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Ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita: "O Daesh é uma coleção de criminosos, psicopatas e pervertidos"

Ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita: "O Daesh é uma coleção de criminosos, psicopatas e pervertidos"
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A guerra atroz na Síria arrasta-se; há instabilidade na Turquia; o Iémen está em guerra; o Médio Oriente está, outra vez, em crise. Para analisar a situação na região, o jornalista Olaf Bruns entrevistou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir.

Euronews: O mundo habituou-se a uma política externa saudita muito cautelosa durante décadas. Agora vemo-lo a assumir uma posição muito mais ousada, com uma intervenção direta no Iémen, uma posição clara sobre o Irão, a Síria, a luta contra o autodenominado Estado Islâmico e também contra a Al-Qaida, e o presidente Bachar al-Assad. É esta a nova Arábia Saudita, a que o mundo se deve habituar?

Adel al-Jubeir: Vimos que havia um vazio que tinha de ser preenchido. Constatámos uma falta de liderança e tinha de haver liderança. Portanto, falámos com os nossos aliados e ocupámos o vazio, de forma a proteger os nossos interesses. Tínhamos uma milícia radical, aliada ao Irão e ao Hezbollah, a apoderar-se do Iémen, e que tinha em sua posse mísseis balísticos e uma força aérea que se tornou uma ameaça direta para o reino da Arábia Saudita e dos países do Golfo. Alguém tinha de fazer alguma coisa acerca disso. Por isso, entrámos em cena. No que respeita ao Irão, dissemos: Basta!. 35 anos de agressões do Irão ao reino da Arábia Saudita e aos seus aliados são suficientes. Não vamos tolerar isto! No que concerne à Síria, o nosso objetivo é apoiar a oposição moderada e provocar uma mudança no sistema do país.

E: Quando fala em “vazio”, considera que há uma presença norte-americana insuficiente na região?

al-Jubeir: Não necessariamente. Temos visto os Houthis a assumir o controlo do Iémen muito, muito devagar, nos últimos 7, 8, 9 anos. Ninguém queria confrontá-los. Por isso, tivemos de fazê-lo. Vínhamos assistindo à matança de inocentes na Síria durante anos e ninguém fazia nada quanto a isso. Por isso, tivemos de fazer alguma coisa.

E: Uma tentativa de golpe de Estado na Turquia trouxe mais instabilidade para a região. Como é que avalia o papel da Turquia, enquanto ator de política externa, no rescaldo da tentativa de golpe de Estado?

al-Jubeir: Não acredito que este infeliz incidente, o golpe de Estado falhado, tenha um impacto duradouro sobre a posição da Turquia ou o bem-estar da Turquia.

E: Mas os países ocidentais têm um cada vez maior receio que a Turquia possa enveredar por um caminho muito autoritário. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, sugeriu mesmo que a continuidade da Turquia na NATO pode estar em risco. Teme que isto possa enfraquecer a guerra contra o autodenominado Estado Islâmico?

al-Jubeir: Não acredito. A Turquia é uma democracia. A vontade do povo turco vai ser implementada. A Turquia tem de ser autorizada a tomar as medidas necessárias para garantir a sua segurança. Ninguém questionou os Estados Unidos quando puseram milhares de pessoas em Guantánamo, em Cuba. Ninguém!


Biografia: Adel al-Jubeir

  • Adel al-Jubeir é ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita desde 2015
  • É o segundo ministro dos Negócios Estrangeiros que não pertence à família real
  • Tendo estudado em vários países, al-Jubeir é fluente em Árabe, Inglês e Alemão
  • Em 2011, sobreviveu a uma tentativa de assassinato, alegadamente executada pela Força Quds, uma unidade especial do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica do Irão.

E: Disse, várias vezes, que está bastante confiante que o presidente Bachar al-Assad vai acabar por sair. Continua confiante, tendo em conta a fraqueza de alguns atores regionais e a situação no terreno, com Aleppo prestes a cair nas mãos do exército sírio?

al-Jubeir: No final vai haver uma nova Síria, sem Bachar al-Assad. É uma questão de tempo. Pode ser conseguido através de um processo político que pode ser mais rápido e suave ou através de um processo militar que será mais longo e mais custoso, em termos de mortes e destruição e em termos de sangue e dinheiro.

