Na sequência de uma declaração a condenar o recurso do Irão à pena de morte, aumentaram as tensões entre as diplomacias dos dois países. Paris acusa Teerão de “derramamento de sangue” e o Irão denuncia a posição francesa como “hipocrisia flagrante”.
Na sequência da publicação de uma declaração internacional a condenar o recurso à pena de morte no Irão, agravou-se uma guerra de palavras entre altos responsáveis diplomáticos franceses e iranianos. Paris teve um papel central nesta condenação internacional, acusando o Irão de “derramar sangue”, enquanto Teerão classificou a posição francesa como “hipocrisia flagrante”.
O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, criticou duramente as ações do Irão numa publicação na rede X, escrevendo: “Sete meses depois das atrocidades generalizadas contra o povo iraniano, que se levantou para exigir justiça e dignidade, este regime continua o derramamento de sangue, levando a cabo um número crescente de execuções.”
O Ministério francês dos Negócios Estrangeiros confirmou também o papel de destaque de Paris na campanha de condenação das execuções no Irão, indicando que, depois de a declaração ter sido inicialmente assinada por 26 países e pela chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, outros países se juntaram, elevando para 32 o número total de signatários.
Em resposta, o chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, rejeitou firmemente as críticas e acusou o governo francês de aplicar dois pesos e duas medidas.
Araghchi escreveu na rede X: “Países como França devem deixar de dar lições ao mundo sobre ‘direitos humanos’ e direito internacional. A hipocrisia é flagrante e embaraçosa.”
O chefe da diplomacia iraniana acrescentou: “O vosso apoio ao genocídio de Israel em Gaza e à agressão contra o Irão destruiu a pretensa superioridade moral que imaginavam ter.”
Avisos de organismos internacionais
As tensões diplomáticas surgiram após a publicação de uma declaração conjunta na quarta-feira.
Mais de 30 países, incluindo França, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Alemanha e Itália, juntamente com a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, condenaram, “nos termos mais enérgicos”, o uso da pena de morte pelo Irão contra manifestantes.
A declaração indica que a República Islâmica está a executar manifestantes numa tentativa de “silenciar a dissidência”. Os signatários afirmaram: “O recurso à pena de morte para intimidar comunidades e punir pessoas pelo exercício dos seus direitos humanos é injustificável em quaisquer circunstâncias e o povo iraniano deve poder exercer os seus direitos à liberdade de expressão e de reunião pacífica sem medo.”
Os países envolvidos apelaram a Teerão para que ponha termo imediatamente às execuções e liberte as pessoas detidas.
Protestos económicos evoluem para guerra
O confronto surge numa altura em que se intensificam os avisos das Nações Unidas e de organizações de defesa dos direitos humanos sobre uma nova vaga de execuções no Irão.
A mais recente vaga de detenções e condenações judiciais remonta ao final de dezembro do ano passado, quando um movimento de protesto inicialmente centrado nas dificuldades económicas, na inflação galopante, no elevado custo de vida e na subida de preços evoluiu para manifestações antigovernamentais em larga escala.
Enquanto responsáveis iranianos referiram que mais de 3 000 pessoas foram mortas, atribuindo a violência a “ações terroristas” organizadas pelos Estados Unidos e por Israel, organizações de direitos humanos no exterior do Irão apontaram números de vítimas muito mais elevados e afirmaram que as forças de segurança dispararam sobre os manifestantes.
Entretanto, o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro, que marcou o início de uma nova guerra no Médio Oriente, intensificou ainda mais a repressão. Segundo observadores, o número de detenções e execuções relacionadas com o conflito militar e os protestos multiplicou-se desde então.
As Nações Unidas e organizações de direitos humanos manifestaram preocupação com o agravamento das medidas judiciais, apontando a falta de julgamentos justos e a obtenção de confissões sob coação.
O alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou no início de agosto que Teerão estava a utilizar as execuções para “semear medo e terror”. Indicou que, desde 19 de março, pelo menos 56 pessoas tinham sido executadas por acusações relacionadas com a segurança nacional, enquanto mais de 100 outras permaneciam em risco de execução.
De acordo com a Amnistia Internacional, o Irão executou mais de 2150 pessoas no ano passado, o que o coloca, a grande distância da China, como o segundo país do mundo que mais recorre à pena de morte.