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Ellen von Unwerth redefine sensualidade e glamour na fotografia

Ellen von Unwerth: fotografia de moda, empoderamento feminino e ameaça da IA
Ellen von Unwerth fala de fotografia de moda, empoderamento feminino e da ameaça da IA -  Direitos de autor  Credit: Ellen von Unwerth
Direitos de autor Credit: Ellen von Unwerth
De Tokunbo Salako
Publicado a •Últimas notícias
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Euronews Culture falou com a conceituada fotógrafa alemã Ellen von Unwerth sobre o seu contributo para o calendário Toiletpaper 2027 e a sua abordagem única à fotografia de moda.

Se alguma vez viu uma fotografia de moda em que a mulher parece estar a safar-se de alguma coisa, a correr de saltos altos, a rir-se em lingerie, a roubar um carro num vestido de gala, é muito provável que tenha visto uma imagem de Ellen von Unwerth. Talvez simplesmente não soubesse que era dela.

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Há mais de quatro décadas que a fotógrafa alemã faz o seu nome com retratos sensuais, provocadores e cheios de humor.

De anúncios de marcas de luxo a revistas de moda, a sua influência ao longo dos anos é imensa, depois de aperfeiçoar um estilo de fotografia que tem sido muitas vezes imitado. Em suma, von Unwerth não se limitou a registar a moda, ajudou a criá-la.

Desenvolveu aquilo que é amplamente reconhecido como o “female gaze” e mudou quem pode ser sexy e, sobretudo, quem é que decide.

Talvez isso se deva aos dez anos que passou como modelo de moda, sabendo muito bem o que era ouvir dizer: “fica quieta e sê bonita”.

Nesta edição de European Lens, von Unwerth fala da sua vida e do seu tempo, de quando pegou numa câmara pela primeira vez, de como arranca gargalhadas no estúdio e de como põe as celebridades à vontade.

Aproveitámos também para espreitar um dos seus projectos mais recentes, uma colaboração com a Toiletpaper, a revista de arte contemporânea criada por Maurizio Cattelan e Pierpaolo Ferrari.

Peaches, Rouilly-le-Bas, 2002
Peaches, Rouilly-le-Bas, 2002 Credit: Ellen von Unwerth

Foi modelo e fez o seu nome graças ao seu olhar particular e, sobretudo, à forma como fotografou mulheres e ao poder que lhes deu nas suas imagens. Como surgiu esse olhar

Ellen von Unwerth: Acho que a maior inspiração foi ter sido modelo durante dez anos e estar bastante frustrada, porque queria sempre exprimir-me à frente da câmara, mexer-me, ser tola, mostrar a minha personalidade. E os fotógrafos diziam sempre: “Não, não, não, não te mexas. Olha para a esquerda, para a direita e faz pose.”

Nunca me senti muito bem com isso. Via sempre as minhas amigas modelos a viverem a vida, tão bonitas. Ao fim de dez anos de fazer de modelo, o meu namorado da altura ofereceu-me uma câmara e disse-me: “Há um mais, um círculo e um menos. Quando o círculo acender, carregas no botão.” Foi o meu curso intensivo.

Comecei então a fotografar as minhas amigas modelos. Vesti-as com a minha roupa. Tinha sempre roupa divertida, peças vintage do mercado de velharias. Vesti-as, fiz-lhes a maquilhagem. Depressa percebi que tínhamos uma grande ligação e que elas se comportavam de forma diferente. Sentiam-se livres e brincalhonas. Fiquei muito apaixonada por aquilo muito depressa. Tínhamos um pequeno laboratório de revelação no nosso minúsculo apartamento, e o meu namorado ensinou-me a fazer provas. Comecei a imprimir as minhas fotografias e fiquei obcecada. Trabalhava toda a noite e colava-as às paredes da minha pequena casa de banho. Foi assim que comecei.

