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Papa faz visita histórica a Lampedusa e alerta Europa para mortes no mar

Papa Leão XIV atravessa a Porta da Europa em Lampedusa
Papa Leão XIV atravessa a Porta da Europa em Lampedusa Direitos de autor  AP Photo/Alessandra Tarantino
Direitos de autor AP Photo/Alessandra Tarantino
De Fortunato Pinto
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Papa Leão visitou a ilha símbolo da crise migratória. Perante milhares de pessoas, lembrou a responsabilidade da Europa e apelou a que não se ignore o sofrimento de quem é obrigado a deixar o seu país.

No dia do 250.º aniversário dos Estados Unidos, Papa Leão XIV escolheu visitar Lampedusa, ilha simbólica da emergência migratória em Itália e em toda a Europa. A última vez que um pontífice visitou Lampedusa foi em 2013, quando o Papa Francisco escolheu a ilha para a sua primeira viagem apostólica, marcando desde o início do pontificado a sua dedicação à causa dos migrantes.

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Logo após a chegada de avião, Leão dirigiu-se ao cemitério dos Sem nome, em Cala Pisana, para uma homenagem e uma oração junto ao túmulo dos migrantes mortos no mar. Os túmulos estão marcados com cruzes feitas a partir da madeira dos barcos naufragados ao largo da ilha.

Papa Leão reza sobre os túmulos dos migrantes, cruzes feitas com a madeira das embarcações
Papa Leão reza sobre os túmulos dos migrantes, cruzes feitas com a madeira das embarcações Ciro Fusco/Copyright 2022 The AP. All rights reserved

Leão seguiu depois para a Porta da Europa, escultura simbólica em cerâmica e ferro voltada para o Mediterrâneo. Ali encontrou-se com uma família de migrantes e atravessou a porta, pousando uma mão na parte direita. O vento forte fez voar o solidéu de Leão, que ficou então longamente a olhar o mar, onde, ao fundo, se avistava um navio da Marinha que patrulha as zonas ao largo de Lampedusa.

O Papa recebeu também uma carta de um menino migrante. «Querido Papa, estou super emocionado por te encontrar! Há 10 anos a minha história começou aqui em Lampedusa. Estava sozinho e tinha perdido tudo, sobretudo a minha mãe. Dizem-me que só parei de chorar quando me deram uma bola feita de papel; desde esse dia a bola ficou no meu coração e eu não deixei de jogar. Espero muito que esta bola que te ofereço agora possa chegar a outro menino e fazê-lo feliz como eu. Obrigado, Leo», escreveu o pequeno, que entregou ao Papa uma bola.

Papa Leão encontra uma família de migrantes em Lampedusa
Papa Leão encontra uma família de migrantes em Lampedusa AP Photo/Alessandra Taran

Papa Leão abençoa placa dedicada ao Papa Francisco

A visita de Prevost prosseguiu depois até ao Molo Favarolo, outro lugar simbólico da ilha, onde são levadas as embarcações dos migrantes. Ali, Leão descobriu e abençoou a placa dedicada ao Papa Francisco: o cais passa a chamar-se, a partir de hoje, Cais Francisco. O Papa encontrou-se e apertou a mão a 15 migrantes vindos do centro de acolhimento de Contrada Imbriacola, gerido pela Cruz Vermelha, que atualmente acolhe 138 pessoas, entre as quais 51 menores não acompanhados. O último desembarque na ilha ocorreu na noite de sexta-feira: a Guarda Costeira socorreu 17 pessoas a bordo de uma pequena embarcação, entre elas cinco mulheres e três crianças.

«O facto de terem querido dar o nome do Molo Favaloro ao Papa Francisco é sinal do vínculo que o meu predecessor estabeleceu com a vossa comunidade e com os irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve próximo de vós neste período tão exigente. E hoje estou aqui para vos dizer que o Papa continua a acompanhar-vos, sustenta-vos e encoraja-vos», escreveu Leão numa carta enviada ao presidente da câmara de Lampedusa por ocasião da visita.

