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Economia pós-covid. O que nos reserva 2021?

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Economia pós-covid. O que nos reserva 2021?
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2020 foi um ano de contrastes. Na primeira metade, assistimos à recessão mais profunda da história da União Europeia. Depois, entre julho e setembro, as perspetivas tornaram-se mais animadoras, ao ser registado um crescimento recorde de 12,1%. Mas essa recuperação chegou ao fim com a segunda vaga de confinamentos.

A Comissão Europeia reduziu a previsão de crescimento económico na zona euro, em 2021, de 6,1% para 4,2%. Estima-se que leve dois anos até a economia europeia se aproximar do nível pré-pandémico.

Em resposta, os Estados-membros acordaram um pacote histórico de recuperação de 750 mil milhões de euros, conhecido como “Próxima Geração UE”. O fundo inclui 360 mil milhões em empréstimos e 312,5 mil milhões em subvenções.

De onde virá esse dinheiro? Vai ser emprestado pelos mercados financeiros, utilizando a forte notação de crédito da União Europeia.

Zona euro: um vírus, diferentes impactos

Nem todas as economias da União Europeia foram afetadas de igual forma, mas, mesmo as que sofreram menos impacto, ainda são vulneráveis, como a da Finlândia, com uma contração de -4,4% no segundo trimestre em comparação aos -17,8%, registados em Espanha.

Apesar de ter o porto de passageiros mais movimentado do mundo, com mais de 12 milhões de pessoas a atravessar o golfo da Finlândia todos os anos, o país conseguiu manter a taxa de contágio um pouco moderada.

A situação explica em parte por que é que a contração económica é também uma das mais moderadas da União Europeia. Paralelamente, o governo finlandês desbloqueou um pacote de 15 mil milhões de euros para apoiar os trabalhadores e as empresas. No entanto, com os parceiros comerciais europeus ainda atingidos pela crise, os empresários finlandeses temem que a medida seja insuficiente.

Finlândia afetada por abrandamento económico europeu

O abrandamento da procura por parte dos membros da União Europeia e de outros parceiros internacionais está a afetar as empresas finlandesas.

Esta primavera, a Beweship, uma das maiores companhias privadas de transporte de mercadorias da Finlândia, viu as importações e exportações do país a cair.

"Quando se tem 95% dos aviões em terra, na prática, o frete aéreo pára. E depois, de repente, no frete marítimo, temos uma situação em que uma grande parte dos contentores de todo o mundo e dos navios que os transportam, estão parados, fora da costa chinesa, à espera de serem esvaziados", conta Bengt Westerholm, diretor-geral da transportadora.

Não muito longe, a empresa de engenharia Wärtsilä, que emprega quase 19 mil trabalhadores a nível mundial, produz equipamento eficiente do ponto de vista energético para navios e centrais elétricas. Este ano, perdeu 10% em vendas.

Mas, apesar da previsão de crescimento reduzido da União Europeia, vêem sinais de esperança no próximo fundo de recuperação europeu e no enfoque ambiental do Pacto Ecológico.

Atte Palomäki, vice-presidente executivo do departamento de comunicação da empresa, acredita que o negócio vá beneficiar de "um grande impacto" causado por "este acordo ecológico e os planos de recuperação da covid dirigidos em certa medida, dirigidos contra o aquecimento global", bem como do envolvimento dos clientes.

(...) sem esta oportunidade para vender, o rombo pode ir até 1/3 do volume anual de negócios
Stuba Nikula
Director executivo da Events Helsinki

No entanto, quase metade das empresas do setor tecnológico estima que a situação se vá agravar nos próximos meses. O cenário é pouco animador quando quase um quinto das empresas do setor dos serviços está à beira da falência.

Em Helsínquia, também conhecida como "A cidade do Natal", o mercado é normalmente uma das maiores atrações locais, mas não este ano. Com a segunda vaga da pandemia, o país teve de renunciar a uma boa parte dos turistas de inverno.

O diretor executivo da empresa de eventos Events Helsinki, Stuba Nikula, revela que "o mercado de Natal tem cerca de 100 pequenas bancas com empresários em nome individual". Agora, "sem esta oportunidade para vender, o rombo pode ir até um terço do volume anual de negócios".

O caso da Finlândia é sintomático de que manter a pandemia sob controlo é insuficiente para salvaguardar a economia.

A situação nos países vizinhos também tem um impacto. No que diz respeito ao comércio da União Europeia, ninguém ganha, a menos que todos ganhem.

Recuperação económica da Europa: há uma esperança para todos?

os governos têm a responsabilidade de apoiar os trabalhadores e as empresas, porque este é um tipo de crise muito especial
Christian Odendahl
Economista-chefe do Centro para a Reforma Europeia

Christian Odendahl é o economista-chefe do Centro para a Reforma Europeia e falou com a Euronews sobre como ele e a sua equipa perspetivam o futuro económico da União Europeia.

Naomi Lloyd, Euronews: Agora que a União Europeia baixou a previsão de crescimento para o próximo ano, mas, ao mesmo tempo temos esta notícia positiva de uma vacina, quão esperançosos estão numa recuperação económica da Europa?

Christian Odendahl: Vamos ter alguns meses difíceis pela frente, porque temos exatamente essa tensão com a perspetiva de vacinação, e uma vez distribuída a vacina, vai provavelmente haver algum tipo de crescimento pós-coronavírus; mas até lá, ainda vamos passar por dificuldades com este vírus e as medidas de confinamento que foram postas em prática.

N.L.: Muitas pessoas perderam o emprego ou têm as empresas em layoff, à espera de ajuda estatal. Quando é que tudo vai voltar ao normal? Será que vai voltar ao normal?

C.O.: Primeiro, os governos têm a responsabilidade de apoiar os trabalhadores e as empresas, porque este é um tipo de crise muito especial. É uma crise em que os governos são forçados a colocar a economia numa espécie de coma para impedir a propagação do vírus e há todos os motivos para apoiar todos os afetados. Penso que a perspetiva de uma recuperação e de um potencial crescimento pós-coronavírus deve encorajar as pessoas a permanecerem em coma para tentarem conter este vírus durante os próximos meses e a esperarem então uma forte recuperação.

N.L.: Mesmo na Finlândia, onde a economia foi menos atingida, um quinto empresas do setor dos serviços ameaça falir. Isto não nos deixa muito otimistas.

C.O.: Não, uma em cada cinco empresas é uma perspetiva muito preocupante. Esta pandemia tem forçado as pessoas a experimentar coisas novas, particularmente nas esferas do trabalho digital e remoto, por isso penso que há algumas empresas que vão ter dificuldades, mesmo que a economia recupere completamente, porque, em algumas situações, as pessoas mudaram os hábitos, o comportamento, para sempre.

N.L.: A Comissão Europeia acordou um pacote histórico de 750 mil milhões de euros de recuperação. De que forma precisamos deste fundo, agora?

C.O.: "Precisamos absolutamente dele. O sul da Europa, e o turismo no sul da Europa em particular, foi de facto muito atingido. E foi aqui que o Fundo Europeu de Recuperação entrou para colmatar algumas dessas lacunas. E os montantes que vão do norte para o sul são bastante consideráveis. Assim, um país como a Grécia, por exemplo, está destinado a receber cerca de 2% do PIB nos próximos anos. Trata-se de um montante muito considerável".