E: Agora, o processo político parece encravado. Por isso, pode ser seguida a via militar. Que caminho lhe parece mais realista?

al-Jubeir: Vamos apoiar a oposição síria moderada militarmente, como não existindo qualquer processo político, e vamos apoiar, depois, o processo político, como se não houver processo militar.

Euronews: Até onde está preparado para ir em termos de apoio militar?

al-Jubeir: Temos um grupo de países que estão a fornecer apoio militar à oposição moderada. Nós decidimos que grupos devem receber apoio e quando e como. E temos sempre feito pressão para fornecer-lhes equipamento mais robusto, para que eles possam depor Bachar al-Assad.

E: A Arábia Saudita pode mandar tropas para o terreno?

al-Jubeir: Estamos preparados para mandar forças especiais para a Síria como parte da coligação internacional para combater o Daesh.

E: Quando fala do designado “Estado Islâmico”, prefere a sigla árabe Daesh. Não me parece que seja uma coincidência. O que é o Daesh para si? É islâmico? É um Estado?

al-Jubeir: Nem é islâmico, nem um Estado. É uma coleção de criminosos, psicopatas, pervertidos… Isto não tem nada a ver com o Islão. É como o Ku Klux Klan na América. Não tem nada a ver. Todas as religiões têm as suas ovelhas negras, os seus fanáticos, mas eles não refletem a religião. E pensar que o Daesh tem a ver com fé é ofensivo.

E: Se são um gangue de psicopatas, como têm conseguido gerir uma área geográfica durante tanto tempo e ser um problema militar tão grande?

al-Jubeir: Há muitos exemplos na história de psicopatas que fizeram coisas incríveis: Adolf Hitler era um psicopata!

E: A Arábia Saudita mostrou-se cética em relação ao acordo nuclear assinado com o Irão. Um ano depois, como vê a situação?

al-Jubeir: Dissemos que qualquer acordo que impedisse o Irão de adquirir armas nucleares, que implicasse mecanismos de inspeção intrusivos e robustos e que previsse a reintrodução das sanções, caso o Irão violasse os termos, seria bem-vindo por nós. As preocupações que temos e continuamos a ter têm a ver com os fundos a que o Irão teria acesso. O que vemos é o Irão envolvido continuamente em atividades hostis, no apoio ao Hezbollah, no Líbano, na Síria, no Iraque e a tentar fornecer armas aos Houthis. Portanto, o júri ainda está a avaliar se há uma mudança ou não do comportamento do Irão, mas nós não vemos nada.

E: Se você tivesse uma suspeita fundamentada de que o Irão não iria respeitar os termos do acordo, ponderaria a aquisição de armas nucleares pela Arábia Saudita?

al-Jubeir: A Arábia Saudita vai fazer o que for necessário para proteger o nosso povo e o nosso país, mas claro que não vamos anunciar como o vamos fazer e com que meios, sobretudo na televisão.

E: Como é que as relações com Israel se têm desenvolvido depois do acordo nuclear?

al-Jubeir: Não temos relações com Israel.

E: Nenhum contacto? Nem nos bastidores?”

al-Jubeir: Não.

E: A Arábia Saudita é frequentemente acusada de ser implicitamente responsável pelo terrorismo islâmico. A argumentação diz que a Arábia Saudita financia mesquitas em todo o mundo, treinando imãs, que depois pregam uma versão muito conservadora do Islão, que, sem querer, acaba por ser terreno fértil para o terrorismo. Qual é a sua resposta a isto?

al-Jubeir: Por que razão deveríamos apoiar uma ideologia que tem por objetivo matar-nos? Nós somos o alvo dos extremistas. Eles querem ter acesso a Meca e Medina, pelo que já sofremos em termos de ataques terroristas, em termos de pessoal de segurança que tentava defender os inocentes. Nós estamos na linha da frente da luta contra o extremismo e terrorismo na região e no mundo. Portanto que alguém diga que os sauditas estão a financiar o extremismo ou que a sua ideologia é financiar os extremistas é absurdo! Nós perseguimos os homens, o dinheiro e a mentalidade que está por trás disto. Não vamos tolerar o extremismo. Se tiver um problema numa determinada cidade do seu país, feche o centro islâmico! Não culpe os outros! Se acontece no seu país, a culpa é sua.