Sydney Sweeney para syrn
Sydney Sweeney para syrn Credit: Ellen von Unwerth

Ainda se consegue surpreender a si própria Como mudou a sua abordagem ao longo dos anos

Na verdade, não mudou muito. Claro que desde então tive uma carreira incrível e tive imensa, imensa sorte. Conheci tantas pessoas maravilhosas. Mas continuo a adorar captar a vida e aqueles momentos que são reais e espontâneos. É uma ligação fantástica que consigo estabelecer com as pessoas dessa forma.

Lembrei-me agora da polémica recente em torno da campanha publicitária de Sydney Sweeney. Em termos de objectificação das mulheres, acha que as coisas melhoraram ou regrediram

Eu nunca objectifiquei as mulheres. Elas eram o meu tema. Acho que a Sydney Sweeney decide o que quer fazer, e é isso que ela quer fazer. Ela não quer saber, e eu até acho isso óptimo. Claro que nem toda a gente fica contente com isso, mas ela vive a sua vida, e é assim que deve ser.

Rihanna
Rihanna Credit: Ellen von Unwerth

Queria perguntar-lhe sobre as técnicas, sobretudo sobre a tecnologia e a forma como evoluiu na fotografia. Como usa hoje as ferramentas modernas Tanta gente tem agora câmaras potentes no bolso. Isso afecta a sua visão

Hoje, praticamente toda a gente tem um telemóvel. As pessoas já nem têm câmaras, é raro ver alguém com máquina fotográfica. E claro que isso teve um impacto enorme. Fui provavelmente das últimas a passar para o digital, porque adorava película. Continuo a adorá-la e, na verdade, estou a fotografar cada vez mais em filme outra vez.

Com película, há um certo grão e uma certa qualidade. Não se consegue mudar isso depois, mas com o digital temos ficheiros RAW e todas as possibilidades do mundo para fazer o que quisermos com eles. É óptimo, mas também torna mais difícil encontrar o nosso estilo. Eu já tinha o meu estilo de antes e mantive-o, mas há imensas possibilidades.

Como digo, é mais difícil encontrar o próprio estilo. E depois há o iPhone, claro. Adoro também o iPhone. É incrível, com todas as possibilidades e opções. Dá para filmar, editar e fazer tanta coisa, e depois há o Instagram como canal directo. Mas ao mesmo tempo há tantas imagens. Há um excesso de imagens, e as pessoas limitam-se a fazer scroll, scroll, scroll. Às vezes passamos imenso tempo a criar uma imagem com uma grande equipa e pensamos: “Uau, agora está aí fora”, e dois segundos depois desapareceu.

Claudia Schiffer para a Guess, Nashville, 1991
Claudia Schiffer para a Guess, Nashville, 1991 Credit: Ellen von Unwerth

Sente que isso afectou o seu processo quando tira fotografias Pensa “ok, isto pode ser deitado fora amanhã” Continua a dedicar o mesmo tempo a compor e a conseguir a fotografia certa

Sim, porque aquilo de que eu gosto na fotografia, antes de mais, é do trabalho em equipa. Adoro escolher a equipa, as pessoas do cabelo, da maquilhagem, do styling, do cenário. Adoro isso. Costumo dizer que, se não fosse fotógrafa, seria directora de circo. É um bocadinho isso, escolhemos a troupe. Queremos que sejam criativos, mas também queremos divertir-nos com eles. Para mim, o divertimento está na criação. Não penso no que vai acontecer amanhã.

E depois há o talento, claro. Tem de haver uma ligação com a pessoa, seja uma modelo, uma cantora ou uma actriz. Adoro o processo, por isso não o vejo como descartável, até porque felizmente posso fazer livros e exposições. Penso: “Oh, talvez um dia isto vá estar numa parede e alguém o vai comprar”, ou o que for.

Falemos da sua relação com o “talento”, porque tantas das suas fotografias são icónicas. Fico sempre a pensar: como é que conseguiu que fizessem aquilo

É o que disse no início. Acho que há qualquer coisa em mim e na minha câmara que faz as pessoas sentirem-se livres à frente dela. Não sei, há qualquer coisa de especial na lente. Até os animais começam a comportar-se de forma estranha.

