Na declaração inicial, o advogado de Musk, Steven Molo, afirmou que Altman e Brockman, com a ajuda da Microsoft, assumiram o controlo de uma fundação «cuja missão era o desenvolvimento seguro e aberto da inteligência artificial». Musk reclama indemnizações e a saída de Altman do conselho de administração da OpenAI
Elon Musk, presidente executivo da Tesla e um dos primeiros cofundadores da OpenAI, depôs esta terça-feira num julgamento de alto risco sobre o seu litígio com o antigo amigo Sam Altman, num processo que pode influenciar o rumo futuro da inteligência artificial (IA).
Em 2024, Musk intentou uma ação judicial contra Altman, o cofundador da OpenAI Greg Brockman e a Microsoft, na sequência da mudança da OpenAI em relação à sua estrutura original sem fins lucrativos.
“No fundamental, penso que vão tentar tornar este processo... muito complicado, mas na realidade é muito simples”, disse Musk. “A questão é que não é aceitável apropriar-se de uma instituição de caridade.”
Na declaração inicial, o advogado de Musk, Steven Molo, afirmou que Altman e Brockman, com a ajuda da Microsoft, assumiram o controlo de uma fundação “cuja missão era o desenvolvimento seguro e aberto da inteligência artificial”. Musk reclama uma indemnização e a destituição de Altman do conselho de administração da OpenAI.
O julgamento começou na segunda-feira no Tribunal Federal do Distrito Norte da Califórnia, em Oakland, sob a presidência da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, e deverá durar entre duas e três semanas.
O que disse Musk?
Musk foi a primeira testemunha chamada a depor no julgamento, na terça-feira, com o advogado a começar por lhe pedir que contasse a sua história de vida.
Isso incluiu detalhes sobre a mudança, aos 17 anos, da África do Sul para o Canadá, onde afirmou ter trabalhado durante algum tempo como lenhador, entre outros empregos ocasionais, antes de se mudar para os Estados Unidos. Enumerou as várias empresas que fundou e dirige, incluindo a SpaceX, a Tesla, a The Boring Company, a Neuralink, entre outras.
Questionado sobre como arranja tempo para tudo, Musk respondeu que trabalha entre 80 e 100 horas por semana, que não tira férias e que não possui casas de férias nem iates.
Molo perguntou também a Musk quais são as suas opiniões sobre a IA. Musk disse esperar que a IA seja “mais inteligente do que qualquer ser humano” já no próximo ano. Assinalou que uma preocupação antiga em relação à IA é saber o que acontece quando os computadores se tornam muito mais inteligentes do que as pessoas.
Comparando-a a uma “criança muito inteligente”, Musk afirmou que, quando essa criança cresce, “deixamos de a conseguir controlar”, mas podemos incutir-lhe valores como a honestidade, a integridade e o sentido de bem.
Musk contou a sua versão da fundação da OpenAI, dizendo que nasceu, essencialmente, de uma conversa que teve com o cofundador da Google Larry Page, que o chamou de “especista” por colocar a sobrevivência da humanidade acima da da IA.
A proximidade entre Musk e Altman consolidou-se em 2015, quando acordaram desenvolver a IA de forma mais responsável e segura do que as empresas orientadas para o lucro controladas por Page e Sergey Brin, da Google, e por Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, segundo documentos apresentados antes do julgamento.
Nessa altura, disse Musk, a Google tinha todo o dinheiro, todos os computadores e todo o talento em IA. “Não havia contrapeso.”
Musk recordou que, desde cedo, se discutiram fontes alternativas de financiamento para a OpenAI para além das doações e que não se opunha à existência de um braço com fins lucrativos, mas que “o acessório não devia mandar no principal”. Haveria um teto para os lucros e, assim que a inteligência artificial geral, AGI, fosse “alcançada”, a parte lucrativa deixaria de existir.
OpenAI acusa Musk de tentar travar o seu crescimento
A OpenAI desvalorizou as acusações de Musk, considerando-as ressentimento destinado a travar o rápido crescimento da empresa e a reforçar a sua própria xAI, lançada em 2023 como concorrente.
Na sua declaração inicial, o advogado da OpenAI, William Savitt, disse aos jurados: “Estamos aqui porque o senhor Musk não conseguiu o que queria da OpenAI.”
Savitt afirmou que Musk usou promessas de financiamento para pressionar os membros fundadores da OpenAI e tentou assumir o controlo da empresa e fundi-la com a Tesla. Na realidade, acrescentou, Musk queria criar uma empresa com fins lucrativos e deter mais de 50% do capital.
Segundo Savitt, não há registo de qualquer promessa feita a Musk de que a OpenAI permaneceria para sempre uma entidade sem fins lucrativos. O que realmente o preocupava, disse, não era o estatuto jurídico da OpenAI, mas sim ganhar a corrida da IA à Google.
O advogado de Musk defendeu que o caso não diz respeito ao seu cliente, mas sim a Altman, Brockman e à Microsoft.
Em 2017, cerca de dois anos após a criação da OpenAI, tornou-se claro que a organização precisaria de mais dinheiro, e Molo afirmou que os fundadores acabaram por optar pela criação de um braço com fins lucrativos que apoiaria a parte sem fins lucrativos. As condições foram limitadas para os investidores, de forma a que “não pudessem obter lucros infinitos”.
“Não há nada de errado numa organização sem fins lucrativos ter uma subsidiária lucrativa, mas esta tem de servir a missão”, sublinhou Molo.
Espera-se que Musk continue a depor na quarta-feira.
Prevê-se igualmente o depoimento de Altman e do presidente executivo da Microsoft, Satya Nadella.
Altman, Musk e outros fundadores lançaram a OpenAI em 2015 como organização sem fins lucrativos.
Musk foi, inicialmente, o maior financiador individual da OpenAI, contribuindo com mais de 44 milhões de dólares (38 milhões de euros) para a então startup.
Musk saiu do conselho de administração da OpenAI em 2018, após desentendimentos com Altman. Um ano antes, terá tentado, sem sucesso, obter maior controlo sobre a empresa.