Papa Leão XIV abençoa a placa dedicada ao Papa Francisco em Lampedusa
Papa Leão XIV abençoa a placa dedicada ao Papa Francisco em Lampedusa AP Photo

«Não vim para fazer discursos, mas para celebrar a Eucaristia, sinal supremo da presença de Cristo no meio de nós. O gesto de Jesus que parte o pão para se oferecer dá sentido e força aos nossos gestos quotidianos de assistência e de partilha. Sim, este é um lugar onde, mais do que as palavras, são os gestos que falam. Mas os gestos, para serem humanos, precisam de um coração. Foi por isso que nos reunimos aqui: para haurir de Cristo o amor que só Ele nos pode dar, para que o mundo de hoje e de amanhã seja mais humano, mais humano para todos», prosseguiu o Papa na carta.

Europa: Papa apela a enfrentar a crise migratória

Antes da missa organizada no campo desportivo Arena, o Papa percorreu as ruas de Lampedusa numa giardinetta, carro típico da ilha, cedido por um habitante para a ocasião especial, saudando a multidão e parando para abençoar crianças. As autoridades referiram que cerca de quatro mil pessoas acorreram ao campo para participar na celebração presidida pelo Pontífice.

«Vim agradecer-vos pela proximidade que muitos de vós manifestaram, realizou-se de novo o milagre da compaixão. Deste extremo recanto da Europa, no Mediterrâneo, vê-se melhor o apelo histórico que o fenómeno migratório dirige às sociedades europeias. A Europa possui um potencial único, que lhe deriva da sua história e da sua cultura e, por isso, uma responsabilidade equivalente», afirmou ainda Prevost. «Pela sua posição geográfica e pela sua configuração institucional, a Europa está em condições – nesta área – de enfrentar a crise de forma orgânica, integrando o primeiro socorro num plano estratégico de longo prazo, capaz de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e, ao mesmo tempo, trabalhando para o desenvolvimento, de modo que ninguém seja obrigado a emigrar. Tudo isto, velando pelo respeito da dignidade de cada pessoa. É uma tarefa das instituições públicas, mas também de toda a sociedade civil e da Igreja», disse o Papa durante a missa, apelando à Europa para assumir o seu papel de responsabilidade no acolhimento dos migrantes.

Um cartaz convida o Papa a olhar para lá do mar, para o
Um cartaz convida o Papa a olhar para lá do mar, para o AP Photo

O Papa lembrou depois que Lampedusa é uma ilha de chegada de migrantes, mas também de veraneantes. Tal como disse recentemente em Tenerife, durante a viagem apostólica a Espanha, Leão recordou que não se deve sentir ameaçado pelas rotas migratórias nem deixar que se desenvolva a indiferença. «Parece que é preciso erguer um muro invisível entre o mar dos náufragos e o dos veraneantes. Tenham a coragem de pensar de forma diferente. Pouco a pouco, com criatividade, conseguirão fazer com que quem quer que passe algum tempo, mesmo de descanso, nesta ilha possa tornar-se mais humano, confrontando-se com a vossa caridade, com aquilo que o mar vos ensinou, com os encontros que vos formaram», disse o Papa.

Papa Leão abençoa os fiéis em Lampedusa
Papa Leão abençoa os fiéis em Lampedusa AP Photo/Alessandra Tarantino

Criticando quem ignora a crise dos migrantes, o Papa apontou depois o dedo ao desinteresse e à corrupção. «O amor existe sempre na liberdade e a liberdade reside nas decisões. Há também quem escolha não se fazer próximo e quem decida não decidir. Os mortos neste mar são vítimas tanto de decisões tomadas como de decisões omitidas. O desinteresse pelo bem comum e a corrupção nos países de origem, um sistema económico mundial que gera pobreza e exclusão, o medo que alimenta preconceitos e desprezo, a ideia de que esses problemas não nos dizem respeito, os cálculos criminosos de quem lucra com o drama dos outros, a passagem lenta e difícil de uma mera gestão de emergências para a elaboração de políticas orgânicas e partilhadas: tudo isto reproduz hoje, do relato evangélico, a pressa de "passar adiante"», afirmou Prevost.

«Não nos deixemos vencer pelo medo, mas olhemos para as fadigas quotidianas como um tempo de oportunidade e de testemunho. Que a venerada imagem de Nossa Senhora de Porto Salvo volte a falar-vos com a força de outrora, quando quem vos transmitiu essa devoção vos recordava que todos temos em Deus um porto seguro, e que cada comunidade cristã é chamada a ser o seu reflexo na terra. E a vós, comunidades de Lampedusa e Linosa, nunca falte o sopro da fé, da esperança e da caridade: "O’scià!"», concluiu o Papa, usando a fórmula de saudação dos habitantes de Lampedusa, que se traduz por "meu respiro".

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