Claro que tenho os meus truques. Tenho sempre música. Adoro música disco, algo com que toda a gente se consegue descontrair. Vejo as minhas equipas a divertirem-se e a dançar ao fundo. Antes de ir para uma sessão, tenho de saber que consigo estabelecer ligação com aquelas pessoas. Com algumas sei que não vou fazer grandes fotografias. É algo no olhar, na forma como são. Tem mais a ver com a personalidade, na verdade.

David Bowie e Kate Moss
David Bowie e Kate Moss Credit: Ellen von Unwerth

Olhando para a sua carreira, quem é que sobressai no seu portefólio Há imagens em que pensa “sim, se tivesse de escolher as minhas cinco favoritas, estas são as que mais me orgulham” ou fotografias com uma história por trás que a faça pensar “nunca achei que conseguíssemos isto, tendo em conta como começámos”

Claro que, no início da minha carreira, a Claudia Schiffer era uma das minhas favoritas. Não apenas aquela fotografia, mas sim, claro, aquela imagem dela de espartilho. É muito famosa e talvez a fotografia mais famosa que fiz. Foi uma altura tão divertida, conhecer aquela rapariga e dizer: “Olhem, ela parece a Brigitte Bardot. Vamos dar-lhe o penteado e a maquilhagem para a fazer parecer a Brigitte Bardot.”

Depois comecei a trabalhar para a Guess e disse ao Paul Marciano: “Olha para esta rapariga”, porque ele adorava sempre aquele ambiente cinematográfico dos anos 50 e 60, o cinema francês e italiano. E ele disse: “Sim, vamos experimentar.” Fotografámo-la durante a noite e, quando as imagens saíram, toda a gente falava delas. Não havia Instagram na altura, claro. Por isso foi mesmo o início da minha carreira, e é muito importante para mim.

Depois há tantos outros. Trabalhei com a Naomi Campbell e fiz imensas fotografias com a Naomi, incluindo aquelas com latas de Coca-Cola no cabelo. Trabalhei também com o David Bowie, a Sophia Loren, a Drew Barrymore. A Drew Barrymore foi uma das minhas favoritas. Lembro-me de estar numa festa depois de uma cerimónia de prémios e ver uma rapariga, com uma fila enorme de pessoas à frente da casa de banho. Pensei: “Quem é esta miúda, com um ar tão anos 20 e tão encantadora?” Fui ter com ela, perguntei quem era, e fizemos muitas sessões juntas.

E, claro, algumas das minhas fotografias favoritas são da minha filha.

Vocalista dos Måneskin, Damiano David
Vocalista dos Måneskin, Damiano David Credit: Ellen von Unwerth

Queria também perguntar-lhe sobre algo que já referimos: a inteligência artificial. Sente-se tentada a usá-la Vê-a como ajuda ou obstáculo ao seu trabalho

Ajuda, sem dúvida, às vezes no retoque. No outro dia, tínhamos uma fotografia junto ao rio, e havia um barco mesmo feio, muito distrativo. Eu disse ao meu retocador: “Conseguimos fazer alguma coisa?” Ele fez um círculo à volta e aquilo desapareceu. Fiquei: “Incrível!” Claro que ajuda em coisas assim. Às vezes também animamos as minhas imagens e é uma loucura ver como é fácil. Requer alguma técnica, mas eu divirto-me com isso.

Recebo sempre muitos comentários muito maus: “Ellen, és uma artista. Porque é que usas inteligência artificial?” E eu respondo: “Está aí. É uma ferramenta. Temos de apanhar a onda, senão ficamos para trás.”

Dito isto, adoro mesmo o processo de tirar fotografias, a ligação com as pessoas, o processo criativo, ter ideias e ficar sentada no meu quarto a pensar. Isso é que é a minha cena, não ficar simplesmente no quarto a fazer tudo com IA. E, claro, sabemos o que ela está a fazer: está a deixar muita gente sem trabalho. Até as modelos estão agora a criar versões de si próprias em IA. Acho que é como um grande monstro a aproximar-se da humanidade, e acho isso bastante assustador.

