Uma aplicação permite trocar conhecimentos e competências sem dinheiro, numa altura de inflação e aumento do custo de vida que impulsiona novas formas de economia colaborativa.
A troca direta, a forma de intercâmbio mais antiga da humanidade, está a viver uma inesperada segunda juventude. Numa altura marcada pela inflação, o aumento do custo de vida e pela incerteza económica, cada vez mais pessoas procuram alternativas para aceder a serviços sem terem de recorrer ao dinheiro.
A resposta chega, paradoxalmente, pela mão da tecnologia: uma nova geração de aplicações está a recuperar o espírito da troca tradicional, substituindo o dinheiro por tempo, conhecimentos e competências. Aquilo que durante séculos consistiu em trocar produtos ou favores entre vizinhos transfere-se agora para o ambiente digital.
Em vez de pagarem por um serviço, os utilizadores trocam aquilo que sabem fazer. Um especialista em fiscalidade pode ajudar com a declaração de IRS em troca de aulas de cozinha japonesa; alguém com experiência em inteligência artificial pode receber aconselhamento para organizar uma viagem; e um professor de línguas pode aprender fotografia sem desembolsar um único euro.
Tempo como moeda
Este regresso à troca direta surge numa altura em que a economia colaborativa continua a ganhar peso e muitas famílias procuram novas formas de otimizar recursos. Em vez da lógica do consumo tradicional, estas plataformas propõem aproveitar um ativo que praticamente toda a gente possui: o conhecimento.
A iniciativa pretende usar o tempo como moeda. A aplicação SACO foi desenvolvida por dois empreendedores espanhóis. O seu funcionamento rompe com os modelos habituais de compra e venda de serviços: aqui não existe dinheiro. A unidade de troca são os minutos. Sempre que um utilizador presta um serviço, acumula tempo que pode depois utilizar para solicitar a ajuda de qualquer outra pessoa da comunidade.
O sistema procura facilitar a troca de conhecimentos sem necessidade de uma compensação económica direta. “É um regresso da troca direta numa versão moderna e digital”, explica um dos cofundadores, o psiquiatra espanhol de ascendência japonesa, Kazuhiro Tajima.
A plataforma reúne perfis muito diversos. Desde professores particulares de línguas ou de música até especialistas em design gráfico, inteligência artificial, consultoria fiscal, desporto, cozinha ou viagens. Até competências do dia a dia que habitualmente não são vistas como uma profissão podem transformar-se num serviço valioso para outros utilizadores.
Talento com valor
A proposta parte de uma ideia simples: praticamente qualquer pessoa possui uma capacidade que pode ser útil para os outros. Muitas vezes, porém, esse conhecimento nunca chega a ser monetizado, seja porque quem o detém não se considera profissional, seja porque simplesmente não encontrou ainda uma forma simples de o oferecer. “Toda a gente tem alguma virtude inata à qual não dá valor ou que não monetiza por medo ou vergonha”, sublinha o criador da aplicação, Kazuhiro Tajima.
Em vez de gerar rendimentos, estas plataformas transformam esse conhecimento numa moeda de troca que permite aceder a outros serviços sem necessidade de gastar dinheiro. Embora a troca direta nunca tenha desaparecido completamente, os seus promotores consideram que tende a ressurgir em períodos de dificuldades económicas.
“A troca direta é a primeira forma de economia e nunca desapareceu totalmente. Em tempos de crise há sempre um aumento”, afirma Tajima. A incerteza económica, aliada à procura de formas de reduzir despesas, está a alimentar o interesse por modelos em que o acesso a determinados serviços depende mais das capacidades pessoais do que do poder de compra.
Trata-se, além disso, de uma tendência alinhada com o crescimento da economia circular e colaborativa, em que partilhar recursos, reutilizar conhecimentos e aproveitar capacidades subaproveitadas se torna cada vez mais apelativo.
Factor humano
O crescimento destas plataformas reflete também outro fenómeno: o desejo de preservar o componente humano numa era marcada pela inteligência artificial. Embora ferramentas como o ChatGPT ou os assistentes virtuais respondam a muitas questões em segundos, não conseguem substituir totalmente a experiência prática, o contexto pessoal ou a aprendizagem direta entre pessoas.
Os promotores da SACO consideram que este tipo de troca não só permite poupar dinheiro, como também gera novas relações sociais e reconhece o valor de competências que muitas vezes passam despercebidas. Para reforçar a confiança, a plataforma inclui um sistema de avaliações semelhante ao de outras aplicações de economia colaborativa.
Numa altura em que a tecnologia parece afastar muitas formas tradicionais de relacionamento, o ressurgimento da troca direta mostra que algumas das ideias mais antigas da economia podem ganhar nova vida precisamente graças à inovação digital. Em vez de moedas, notas ou cartões, a nova divisa passa a ser o tempo, a experiência e o conhecimento.