Hashim Thaçi, antigo primeiro-ministro e presidente, foi condenado por homicídio, tortura, maus-tratos e detenção arbitrária pelas Câmaras Especializadas para o Kosovo, enquanto milhares em Prishtina, à espera da absolvição, seguiam o julgamento em direto.
As Câmaras Especializadas do Kosovo (conhecidas em inglês como Kosovo Specialist Chambers ou KSC) condenaram, na quarta-feira, o antigo presidente do Kosovo, Hashim Thaçi, a 25 anos de prisão por quatro acusações de crimes de guerra cometidos durante a guerra de independência do seu país face à Sérvia.
Thaçi, julgado juntamente com três outros antigos líderes guerrilheiros, foi considerado culpado por um colégio de juízes em Haia de homicídio, tortura, tratamento cruel e detenção arbitrária.
De fato e gravata, Thaçi permaneceu em silêncio enquanto o juiz presidente, Charles Smith, lia a sentença.
O tão aguardado veredicto no julgamento por crimes de guerra surgiu após um processo de três anos contra quatro figuras do antigo Exército de Libertação do Kosovo (KLA): Thaçi, Jakup Krasniqi, Rexhep Selimi e Kadri Veseli. Os procuradores tinham pedido penas de prisão de 45 anos para cada um deles.
Os quatro declararam-se inocentes.
“Ao longo da minha vida, estive ao lado do povo do Kosovo a defender a liberdade, a vida e a dignidade. Fui sempre guiado pelos ideais ocidentais de democracia, igualdade e justiça”, afirmou Thaçi aos juízes, em fevereiro, no final do julgamento.
No final de agosto, ele disse a um meio de comunicação do Kosovo que esperava uma absolvição total.
Apoiantes esperavam o regresso de Thaçi
Depois da guerra, Thaçi manteve-se como figura política central e foi determinante na declaração de independência do Kosovo em 2008.
Ao longo do julgamento, imagens do político de 58 anos, que também foi primeiro-ministro, têm aparecido regularmente em grandes cartazes por todo o país.
“A nossa guerra foi justa, uma guerra de libertação”, afirmou o primeiro-ministro, Albin Kurti, antes de ser conhecido o veredito.
“Acreditamos e esperamos”, acrescentou, “que os líderes do KLA regressem livres ao seu país e às suas famílias”.
No sábado, dezenas de milhares de pessoas reuniram-se na capital, Pristina, para pedir a absolvição, na mais recente de várias manifestações desde o início do julgamento.
Apesar da gravidade das acusações, que incluem homicídios, torturas e outros abusos alegadamente cometidos por guerrilheiros, os apoiantes de Thaçi esperavam que ele e os co-arguidos fossem libertados, com preparativos para um possível regresso já em curso.
Foram instalados relógios de contagem decrescente nas praças da cidade, a contar os minutos até ao veredicto que deveria ser proferido às 10h00 em Haia, enquanto milhares de pessoas se reuniram para assistir ao processo através de uma transmissão em direto.
A polícia do Kosovo preparou-se para garantir a segurança das grandes concentrações, enquanto a embaixada dos EUA em Pristina aconselhou o seu pessoal a “evitar todas as deslocações desnecessárias nas proximidades das manifestações”.
Tribunal especial sob críticas
Criadas ao abrigo da lei do Kosovo, as KSC, embora sediadas nos Países Baixos e compostas por juízes internacionais, têm como missão julgar crimes cometidos por membros do KLA durante a guerra.
Antes da criação deste tribunal especial, processos anteriores no Kosovo fracassaram em grande medida devido a alegadas intimidações de testemunhas e interferência política.
Profundamente impopular desde a sua criação, o recurso do tribunal a provas fornecidas por Belgrado, que continua a recusar reconhecer a independência da antiga província, tem alimentado ainda mais as acusações de parcialidade política.
Os procuradores tentaram, ao longo de todo o julgamento, distinguir entre a luta pela independência do país e os homens sentados no banco dos réus.
Os quatro arguidos foram julgados por crimes cometidos contra prisioneiros detidos em instalações do KLA no Kosovo e na vizinha Albânia, bem como por homicídios politicamente motivados de civis sérvios, albaneses e roma.
A acusação abrange crimes cometidos durante e logo após a guerra do Kosovo, que fez cerca de 13 000 mortos.
Em resposta, os advogados dos arguidos alegaram que o KLA não tinha uma estrutura de comando rígida e que os dirigentes não podiam controlar nem ser responsabilizados pelos combatentes que cometeram crimes.
Thaçi enfrenta ainda um segundo julgamento por acusações de obstrução à justiça.
Demitiu-se do cargo de presidente e entregou-se ao tribunal após ter sido acusado em 2020. Desde então, permanece detido em Haia.