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Clínicas de Gaza sob pressão recebem ajuda da UE para tratar feridos e amputados

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Clínicas de Gaza sob pressão recebem ajuda da UE para tratar feridos e amputados

Clínicas de Gaza sob pressão recebem ajuda da UE para tratar feridos e amputados
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O dia 30 de março de 2018 marca o início da Grande Marcha do Regresso dos palestinianos na fronteira entre Gaza e Israel. Todas as sextas-feiras, os manifestantes deslocam-se à fronteira para desafiar as forças israelitas. Os protestos reúnem homens, mulheres e crianças.

Os palestinianos reclamam o direito de regressar às terras ocupadas pelos israelitas e o fim de onze anos de bloqueio. Desde março de 2018, os soldados israelitas mataram mais de 220 pessoas, durante os protestos na fronteira. Os incidentes causaram ferimentos a mais de 24 mil pessoas.

Por razões de segurança, a repórter da euronews não foi autorizada a filmar para além de uma distância de oitocentos metros da fronteira, mas testemunhou a chegada de numerosas vítimas a um dos dez postos de socorro instalados ao longo da fronteira.

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Centenas de amputações

No dia da reportagem, um jovem de dezasseis anos ficou ferido numa perna e teve de ser enviado para o hospital.

"É uma fratura aberta. Não sabemos se há um ferimento a nível vascular ou neurológico. Vamos estabilizar o paciente e enviá-lo para o hospital", explicou Bashar Murad, da Cruz Vermelha Palestiniana.

Os dez postos de socorro na fronteira foram criados pelo ministério da saúde Palestiniano e pela Cruz Vermelha Palestiniana, com financiamento da Ajuda Humanitária da União Europeia e o apoio da Organização Mundial de Saúde.

"No mês passado, as vítimas dos disparos foram na maioria baleadas nos membros inferiores. Mas antes disso, recebemos um grande número de pessoas baleadas no peito, no pescoço e na cabeça", acrescentou o responsável da Cruz Vermelha Palestiniana.

A euronews falou com um jovem de dezasseis anos atingido por um tiro na perna e que teve de ser amputado.

"Estava a segurar a barreira e a proteger os meus dois amigos que estavam a cortar o arame farpado, E de repente senti a minha perna a voar e uma sensação de murro no estômago. Tenho participado nos protestos todas as sextas-feiras porque vivemos num estado de cerco. Temos de nos apoiar uns aos outros. Sabemos que podemos ficar feridos mas temos de nos sacrificar", disse o jovem.

Hospitais de Gaza sob pressão

Os hospitais de Gaza estão sob pressão face ao elevado número de feridos graves e amputações.

"O sistema de saúde em Gaza sofre há vários anos devido ao bloqueio imposto na faixa de Gaza. Há falta de material e de medicamentos essenciais para salvar vidas e falta de trabalhadores qualificados que possam fazer tratamentos de qualidade", sublinhou Ayadil Saparbekov, da Organização Mundial de Saúde.

Desde a intensificação dos protestos, a União Europeia aumentou o apoio aos sistemas de saúde locais, fornecendo equipamentos e formação especializada, em colaboração com parceiros no terreno.

"Cerca de cinco mil pessoas ficaram feridas nos membros inferiores durante os protestos e cerca de quatrocentas ou quinhentas vão precisar de várias cirurgias, em certos casos sete operações, e de três anos de reeducação. A União Europeia vai apoiar estes cuidados de saúde de longa duração através da instalação de uma ala específica para as operações de reconstrução de membros e para os serviços pós-operatórios", explicou Filippo Ortolani, responsável da Ajuda Humanitária da União Europeia.

Bloqueio israelita dificulta tratamento de feridos

A euronews falou com um homem que ficou ferido no rosto durante um protesto pacífico, em abril. O paciente precisa de um transplante ósseo mas nem Israel, nem o Egito o autorizam a sair de Gaza.

"A botija de gás atingiu-me directamente, entrou na boca e parou no palato. Senti tudo a andar à roda. Toquei a cara com a mão e vi sangue por todo o lado. Senti que não tinha o meu osso. Não posso viver normalmente como antes do ferimento. Queria pelo menos poder comer pão, tenho saudades de comer pão", contou a vítima.

A euronews visitou uma clínica de Khan Yunis que segue diariamente duzentas pessoas e que tem registado um aumento da procura desde o início o início dos protestos. O estabelecimento é apoiado pela ONG francesa Médecins du Monde no âmbito de uma ação financiada pela União Europeia.

"A nossa intervenção centra-se nas urgências e na traumatologia, queremos melhorar a capacidade desta clínica no tratamento de feridas e no pós-operatório. Tentamos fornecer material e ajudar o mais possível para que o serviço às pessoas não tenha encargos mas não conseguimos fornecer 100% do que é preciso", explicou Abdelrahim al Mahalawi da ONG Médecins du Monde.

Muitas vítimas afirmam que participaram nos protestos de forma pacífica e que não esperavam o que se passou.

"Estávamos a trezentos metros da barreira, e apesar disso fui ferido. Muitas pessoas ficaram feridas quando estavam a 500 ou 600 metros da barreira", disse um dos feridos entrevistados pela euronews.

A situação na faixa de Gaza é agravada pelas dificuldades económicas. 53% da população não tem trabalho. A água e a eletricidade são racionadas.

"As condições económicas são muito difíceis. Não temos nada. Foi isso que levou aos protestos. As pessoas querem liberdade, querem o fim do bloqueio, querem trabalhar e ter uma vida como toda a gente", acrescentou o manifestante palestiniano.