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Sérvia: criminoso de guerra Mladić homenageado em Belgrado sem honras de Estado

ARQUIVO: Antigo chefe militar servo-bósnio Ratko Mladic sentado na sala de audiências em Haia, Países Baixos, 8 de junho de 2021
ARQUIVO: Antigo chefe militar sérvio-bósnio Ratko Mladic senta-se na sala de audiências, em Haia, Países Baixos, 8 de junho de 2021 -  Direitos de autor  AP Photo
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De Aleksandar Brezar
Publicado a •Últimas notícias
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Milhares de pessoas são esperadas no funeral de Mladić em Belgrado, na segunda‑feira, que decorrerá sem dirigentes em funções, salvas de artilharia ou presença militar cerimonial. Bruxelas afirmou que qualquer glorificação seria “incompatível com os valores em que assenta o caminho para a UE”

Foi inaugurada sábado, na Casa do Exército da Sérvia, em Belgrado, uma cerimónia de homenagem ao antigo comandante do exército sérvio da Bósnia e criminoso de guerra condenado Ratko Mladić, numa altura em que a Sérvia enfrenta crescente pressão europeia sobre aquilo que Bruxelas descreve como a sua glorificação, acusação rejeitada por Belgrado.

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Mladić morreu na semana passada, enquanto cumpria uma pena de prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante a guerra na Bósnia. Os restos mortais foram transportados para a Sérvia, a partir de Haia, num avião do governo, na quinta‑feira.

Militares do exército sérvio levaram o caixão com o corpo de Mladić, envolto na bandeira nacional, do avião para uma carrinha cor de vinho sem identificação, que depois seguiu escoltada pela polícia pela principal autoestrada de Belgrado.

No avião seguia o ministro da Justiça da Sérvia, Nenad Vujić, que inicialmente anunciara que o país concederia a Mladić “todas as honras militares e de Estado”, acompanhado pelo filho de Mladić, Darko, e por dois dos seus antigos auxiliares militares.

O corpo foi transferido para o hospital militar de Belgrado para autópsia, antes de o caixão ser exposto, na manhã de segunda‑feira, numa igreja perto do cemitério de Košutnjak, onde será sepultado ao longo do dia, anunciou a família na sexta‑feira.

Mladić será sepultado sem honras de Estado ou militares, sem a presença de titulares de cargos em funções, incluindo o presidente Aleksandar Vučić, o primeiro‑ministro e o presidente do parlamento, apurou a Euronews.

Não haverá salvas de artilharia nem presença militar cerimonial, e Mladić não será enterrado na Alameda dos Grandes nem na Alameda dos Cidadãos Ilustres, apesar dos pedidos nesse sentido.

As autoridades sérvias tinham já esclarecido que a comemoração de sábado não foi organizada pelo Estado, mas por uma associação de generais reformados. A família de Mladić indicou que será sepultado ao lado da filha, que morreu por suicídio na década de 1990, segundo meios de comunicação locais.

Belgrado contribuiu para cobrir as despesas pessoais de Mladić e as visitas da família enquanto esteve detido no tribunal de Haia, e pediu repetidamente uma libertação antecipada por motivos humanitários, devido à degradação do seu estado de saúde nos últimos anos.

Sérvia: milhares devem acorrer ao funeral

Depois de a Bósnia declarar a independência da Jugoslávia, no início de 1992, seguindo o exemplo da Eslovénia e da Croácia, os dirigentes sérvios da Bósnia, apoiados pelo governo de Belgrado liderado por Slobodan Milošević, criaram uma entidade paraestatal própria.

A ofensiva militar que se seguiu, liderada por Mladić — um oficial de carreira do exército jugoslavo que também participou nos combates na vizinha Croácia — tinha como objetivo limpar etnicamente o máximo possível do território do país das outras duas comunidades, bosníacos e croatas.

O Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia (TPIJ) condenou Mladić por genocídio por ter organizado execuções sumárias de mais de 8 000 homens e rapazes bosníacos em Srebrenica, em julho de 1995, considerado o pior massacre em solo europeu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Foi igualmente considerado culpado de crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante o cerco de Sarajevo, o mais longo cerco a uma capital na guerra moderna.

As suas tropas, posicionadas nas colinas em redor, aterrorizavam os habitantes da capital bósnia com bombardeamentos e tiros de franco‑atiradores diários durante quase quatro anos, após o início da guerra, no começo de 1992.

Conhecido como o “Carniceiro da Bósnia”, tornou‑se a figura mais notória da guerra na antiga república jugoslava de 3,5 milhões de habitantes, que deixou mais de 100 000 mortos e mais de 2 milhões de deslocados ou refugiados no estrangeiro, antes de terminar, no final de 1995, com um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos.

ARQUIVO: Uma mulher caminha junto a uma barricada feita de argamassa e veículos danificados ao atravessar o bairro da linha da frente de Dobrinja, em Sarajevo, 13 de novembro de 1994
ARQUIVO: Uma mulher caminha junto a uma barricada feita de argamassa e veículos danificados ao atravessar o bairro da linha da frente de Dobrinja, em Sarajevo, 13 de novembro de 1994 AP Photo/Jacqueline Arzt

O presidente sérvio, Aleksandar Vučić, prevê que admiradores de Mladić — que o consideram um herói apesar da condenação — possam acorrer em grande número ao funeral.

