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Síria: quem derrubou Assad, o que planeiam fazer a seguir e como a Grécia será afetada

Síria
Síria Direitos de autor  Leo Correa/AP
Direitos de autor Leo Correa/AP
De Foteini Doulgkeri
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A comunidade internacional está atualmente em compasso de espera, aguardando que os vencedores revelem os seus planos para os próximos tempos.

Existe uma grande preocupação internacional sobre o que pode esperar a Síria após a queda do regime de Assad. A guerra civil que começou em 2011 matou centenas de milhares de pessoas, causou uma das maiores crises de refugiados dos tempos modernos e literalmente arrasou um país inteiro. A comunidade internacional está atualmente em compasso de espera, aguardando que os vencedores revelem os seus planos para os próximos tempos.

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Falámos com Triantafillos Caratrado, um internacionalista especializado em segurança europeia e em novas ameaças, nomeadamente a radicalização que conduz ao extremismo violento e ao terrorismo.

"Diria que não existem pessoas suficientes que tenham conseguido juntar todos os pontos e traçar as linhas que ligam a Síria, a situação no Médio Oriente e a situação na Ucrânia. Se, há 20 dias, procurássemos qualquer referência à Síria, a única que encontraríamos seria uma operação esporádica levada a cabo pelas forças armadas israelitas, com um bombardeamento aéreo de um ponto qualquer na Síria, ligado a um alvo ou a algumas milícias iranianas", referiu o especialista.

No entanto, "a realidade é que, eventualmente, embora existisse muito interesse, com poucas exceções por parte do público e da comunidade internacional, começou a esmorecer depois de 2016/17, quando a crise dos migrantes refugiados diminuiu e as forças de Assad começaram a controlar a maior parte da Síria, com exceção da região de Idlib, onde as forças armadas da oposição estão essencialmente concentradas", detalhou.

Na ótica de Triantafillos Caratrado, "dois fatores foram, portanto, subestimados". E elaborou: "O primeiro fator foi a forte dependência do regime de Assad, maior do que o previsto, de fornecedores externos de segurança, nomeadamente a Rússia, o Irão, através do Hezbollah e vários outros grupos armados e milícias xiitas. O segundo aspeto é que, em última análise, estes grupos são jihadistas ou outros, pelo que este mosaico de organizações armadas que constituem o exército rebelde da oposição adquiriu, nos últimos anos, uma liderança sem que essa liderança seja necessariamente aceite por todos, porque há muitas particularidades."

"Afinal, estamos a falar de uma organização que é reconhecida como uma organização terrorista pelos Estados Unidos da América e pelo Reino Unido, entre outros, mas que conseguiu ganhar o papel principal através da força e tem sido quem tem conduzido os desenvolvimentos no campo de batalha nos últimos tempos", recordou ainda o especialista.

Sobre as razões que levaram ao desmoronamento tão rápido do regime, elucidou, recordando o caso de outro conflito que tem estado na ordem do dia: "Começando pelo caso da invasão da Ucrânia, quando a Rússia é obrigada a apoiar este campo de batalha, a transferir soldados, a transferir comandantes, vimos que os comandantes que tinha na Síria há muitos e muitos anos foram os que assumiram o controlo. Isto depois da segunda fase da guerra, em que não conseguiu fazer um contra-ataque, e acabou por transferir o grupo Wagner e vários outros grupos que estavam a combater ou a atuar na Síria e em toda a região no terreno." Não esquecendo, claro está, "o equipamento militar, que obviamente foi em grande parte para a guerra na Ucrânia".

No entanto, Triantafillos Caratrado notou que, "em segundo lugar", era preciso "ter em conta a ação de Israel contra o Hezbollah", que se tratou da "última oportunidade estratégica que criou o contexto que predeterminou um desfecho que parecia estar para chegar". No entanto, destacou que "ninguém, nem mesmo o académico mais meticuloso, poderia ter previsto que o regime se desmoronaria em menos de duas semanas".

Mas quem são aqueles que conseguiram assumir o controlo na Síria? "Essencialmente, é uma organização que também se desenvolveu, inicialmente, em colaboração com o Estado Islâmico. Portanto, é uma organização jihadista dura, que evoluiu e podemos ver isso nas declarações feitas pelo seu líder, que é atualmente a pessoa-chave", referiu o especialista.

"Mas também devemos saber outra coisa, precisamente porque não há uma aceitação generalizada, não existe um programa político que esta organização tenha colocado em cima da mesa e reunido apoio", elaborou Triantafillos Caratrado, acrescentando: "Foi a organização que conseguiu destacar-se no terreno das restantes e dirigir o espetáculo."

O mesmo estudioso destacou ainda que "a grande questão é saber como é que aqueles que estão atualmente no poder, ou seja, al-Jolani, vão gerir o regime de Assad e os milhares de pessoas que eram o braço humano do regime de Assad". Ou seja, "os elementos das forças armadas, que vimos que, em grande medida, muitos deles não lutaram, ou seja, renderam-se, basicamente".

Além disso, importa lembrar que Israel tem vindo a bombardear a Síria ao longo dos últimos meses. Netanyahu está a tentar evitar a criação de um novo "barril de pólvora" na sua fronteira.

"Por um lado, existe algo positivo para Israel e para os sírios, ao que parece, e para vários países da região, que é o colapso de um regime autoritário. Mas, por outro lado, existe uma ansiedade muito grande e também uma preocupação, diria eu, sobre a forma como essas organizações se vão mover, como se víssemos uma organização que vai funcionar essencialmente como os talibãs, com um verniz de normalização e renúncia ao passado fundamentalista autoritário, que vai cair lentamente como uma folha de figueira em todo o processo", afirmou Triantafillos Caratrado.

Lembrou, no entanto, que existem "outras organizações terroristas na Síria, quer no seio das organizações que lutam contra o regime de Assad, quer utilizando-as como base, como centro de trânsito". E detalhou: "Tudo isto interessa muito a Israel e aos Estados Unidos da América para que a Síria não volte a ser o que foi em 2011. É uma oportunidade estratégica para uma ou outra organização, o Estado Islâmico, ganhar estatuto territorial e desenvolver um novo processo terrorista, mas também envia uma mensagem."

Até ao momento, parece que al-Jolani está a tentar criar estabilidade no país. "É essencialmente isso que ele está a prometer fazer. Temos assistido a um movimento positivo, porque é certo que existem muitas preocupações e dúvidas, mas há alguns passos positivos", começou por apontar o especialista.

"O mais positivo é o facto de ter chegado a um acordo com o primeiro-ministro nomeado por Assad para que haja uma transição. Isto demonstra que, pelo menos na primeira fase, não iremos assistir a uma instabilidade prolongada, mas sim a uma tentativa de fazer com que a Síria funcione como um Estado", referiu.

E acrescentou: "Por outro lado, ele refere um período pós-transição bastante longo, de um mês, por assim dizer, até existirem eleições na Síria. Por isso, resta saber se ele acabará por transformar, como indica, o Tahrir al-Sham num braço mais político, ou seja, se ele próprio passará de coordenador de operações militares a uma pessoa política e o que isso significará, se procurará aliados, quem irá integrar a organização quando esta se tornar política e quem mais entrará nesta história".

Triantafillos Caratrado concluiu dizendo que resta saber qual o papel que o Ocidente desempenhará nos próximos dias na Síria e na Turquia.

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