Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

UE: continuam problemas na economia dos dados de 500 mil milhões de euros

Concebido para ajudar, o Digital Omnibus deixa agora a UE à beira de recuar até de reformas modestas
Omnibus Digital destinava-se a ajudar, mas a UE arrisca agora recuar até das reformas mais modestas Direitos de autor  Canva
Direitos de autor Canva
De Egle Markeviciute, EU Tech Loop with Euronews
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

IA domina atenções, economia de dados europeia gera milhares de milhões, mas aplicação desigual do RGPD trava inovação e UE recua na reforma Digital Omnibus.

Com a ascensão da inteligência artificial, a expressão «economia dos dados» tem ficado um pouco na sombra, apesar de o mercado europeu dos dados e a própria economia dos dados continuarem a ter um peso significativo. Segundo um estudo (fonte em inglês) de 2025, encomendado pela Comissão Europeia, o mercado dos dados ultrapassou, em 2025, os 115 mil milhões de euros e deverá atingir 148 mil milhões de euros até 2030. O conceito mais abrangente de economia dos dados já valia 325 mil milhões de euros em 2019 (2,6 % do PIB da UE) e previa-se que chegasse aos 500 mil milhões de euros em 2025.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Os obstáculos que impedem as empresas europeias baseadas em dados de crescer, se tornarem competitivas a nível global e contribuírem para a economia da UE são, em grande medida, semelhantes entre setores: a definição de dados pessoais no Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) é ampla, as empresas têm pouca capacidade para lidar com interpretações fragmentadas do RGPD nos diferentes Estados-Membros da UE e as recomendações e orientações não vinculativas do Comité Europeu para a Proteção de Dados (CEPD) ajudam apenas de forma limitada. Enquanto as grandes empresas (frequentemente não europeias) dispõem de recursos para dialogar com as autoridades locais e até para contestar o CEPD, as empresas mais pequenas são deixadas a enfrentar sozinhas um mosaico de regras por toda a UE.

Alterar o RGPD, mesmo de forma muito cirúrgica, é um tema altamente sensível na UE, com muitos defensores da privacidade e autoridades de proteção de dados (APD) a manterem-se cépticos. Somem-se as tensões geopolíticas entre a UE e os Estados Unidos, bem como os receios de que os dados dos europeus possam ir parar para fora da UE, e até as reformas mais elementares correm o risco de ficar bloqueadas.

Pacote Digital Omnibus é conduzido por europeus ou por americanos?

Os problemas enfrentados pelas empresas europeias repetem-se vezes sem conta e tudo indica que a Comissão Europeia tem vindo a ouvi-los. A diretora-adjunta da DG CONNECT, Renate Nikolay, respondeu de forma clara a uma das preocupações dos eurodeputados sobre o Digital Omnibus, acusado de «ser favorável às exigências de lóbi das grandes empresas tecnológicas», na reunião da Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos (LIBE) de 26 de janeiro:

«Permitam-me sublinhar que a agenda de simplificação nada tem a ver com o lóbi dos Estados Unidos. A agenda de simplificação da Comissão foi desenvolvida muito antes de a atual administração norte-americana tomar posse. Resulta, em grande medida, do trabalho de Letta e Draghi e, de certo modo, do debate que teve lugar na União Europeia antes das últimas eleições para o Parlamento Europeu e da transição de uma Comissão para outra.» Havia uma perceção, em particular entre as empresas europeias, de que a Europa regulava em demasia e não ouvia as preocupações das empresas europeias quanto aos custos de conformidade e a um quadro regulamentar que, por vezes, lhes parecia pouco coerente. Foi esse o apelo a que se respondeu com a agenda de simplificação da Comissão e esse é também um dos principais motores destes pacotes Digital Omnibus».

O ceticismo dos eurodeputados e o receio de serem vistos como atuando contra os interesses europeus são compreensíveis: alguns grupos quase de lóbi, que à partida se opõem à agenda de simplificação, apresentaram essa simplificação como «lóbi dos Estados Unidos», exploraram as sensibilidades europeias em relação aos EUA e ignoraram por completo os comentários e apelos das próprias empresas europeias.

Recuo do Conselho face à ambição da Comissão Europeia para o RGPD

Ao longo do último ano, a Comissão Europeia trabalhou em várias iniciativas para simplificar as regras europeias em matéria de dados e torná-las mais operacionais para as empresas, inovadores, investigadores e administrações públicas europeias.

A Estratégia para a União dos Dados, por exemplo, inclui a Diretiva Dados Abertos, o Regulamento Dados, o Regulamento Governação de Dados e o Regulamento relativo ao livre fluxo de dados não pessoais. Prevê-se que todos estes atos legislativos sejam fundidos num novo Regulamento Dados único. A Comissão tem igualmente preparado dois pacotes Digital Omnibus (fonte em inglês) - o Digital Omnibus para a IA e o Digital Omnibus orientado para as regras de dados.

A proposta inicial da Comissão Europeia para o Digital Omnibus sobre dados previa alterações modestas ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), introduzindo critérios para dar às empresas que trabalham com dados maior clareza sobre quando é que os dados pessoais estão suficientemente pseudonimizados e deixam de se aplicar as regras rígidas do RGPD, o que constitui dados pessoais, os direitos dos titulares dos dados e outros aspetos.

Mesmo estas propostas modestas terão sido rejeitadas (fonte em inglês) pelo Conselho. Em vez disso, o Conselho remeteu o texto para as habituais recomendações de recurso às orientações do Comité Europeu para a Proteção de Dados (CEPD), retirando ao mesmo tempo as referências ao que constitui ou não dados pessoais e deixando, na prática, as empresas europeias de volta à estaca zero.

Equilibrar interesses de dois mundos: proteção de dados e inovação

O Comité Europeu para a Proteção de Dados procura, de facto, harmonizar as abordagens dos Estados-Membros da UE ao RGPD através de diversas orientações e recomendações, mas estas demoram anos a ser emitidas e não são vinculativas, o que está longe de trazer mais clareza para as empresas europeias.

O advogado polaco especializado em tecnologia Mikołaj Barczentewicz sublinha (fonte em inglês) que o caráter não vinculativo das orientações do CEPD não protege verdadeiramente as empresas europeias de problemas de fiscalização no futuro. Defende que a Europa deve reformar seriamente a aplicação do RGPD, introduzindo uma fiscalização mais independente e um melhor equilíbrio entre os interesses das empresas, da inovação e de outros interesses públicos, por um lado, e a privacidade, por outro.

Fica em aberto a questão: se a UE se orgulha de ter um dos melhores regimes de proteção de dados do mundo, conseguirá também afirmar que encontrou o equilíbrio certo entre autoridades de proteção de dados e empresas, entre privacidade e inovação, entre proteção e autorização?

A resposta importa, perante as ambições de competitividade da UE, a crise económica que se avizinha e a necessidade de reforçar as empresas europeias e a própria economia europeia.

Artigo originalmente publicado em EU Tech Loop (fonte em inglês) e republicado na Euronews ao abrigo de um acordo

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Malta oferece acesso gratuito ao ChatGPT Plus através de programa nacional de IA

Nave Psyche da NASA passa por Marte em busca de pistas sobre a formação da Terra

Europa e a revolução da defesa com IA: quem lidera e o que se segue