A Euronews conversou com portugueses a viver no Dubai e em Doha que manifestam apreensão pelas explosões ouvidas, ressalvando, porém, que não foram atingidos por destroços de mísseis abatidos nem tiveram de se refugiar em abrigos. Desde sábado, toda a vida, incluindo o trabalho, é feita em casa.
Marco Duarte vive há vários anos no Dubai e, no último sábado, estava a iniciar um dia de praia com a família na ilha de Al Marjan, em Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, quando viu, na televisão, as notícias de que o Irão estava a atacar países vizinhos do Médio Oriente, em retaliação à ofensiva israelo-americana em solo iraniano.
Os planos de um fim de semana descontraído à beira-mar, num dos destinos mais sofisticados da região, tiveram de ser abortados e Marco regressou ao Dubai após o almoço. No domingo, recebeu, por telemóvel, os primeiros alertas das autoridades dos Emirados.
"De domingo para segunda tivemos uma noite calmíssima, mas hoje de manhã, quando acordámos, já ouvimos umas três ou quatro explosões bastante fortes", explica à Euronews o português, que vive com a mulher e o filho de dez anos.
Logo no sábado, Marco foi a um supermercado perto de casa para se abastecer de bens essenciais e, desde então, dando seguimento às indicações do governo dos Emirados Árabes Unidos e da embaixada portuguesa no país, tem permanecido em casa, inclusivamente para trabalhar.
"As escolas estão fechadas até quarta-feira. Eu também tenho os meus escritórios fechados até a situação melhorar", afirma Marco Duarte, diretor-geral de uma subsidiária do grupo alemão ebm-papst, líder mundial no fabrico de ventiladores.
No domingo, o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos informou que o país já foi alvo de 541 drones iranianos carregados com bombas, dos quais 506 foram intercetados. Os restantes desencadearam incêndios em locais de grande movimento no Dubai, de um hotel de luxo na famosa ilha artificial Palm Jumeirah, passando pelo porto Jebel Ali, o principal terminal marítimo da cidade, até ao Aeroporto Internacional, tendo os detritos projetados pelas interceções matado três pessoas e ferido 58.
Mesmo assim, Marco Duarte sente-se seguro e descreve a situação como "estável, sob controlo".
"Isto gera, claro, alguma tensão, mas os sistemas de defesa funcionaram muito eficazmente. A vida continua com algumas medidas de precaução adicionais", frisa.
As conversas com grupos de portugueses no WhatsAppservem para trocar informações e tranquilizar o espírito. "Estamos em constante contacto para ver se alguém precisa de alguma coisa, para acalmar todas as pessoas, brincadeira para aqui e para ali. Estamos todos bem", garante Marco, que está também num grupo do WhatsApp com a embaixada portuguesa para ficar a par de todos os desenvolvimentos.
O maior receio é notado, acrescenta o português, entre os turistas ou aqueles que vivem há menos tempo no país. "O que vemos no terreno, como residentes, é organização, resposta rápida e foco total na proteção das pessoas. Confiamos bastante na capacidade de resposta das autoridades e isso ajuda a manter a calma", sublinha.
"Problema neste momento é lidar com a ansiedade"
À semelhança do que acontece nos Emirados Árabes Unidos, o Qatar, que acolhe a maior base militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, continua sob a mira de Teerão e enfrenta explosões pelo terceiro dia consecutivo.
Em entrevista à CNN, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar indicou que mais de 100 mísseis e "dezenas" de drones foram lançados contra o país, visando "não só as forças americanas", mas igualmente infraestruturas comerciais, civis e militares, designadamente o aeroporto internacional. Apesar disso, há registo de apenas duas dezenas de feridos, a maioria ligeiros.
Ana Sena, criadora de conteúdo para museus e exposições, vive há mais de dez anos na região e regressou, em dezembro, a Doha, após um ano e meio radicada em Abu Dhabi. A gestora cultural confia na prontidão das autoridades catarianas, mas à Euronews não esconde a preocupação.
"Não são só os mísseis, há os drones também. Das interceções podem cair destroços e alguns causam fogos. Não deixa de ser assustador. É impossível ignorar, mas estamos a tentar manter a calma dentro do possível", relata.
Outro português residente em Doha, que não quis ser identificado por razões profissionais, conta à Euronews que, nos últimos dois dias, acordou com clarões causados por explosões.
Também no Qatar a população está a receber mensagens de telemóvel que alertam para a possibilidade de ataques aéreos.
A população vai procurando, na medida do possível, levar uma vida normal, ainda que as ruas da cidade de Doha, centro financeiro emergente no Médio Oriente, com mais de um milhão de habitantes, estejam bem mais vazias e pacatas do que o habitual.
Ana Sena ainda não teve de se refugiar em abrigos subterrâneos, embora admita estar preparada para tal.
"Tenho uma mochila à porta com o passaporte, alguns documentos pessoais e uma muda de roupa para o caso de ser preciso sair rapidamente e ir para a garagem", revela.
O cidadão português que falou com a Euronews sob anonimato também dispõe de um kit de emergência, guardado no carro, na eventualidade de os ataques iranianos se tornarem mais frequentes e agressivos. "O problema, neste momento, é lidar com a ansiedade. Há pessoas que não estão preparadas para este tipo de situação", refere.
Perante as restrições em vigor e dadas as recomendações oficiais para evitar deslocações, recorre-se à internet para encomendar produtos dos supermercados, que, no Qatar, estão abertos 24 horas por dia.
"Eu pedi online, eles fazem algumas entregas. Mas também consegui ir a um supermercado bastante perto e comprei mais mantimentos do que o normal, em especial água, porque aqui a água da torneira não é potável. Nota-se que, [nos supermercados], já há um pouco menos de águas e de enlatados", diz Ana Sena, que, por enquanto, vai vivendo um dia de cada vez, sem perder demasiado tempo a ponderar os prós e contras de um possível regresso a Portugal.
"Claro que já pensámos todos nisso, mas neste momento não podemos sequer sair de casa e os aeroportos estão fechados", lembra.