Com os seis milhões de adeptos esperados a viajar pela América do Norte para o Mundial de 2026, as autoridades de saúde mantêm-se em alerta para qualquer sinal de surto de doença infecciosa.
O Mundial de futebol masculino de 2026, que se realiza em simultâneo no Canadá, no México e nos Estados Unidos, deverá receber mais de seis milhões de pessoas nos três países.
Tal como em qualquer grande concentração de pessoas, especialistas de saúde pública e autoridades sanitárias estão atentos a eventuais surtos ou focos que possam pôr em causa o bem-estar dos participantes.
Na Universidade de Georgetown, em Washington DC, Rebecca Katz co-coordena o Health Security Operations Center, uma equipa de coordenação não governamental focada nas ameaças de doenças infecciosas associadas ao torneio.
"As grandes concentrações de pessoas são complexas. Há sempre ameaças de doenças infecciosas associadas a estes eventos", disse Katz à Euronews.
Entre as principais funções contam-se a monitorização de sinais de doença nas regiões das cidades anfitriãs e nas comunidades de onde chegam os viajantes, a emissão de avisos de saúde quando são detetados riscos significativos e o acompanhamento das conversas em linha relacionadas com novas preocupações de saúde.
Complexidade de um torneio em três países
Entre 11 de junho e 19 de julho, mais de seis milhões de pessoas vão viajar para e entre os três países anfitriões, com grandes multidões a juntarem-se nos vários recintos.
Estas condições colocam desafios específicos à saúde pública e exigem uma vigilância reforçada.
"Este evento em particular é especialmente complexo, porque envolve três países diferentes e mais de 48 jurisdições distintas, se contarmos os campos-base e as pessoas que se deslocam entre todos esses locais", acrescentou Katz.
Quais são as principais doenças em vigilância?
A equipa publica um boletim diário de situação que assinala quaisquer novos desenvolvimentos e identifica que seleções podem enfrentar riscos mais elevados, em função da localização do respetivo campo-base ou dos próximos jogos.
Alguns dos agentes patogénicos sob vigilância são comuns a qualquer grande concentração de pessoas, como as infeções sexualmente transmissíveis (IST) e as infeções gastrointestinais e respiratórias.
Outros são mais específicos da região que acolhe o torneio.
"Vigiamos uma série de agentes patogénicos, mas o que mais nos preocupa neste momento é o sarampo. Temos, sem dúvida, registado casos nos Estados Unidos, no Canadá e no México", disse Katz, salientando que a equipa está a acompanhar a situação "com muita atenção", face a relatos em algumas jurisdições onde estão previstos jogos ou onde se encontram baseadas seleções nacionais.
Entre os outros agentes monitorizados contam-se a dengue, a hepatite A e a mpox.
"Todo este trabalho segue os parâmetros que tradicionalmente observamos em eventos com grandes multidões", assinalou Katz.
Ébola representa um risco?
O surto mais significativo atualmente no mundo é o de ébola na República Democrática do Congo e no Uganda.
"Toda a comunidade mundial da saúde está a acompanhar com grande atenção o que se passa na RDC. É claramente motivo de grande preocupação e há um esforço enorme em curso para tentar apoiar a RDC e o Uganda na resposta", afirmou Katz.
O Ministério da Saúde congolês confirmou 782 casos e 181 mortes, numa emergência de saúde pública que pôs o mundo em alerta.
Os Estados Unidos impuseram restrições de viagem para chegadas provenientes dos países afetados e apelaram a que outros países sigam o exemplo.
Ainda assim, Katz sublinhou que o risco de ébola para o Mundial nos Estados Unidos é atualmente considerado reduzido.
"Pela forma como o vírus do ébola se transmite e pelos mecanismos já implementados para tentar conter o surto, não estamos particularmente preocupados com a possibilidade de representar uma ameaça para o público aqui", acrescentou.
A seleção da RDC chegou a Houston, no Texas, a 11 de junho, onde vai treinar no seu campo-base antes do primeiro jogo, agendado para 17 de junho, frente a Portugal.
De acordo com o relatório de 12 de junho do Health Security Operations Center, nenhum dos jogadores ou elementos da equipa técnica e restante staff viajou recentemente para a RDC nos 21 dias anteriores.
Águas residuais: a ferramenta de vigilância oculta
Uma das ferramentas mais poderosas de que Katz e a sua equipa dispõem é a monitorização das águas residuais, uma tecnologia que existe há décadas mas que ganhou utilização generalizada durante a pandemia de COVID-19.
"Verificámos que pode ser uma fonte extremamente poderosa de dados de vigilância", afirmou, sublinhando que os especialistas conseguem "encontrar uma agulha num palheiro".
"Se houver um único caso de ébola em qualquer lado, eles vão encontrá-lo".
Estas ferramentas de alerta precoce permitem aos especialistas identificar sinais preocupantes e avisar as autoridades de saúde pública nas zonas afetadas antes de a situação se agravar.