Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Gronelândia: sistema de saúde é tão mau como Donald Trump diz?

Casas junto à costa de um fiorde em Nuuk, na Gronelândia, no sábado, 24 de janeiro de 2026
Casas junto à costa de um fiorde em Nuuk, Gronelândia, sábado, 24 de janeiro de 2026 Direitos de autor  Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
Direitos de autor Copyright 2026 The Associated Press. All rights reserved
De Marta Iraola Iribarren
Publicado a
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Governo da Gronelândia volta a sublinhar necessidade de profissionais de saúde estrangeiros e de reforçar o sistema após críticas dos EUA a alegados maus-tratos a doentes.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quer enviar um navio-hospital para a Gronelândia "para tratar das muitas pessoas que estão doentes e não estão a ser tratadas", escreveu na Truth Social a 22 de fevereiro.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, recusou a oferta, sublinhando que o sistema de saúde no país é gratuito para todos, algo que, disse, os Estados Unidos não conseguem garantir.

Mas as afirmações de Trump não parecem surgir do nada. A Gronelândia enfrenta há muito dificuldades em recrutar e manter profissionais de saúde. O governo procura responder a este problema com medidas como o alívio das regras de residência para profissionais.

Anna Wangenheim, ministra da Saúde e das Pessoas com Deficiência da Gronelândia, respondeu no Facebook (fonte em inglês) que estão a trabalhar para reforçar o sistema de saúde e que existe uma vontade política crescente de recrutar mais profissionais estrangeiros.

Wangenheim acrescentou que a Gronelândia não rejeitará qualquer ajuda, "nem sequer dos Estados Unidos". Profissionais de saúde que queiram trabalhar no país, desde que respeitem os doentes, a língua e a cultura, serão bem-vindos.

Em 1 de janeiro de 2026, a população da Gronelândia era superior a 56 000 habitantes, dispersos por grandes distâncias. É o território menos densamente povoado do mundo. Cerca de 20 000 pessoas vivem na capital, Nuuk, e o resto está distribuído por pequenas cidades e povoações remotas.

Carga da doença

Em 2023, a carga da doença na Gronelândia, medida em Anos de Vida Ajustados pela Incapacidade (DALY) por 100 000 habitantes, situava-se em 38 715. Um DALY corresponde a um ano de vida saudável perdido.

Na Dinamarca, o valor equivalente é de 30 931 e a média europeia situava-se nos 36 863.

Estima-se que cerca de 1,5% da população da Gronelândia vivia com cancro em 2023 e 18,8% com perturbações de saúde mental, ambos acima da média da UE.

A esperança de vida também fica aquém da europeia. Um rapaz acabado de nascer na Gronelândia pode esperar viver 69,3 anos e uma recém-nascida 73,9 anos, muito abaixo da média europeia de 81,7 anos.

Como está organizado o sistema de saúde?

O setor da saúde funciona em cerca de 70 localidades. Existem aproximadamente 120 lugares de médicos, mas apenas cerca de 60 são preenchidos por quadros permanentes.

Dos 300 postos de enfermagem, 200 são ocupados por pessoal permanente, segundo a Trap Greenland, uma enciclopédia digital sobre o país escrita por investigadores locais.

O sistema está dividido em cinco regiões, cada uma servida por um hospital regional. O Hospital Rainha Ingrid, em Nuuk, é simultaneamente hospital regional da Região Sermersooq e hospital nacional.

"Fora de Nuuk, a espinha dorsal do sistema é a medicina geral e familiar", explicou Henrik Hansen, conselheiro médico do Departamento de Saúde e Pessoas com Deficiência da Gronelândia, à Euronews Health.

Especialistas da Dinamarca deslocam-se periodicamente à Gronelândia para realizar procedimentos avançados, como cirurgias oftalmológicas. A maioria das outras cirurgias, da medicina interna e da psiquiatria é concentrada no hospital de Nuuk.

A saúde está sob jurisdição groenlandesa desde 1992. No entanto, alguns serviços continuam indisponíveis no território.

Desafios na prestação de cuidados de saúde

O sistema de saúde da Gronelândia consegue responder aos problemas médicos mais básicos. Intervenções mais avançadas, tratamentos altamente especializados e cuidados complexos realizam-se na vizinha Dinamarca.

Hansen explicou que os doentes oncológicos são encaminhados para a Dinamarca para tratamentos avançados, como radioterapia, uma vez que a Gronelândia não está equipada para lidar com substâncias radioativas.

Intervenções cardiológicas invasivas, como angioplastias, colocação de stents em artérias obstruídas ou substituição de válvulas, também não estão disponíveis na região para doentes com doenças cardiovasculares. O mesmo acontece com a hemodiálise e os transplantes renais.

No relatório anual de 2025, o Conselho de Saúde da Gronelândia assinalou que existe uma intenção contínua de que o máximo possível de tratamentos tenha lugar perto da residência dos doentes. Só os casos que não possam ser tratados localmente devem ser encaminhados para o Hospital Rainha Ingrid, e apenas os que excedem a capacidade deste devem ser enviados para a Dinamarca.

Mas, advertiu o Conselho, quanto mais especializado é o tratamento, mais difícil se torna prestá-lo localmente, não apenas por falta de pessoal, mas também pelas exigências de infraestrutura e pelas normas regulatórias envolvidas.

Papel da telemedicina

A geografia continua a ser um dos maiores obstáculos da Gronelândia. Chegar, a partir de algumas povoações, a uma cidade com médico e instalações de saúde pode demorar dias ou mesmo semanas, e as condições meteorológicas provocam frequentemente atrasos.

"A telemedicina alterou, em certa medida, a necessidade de contacto presencial. Por exemplo, as doenças de pele são agora diagnosticadas com apoio telemédico a partir da Dinamarca", acrescentou Hansen.

O Serviço de Saúde da Gronelândia lançou a aplicação Puisa em 2023 para facilitar consultas seguras por videochamada entre doentes em casa e profissionais de saúde, com o objetivo de chegar às zonas mais remotas do país.

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Estudo mostra esperma masculino mais rápido no verão do que no inverno

Europa lidera consumo de tabaco; OMS liga tendência ao vaping

Gronelândia: sistema de saúde é tão mau como Donald Trump diz?