aberta a todos, algo que Rita quer que aconteça "o mais depressá possível". A contribuição da Subvisual para o desenvolvimento é crucial neste aspeto: "Eles estão a acelerar o processo de uma forma incrível", diz.
Onde entra a PSP?
"Eles têm a mesma missão que nós, que é a de proteger as pessoas", diz Rita, que conta ter sido contactada pela polícia assim que saiu a notícia do prémio na Alemanha. "Assim que eles viram que nos estamos a mexer para conseguir proteger mais famílias, recebi uma chamada de Ricardo Toscano (diretor do núcleo de combate à cibercriminalidade do Departamento de Investigação Criminal da PSP) dizendo que a polícia está muito alinhada com aquilo que queremos fazer e pronta a colaborar connosco em tudo aquilo de que precisássemos". Daí à assinatura do protocolo foi um passo.
Para a Guardião, a PSP traz uma grande contribuição, que é a da inteligência criminal: "Eles já conhecem os padrões de burlas, já sabem como é que as elas acontecem em Portugal, porque muitas vezes as pessoas denunciam à PSP. Neste preciso momento, estão a ajudar-nos e a dar feedback sobre como conseguimos proteger melhor as pessoas".
Outra linha de colaboração é fazer com que, no futuro, a app possa funcionar como meio de comunicação entre a polícia e o usuário: "Ou seja, quem quiser denunciar alguma coisa poder fazê-lo connosco, ou então ter os contactos diretamente, isto é, encaminharmos as pessoas para os contactos certos".
"A aplicação foi feita, pelo menos nesta primeira fase, para a população mais vulnerável, com a qual a PSP, através de diversos programas de proximidade, trabalha no seu dia-a-dia", explica Ricardo Toscano à Euronews. São os casos do programa "Escola Segura"ou ainda o programa "Apoio 65", de apoio aidosos.
Através de programas como estes, em que a polícia contacta diretamente com a população, a PSP propõe dar a conhecer a app junto destas populações, em especial os idosos, que são o público-alvo do Guardião, pelo menos nesta primeira fase. Para os atingir, os burlões usam um veículo preferencial: o telefone. "O primeiro contacto com a vítima é sempre, ou quase sempre feito através de uma chamada telefónica", acrescenta.
A PSP está a dar uma ajuda preciosa no desenvolvimento da app no que toca à identificação de padrões: "Uma das questões que estamos a desenvolver é identificar novos modus operandi, ou seja, tipos de conversas que a aplicação irá identificar como possíveis burlas", explica Toscano. Isto além de a PSP ter já uma boa base de dados com números usados para burlas já identificados.
Numa fase posterior, Ricardo Toscano revela à Euronews querer desenvolver um toolkit, em colaboração com a Guardião, que irá prevenir não só as burlas por telefone como "todo um ecossistema digital" que incluirá a verificação de e-mails ou sites de comércio online. Para esse projeto, há já um conjunto de grandes empresas do setor interessadas na colaboração.
Com a tecnologia cada vez mais desenvolvida e de cada vez mais fácil acesso, burlar tornou-se fácil: "Não é preciso ter grandes conhecimentos técnicos, sobretudo desde o recente crescimento da inteligência artificial. Hoje em dia, é extremamente fácil cometer crimes desta natureza", conclui Toscano. Esta "democratização" do cibercrime exige uma resposta à altura, da qual a nova app quer ser uma parte importante. Para que casos como o da avó de Rita se repitam o menos possível.