Não está sozinha nisso. Fale-me agora um pouco da Toiletpaper. Como começou esta colaboração

Eu estava em Berlim e tinha um evento na Fotografiska, onde eles (os co-fundadores Maurizio Cattelan e Pierpaolo Ferrari) tinham uma exposição. Era uma exposição muito divertida, com uma grande piscina, daquelas piscinas cheias de bananas de plástico. Podíamos rebolar lá dentro, e as fotografias estavam cortadas para se poder passar pelo meio. Foi uma experiência superdivertida.

Calendário Toiletpaper dezembro de 2027
Calendário Toiletpaper dezembro de 2027 Credit: Ellen von Unwerth/ToiletEllen Paper vonUnwerth Calendar 2027
ToiletPaper
ToiletPaper Courtesy of Ellen von Unwerth/ToiletEllen PapervonUnwerth Calendar 2027

Publiquei imensas fotografias da exposição no Instagram, e eles contactaram-me. Disseram: “Olá, Ellen, esperamos que te tenhas divertido na nossa exposição.” E eu: “Meu Deus, adorei!”

A partir daí começámos uma colaboração. Adoro esse estilo muito pop, berrante, exuberante, e uma parte do meu trabalho também é muito barulhenta, exuberante e pop. Conversámos, e fiquei muito orgulhosa por terem vindo ter comigo, porque sou uma grande admiradora do que fazem. Fiquei muito orgulhosa e começámos a colaboração.

Foi muito difícil escolher, porque são apenas seis imagens de cada um. Tínhamos tantas e reduzi-las a seis foi muito difícil.

Percebe-se bem esse encontro de sensibilidades. Mas como é que a colaboração funcionou na prática Teve carta branca total Estou curioso em saber como correu

Sim, tive carta branca total. Mas depois de tantos anos de trabalho, já conhecemos o estilo de cada publicação ou marca. Quando se trabalha para a Vogue é uma coisa, quando se trabalha para a i-D é outra, quando se trabalha para a Dior é diferente. Aprende-se o estilo de cada um.

Depois passamos a conhecer também o estilo das pessoas. A minha equipa e eu percorremos o meu arquivo e escolhemos imagens que encaixassem no estilo deles, porque disseram que faríamos uma oposição: uma fotografia seria minha e outra seria deles. Escolhemos imagens que tivessem algo em comum para podermos fazer um jogo e pedir às pessoas que descobrissem quais eram as semelhanças.

Foi divertido. Foi um projecto muito divertido, e estou super orgulhosa e feliz por ter acabado de sair.

Olhando para a frente, Ellen, o que mais está a preparar neste momento Falou-me da exposição em St Tropez. Com que frequência está a expor agora Como preenche os seus dias

Vou ter uma grande exposição em Maastricht. Chama-se My Circus, porque, antes sequer de ser modelo, trabalhei num circo na Alemanha. Vi o circo e aquilo pareceu-me tão mágico. Depois do espectáculo, perguntei ao director se podia trabalhar no circo.

Ele disse: “Ah, pareces uma rapariga de circo. Podes começar amanhã.” Eu não era malabarista nem nada, mas era assistente do malabarista. Foi um período muito, muito divertido, que aliás me inspirou imenso. Nas minhas imagens há sempre brilho, glamour desalinhado e magia. Por isso, no museu em Maastricht, o tema é My Circus. Há cerca de 130 fotografias inspiradas no circo, com actores e actrizes, assim como as minhas histórias de moda para a Vogue italiana e a Vogue americana.

Depois tenho uma pequena exposição em St Tropez chamada Not Your Angel. Obviamente, as mulheres bonitas parecem anjos, mas não se deixem enganar.

Também estou a trabalhar em novos livros. Tenho alguns novos projectos de livros. Estou a planear fazer um filme baseado num dos meus livros. Chama-se Revenge. Já andávamos a falar disso há anos, mas depois chegou a COVID. Também era suposto filmarmos na Ucrânia, o que infelizmente não se concretizou. Agora voltámos a falar do projecto e estou também a criar um perfume. Esse é o meu grande, grande projecto este ano.

ToiletEllen von PaperUnwerth Calendar 2027 é publicado pela Damiani Books (fonte em inglês) e já está disponível.

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