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Hamdeen Sabahy: "O regime atual no Egito não é democrático"

Hamdeen Sabahy: "O regime atual no Egito não é democrático"
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De  Euronews
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O Egito está atravessar um conturbado período de crise política. Depois da revolução de janeiro de 2011, o país está absorvido numa transição que parece não acalmar. O atual regime, de predominância islâmica, acaba de fazer aprovar através de um polémico Referendo a revisão da Constituição para um texto redigido sob a égide da Irmandade Muçulmana, afeta ao atual presidente Mohamed Morsi.

A oposição está contra e fala de um potencial atentado anti-democrático contra as liberdades das mulheres e algumas minorias.

Vêm aí eleições parlamentares. É a oportunidade para oposição poder equilibrar as forças no poder do Egito.

Esta semana vamos aprofundar a crise política no Egito. Entrevistamos o ex-candidato presidencial e um dos mais proeminentes líderes da oposição, o senhor Hamdeen Sabahy.

euronews: Como é que analisa os resultados do recente Referendo no Egito?
Hamdeen Sabahy: Esta Constituição falhou no apelo aos egípcios. E falhou também a aprovação ao não conseguir o mínimo de dois terços dos votos, o que a tornaria numa Constituição compatível. Este resultado diz-nos, antes, que, mais do que um projeto de união nacional, esta Constituição representa a divisão do país.

EN: Mas, senhor Hamdeen, reconhecer a legitimidade das votações não é um dos propósitos da democracia?
HS: É verdade, democracia é isso e nós respeitamos muito os resultados. Mas com uma condição essencial: a integridade das eleições. Democracia não é apenas um meio para chegar ao poder, mas sim uma forma de o exercer. O poder no Egito parece ter sido decidido de forma democrática, mas a pessoa que chegou a líder agora quer alterar o processo através do qual foi eleito. Pretende mesmo, aliás, acabar com esse processo e transformar o governo num género de ditadura.

EN: Está a querer dizer que a Irmandade Muçulmana manipulou os resultados do Referendo?
HS: Sim, através do processo de voto que foi supervisionado pelo governo da Irmandade Muçulmana. O texto da Constituição está repleto de erros, de falhas e de violações que põem em causa a integridade deste Referendo.

EN: Pode apontar-nos alguns dos pontos desta nova Constituição que levam a oposição a insurgir-se contra o atual Presidente?
HS: Inclui, por exemplo, a possibilidade de confiscar alguns direitos básicos como a liberdade de opinião e de criatividade. Impõe que essa liberdade de expressão se limite ao que eles chamam de regras básicas do Estado e da sociedade. Isto levanta dúvidas sobre aqueles que não interpretam corretamente as regras islâmicas e que, por isso, vão contra a liberdade. São essas pessoas, agora, a maioria (no poder) e elas veem isto como uma ferramenta. Ao contrário de nós. Essas pessoas estão a usar a lei islâmica como uma arma para ameaçar a liberdade, promover a discriminação e até para espalhar o ódio. É este tipo de pessoas que está agora à frente da política no Egito. Eles podem usar este tipo de artigos da nova Constituição de uma forma errada. De uma forma que ofenda o próprio Islão, a Charia e todo o povo egípcio.

EN: Falou do momento que o povo teve à disposição para recusar o novo texto da Constituição e a respetiva declaração. Mas a participação no Referendo acabou por não chegar sequer a um terço do eleitorado. Como explica isso?
HS: Pode ter passado pela profunda crise que afeta o povo egípcio, que, hoje, está mais preocupado em arranjar comida e sobreviver do que em participar nos destinos do país. Muitas pessoas acreditam que estas disputas políticas lhes estão a custar a possibilidade de terem uma vida decente, de terem trabalho, de poderem progredir e isto, de facto, é verdade. É por isso que os egípcios se mostram tão relutantes em participar naquilo que eles mesmos veem como um obstáculo para a desejada estabilidade económica e para melhores condições para desfrutarem de uma vida mais social.

EN: É acusado pelo seu adversário político de não ter sido capaz de chegar à governação e que está apenas sedento de ter o poder no Egito. Como responde a isso?
HS: Não estou sedento de poder algum. Não foi meu desejo pessoal concorrer às eleições. Nem tenho qualquer intenção de me recandidatar a não ser que o movimento nacional egípcio entenda claramente que a minha candidatura pode servir os interesses do país. Somente nesse caso pondero candidatar-me outra vez. Não vejo, de qualquer forma, que traga grandes vantagens ter o poder no Egito. Se for, contudo, uma decisão coletiva, estou disponível. Mas, repito: como mera decisão pessoal, não.

EN: Sobre o massacre às portas do palácio presidencial, senhor Hamdeen, é verdade que a maioria dos mortos era da Irmandade Muçulmana?
HS: Não é verdade. Essa é uma informação falsa.

EN: Foi uma garantia da Irmandade Muçulmana.
HS: Essa afirmação é incorreta e eles não o provaram.

EN: É verdade que o grupo armado que participou nesses atos de violência foi o mesmo que as milícias da Irmandade Muçulmana usaram, como acusa a oposição?
HS: Certamente. A manifestação era pacífica até a Irmandade Muçulmana intervir com os seus grupos organizados. Eu não lhes chamaria milícias. Não penso, aliás, que a Irmandade Muçulmana tenha milícias. Mas têm grupos organizados, que começaram os desacatos diante do palácio presidencial. Acusámos a Irmandade Muçulmana de forma clara. Eles foram o principal rastilho para os atos de violência que ali aconteceram. Estamos à espera, apenas, das conclusões do processo de investigação. Para já, estão provadas as mentiras no discurso do Presidente que apontavam para uma alegada conspiração. As investigações, tal como nós defendemos, irão comprovar a responsabilidade da Irmandade e do gabinete de orientação, em especial, de levar os seus jovens a provocar os atos de violência que se registaram à frente do palácio.

EN: Falemos agora de outro tema relacionado com os líderes da revolução egípicia. Eles defendem que o melhor para si seria estar sozinho na oposição, sem alianças com alguns nomes que estiveram ligados ao antigo regime. Como responde a isso?
HS: É verdade que houve algumas críticas à minha volta por causa de Amr Moussa e de Sayd El Badawy. São pessoas sobre quem recaem muitas dúvidas. Mas não cooperamos nem o vamos fazer com aqueles cujas mãos estão manchadas pelo sangue do povo egípcio e dos mártires da revolução. Nem com aqueles que apenas querem saber do dinheiro do povo para o usarem na corrupção. Estamos juntos, sim, com algumas pessoas que a certa altura fizeram parte do antigo regime. O senhor Amr Moussa não manchou as suas mãos com o sangue dos revolucionários. Sayd Badawy pode ser criticado, mas o partido Wafd, que ele lidera, é uma parte importante do movimento nacional egípcio. Uma memória do nosso país e parte do futuro. Eu posso defender muito bem estas duas pessoas. Eles estão ao lado do novo movimento.

EN: Pelo que pudemos perceber das suas palavras, o Egito saiu da revolução diretamente para um regime ditatorial. É assim?
HS: O regime atual no Egito não é democrático nem é um reflexo da revolução de 25 de janeiro de 2011. Não representa a ambição egípcia de haver uma democracia ou uma ampla participação do povo nas tomadas de decisão. Este regime não garante justiça social nem se preocupa com os mais desfavorecidos.

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