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Reaprender a estar em casa depois de 20 anos a dormir na rua

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José Fernando, 62 anos, foi sem-abrigo durante 20 anos
José Fernando, 62 anos, foi sem-abrigo durante 20 anos   -   Direitos de autor  LUSA TV
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Subir as escadas com uma chave no bolso. Metê-la na porta e entrar em casa. José Fernando foi sem abrigo e esteve 20 anos sem saber o que isto era. Com a mesma candura que assume as más escolhas que o levaram a viver na rua, confessa que teve de se habituar a voltar a estar numa casa.

“Chegar a uma casa é estranho e eu senti essa estranheza, no primeiro dia nem dormi na cama, sentei-me no sofá, a olhar para a televisão e quando acordei de manhã estava sentado," conta.

O programa Housing First - a casa primeiro - é uma parceria da Associação Crescer com a Câmara Municipal de Lisboa. "Na cultura em que vivemos, normalmente as pessoas têm de provar que conseguem viver numa habitação e muitas vezes têm de ir para tratamentos, têm de aderir a determinados apoios sociais para ter uma casa. Há pessoas que estão 20, 30 anos na rua e acabam por falecer e nunca aceder a uma habitação”, afirma o diretor da Crescer, Américo Nave.

O Housing First inverte essa lógica. Nas palavras de Américo Nave, a prioridade é "dar uma habitação às pessoas que estão numa situação crónica de sem-abrigo e, depois das pessoas estarem numa situação digna, mais estável e mais segura, trabalham-se todas as outras questões e necessidades, tanto a nível social, como de saúde.”

O modelo vem dos Estados Unidos e começou a ser aplicado em Portugal há sete anos. Ganhou dimensão particular desde o início da pandemia. Das 85 casas atualmente ocupadas, 55 foram atribuídas desde março e mais 35 devem ser entregues até ao final do ano.

A ideia é alargar o programa a todo o país. Na proposta de Orçamento do Estado, o governo prevê usar verbas do Instrumento de Recuperação e Resiliência para apoiar os sem-abrigo. Objetivo: ter respostas sociais de alojamento como o Housing First para 600 pessoas no próximo ano.