“Será difícil assegurar e garantir segurança a todos”, afirmou Vučić. Acrescentou que a polícia sérvia e a agência de segurança do Estado preveem que “dezenas de milhares” possam comparecer. “Será uma tarefa exigente para os nossos serviços e usaremos tudo o que estiver ao nosso dispor para garantir a segurança.”

“Falei com a família de Mladić e desejo que tudo decorra de forma digna”, acrescentou Vučić.

Mais tarde, o presidente sérvio afirmou que não estará presente no funeral de Mladić devido a uma visita de alto nível já agendada.

“Tenho na segunda‑feira e durante todo o dia de terça‑feira uma visita oficial do presidente do Uzbequistão (Shavkat Mirziyoyev), agendada há quatro meses”, declarou Vučić na sexta‑feira, numa altura em que percorre o país para apresentar projetos de desenvolvimento de infraestruturas.

“Terei feito tudo o que era necessário e tudo o que era possível para que isto decorra de forma digna, séria e responsável, para que o Estado se comporte devidamente? Foi exatamente isso que fiz”, acrescentou.

Sérvia: polémica sobre acusações de glorificação

Após a morte de Mladić, na quinta‑feira passada, milhares de sérvios realizaram vigílias e marchas em sua honra, suscitando condenações de Bruxelas e de outros pontos da Europa.

A comissária europeia para o Alargamento, Marta Kos, cancelou na sexta‑feira uma visita prevista à Sérvia, país candidato de longa data à adesão ao bloco de 27 membros.

“Esta glorificação em torno da sua morte é incompatível com os valores em que assenta o caminho de adesão à UE”, afirmou Kos na plataforma X.

“Ratko Mladić foi condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra”, disse Kos. “O regresso dos seus restos mortais a Belgrado recorda à Europa as páginas mais sombrias da nossa história recente.”

Um cliente observa uma T‑shirt com a imagem do antigo general sérvio da Bósnia em tempo de guerra, Ratko Mladić, exposta na principal rua pedonal de Belgrado, 4 de setembro de 2026
Um cliente observa uma T‑shirt com a imagem do antigo general sérvio da Bósnia em tempo de guerra, Ratko Mladić, exposta na principal rua pedonal de Belgrado, 4 de setembro de 2026 AP Photo

Vučić respondeu afirmando que a explicação de Kos foi “muito curta mas estúpida, como de costume”.

“Suponho que devamos proibir as pessoas de aparecer, proibir o funeral, criar cemitérios para cães”, acrescentou.

Mais cedo, na sexta‑feira, Kos disse que os próximos dias até à cerimónia fúnebre “serão um teste muito importante” para Belgrado.

O comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O’Flaherty, apelou na sexta‑feira às autoridades na Sérvia e na entidade sérvia da Bósnia para que “combatam a glorificação de criminosos de guerra condenados”, prática que é ilegal na Bósnia e “não constitui discurso protegido ao abrigo da Convenção Europeia dos Direitos Humanos”.

“Abomino a glorificação pública de Ratko Mladić, um criminoso de guerra falecido, condenado pelo genocídio de Srebrenica e por crimes contra a humanidade”, afirmou O’Flaherty em comunicado.

Multiplicaram‑se também os apelos para que o Partido Popular Europeu (PPE) corte relações com o governante Partido Progressista Sérvio (SPS).

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, é membro do PPE, tal como a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, e outros altos responsáveis.

O tribunal sucessor de Haia, atualmente designado Mecanismo Residual Internacional para os Tribunais Penais, afirmou estar “solidário com as vítimas, sobreviventes e respetivas famílias que sofreram os crimes pelos quais o senhor Mladić foi considerado culpado.”

Condenou “todas as ações que glorifiquem pessoas condenadas por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio por tribunais internacionais”.

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Bélgica e da Irlanda manifestaram‑se também publicamente contra qualquer honra concedida a uma pessoa condenada por genocídio.

Entretanto, o clube sérvio Estrela Vermelha de Belgrado foi multado pela UEFA devido a cânticos dos adeptos em honra de Mladić, que morreu no dia do jogo da Liga Europa da equipa, na semana passada, encontro que o Estrela Vermelha perdeu por 5‑1 frente ao clube checo Viktoria Plzeň.

A UEFA informou, já na noite de sexta‑feira, que os seus juízes aplicaram ao Estrela Vermelha uma multa de 90 000 euros por infrações que incluem cânticos impróprios para um evento desportivo, bem como “comportamento racista e/ou discriminatório”.

O organismo europeu do futebol aplicou uma penalização semelhante ao FK Borac Banjaluka, da Bósnia, multando o clube em 39 500 euros por cânticos em favor de Mladić e outras infrações dos adeptos durante o jogo da Liga Conferência contra o Vikingur Reykjavík, da Islândia.

O Estrela Vermelha é o clube de futebol mais titulado da antiga Jugoslávia, tendo conquistado a Liga dos Campeões em 1991.

Outras fontes • AP

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