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Rússia praticamente em silêncio sobre protestos no Irão, mas cooperação militar continua

Presidentes do Irão e da Rússia durante reunião no Kremlin, 17 de janeiro de 2025
Presidentes do Irão e da Rússia durante reunião no Kremlin, 17 de janeiro de 2025 Direitos de autor  Kremlin Pool Photo via AP
Direitos de autor Kremlin Pool Photo via AP
De Irina Sheludkova
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Foram necessárias quase duas semanas de protestos no Irão para que o Kremlin reagir à crise vivida no Irão. Numa entrevista à Euronews, o analista político e especialista em Irão, Nikita Smagin, explica as relações entre Moscovo e Teerão.

A Rússia permaneceu praticamente em silêncio durante quase duas semanas após o início dos protestos em massa no Irão, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, a afirmar na quinta-feira que "nenhuma terceira parte pode alterar a natureza fundamental das relações entre os dois países".

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, comentou pela primeira vez na terça-feira sobre a situação no Irão — que tem vindo a intensificar-se constantemente há quase 20 dias —, culpando que apelidou de “pressão ilegal das sanções” do Ocidente que, nas suas palavras, “cria problemas económicos e sociais”.

Zakharova afirmou que a "tensão pública" está a ser usada "para desestabilizar e destruir o Estado iraniano". A porta-voz também repetiu os argumentos do Kremlin sobre as "revoluções coloridas".

O analista político Nikita Smagin disse à Euronews que, desde o início dos protestos, a Rússia abordou a questão "com muita cautela, ou seja, houve muito poucas declarações", e mesmo assim apenas ao nível da embaixada russa no Irão.

"Esta resposta moderada deveu-se ao facto de a Rússia estar a observar a situação e a ponderar a possibilidade de uma mudança de regime ou outras mudanças radicais", afirmou Smagin. Na sua declaração, Zakharova "apoiou categoricamente" a República Islâmica, acrescentou.

Smagin observou que isto reflete a conclusão de Moscovo, no meio da repressão dos protestos, de que as autoridades iranianas não estão sob ameaça e podem, portanto, ser abertamente apoiadas para facilitar ainda mais o desenvolvimento das relações entre os dois países.

Quão fortes são os laços entre Moscovo e o Irão?

Moscovo e Teerão aproximaram-se após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.

A Rússia e o Irão assinaram um acordo de parceria estratégica há exatamente um ano, cujos principais pilares são a cooperação militar e económica, particularmente no setor energético, bem como esforços para mitigar o impacto das sanções.

No entanto, Smagin observou que a Rússia e o Irão não são aliados no sentido mais direto da palavra. É mais adequado descrevê-los como parceiros estratégicos, dada a significativa desconfiança mútua e uma aproximação impulsionada pela necessidade, com ambos os lados tendo poucas vias de envolvimento no cenário internacional.

"Eles operam dentro deste corredor estreito, o que torna a sua relação bastante estável", disse Smagin. "Na verdade, os laços económicos não cresceram muito desde 2022, apesar de todos os esforços. Os números do volume de negócios comercial mudaram apenas marginalmente."

Smagin explicou que existem projetos potenciais para aprofundar os laços, mas que ainda estão em fase de desenvolvimento: acordos preliminares para a Rússia construir novas centrais nucleares no Irão, ativação do corredor de transporte Norte-Sul e construção de uma linha ferroviária, e investimento e participação russos no setor do petróleo e gás, incluindo esforços para transformar o Irão num centro de gás para o trânsito de gás russo.

Cooperação militar em expansão

Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, a Rússia tem usado drones iranianos Shahed para realizar ataques a infraestruturas civis. Em 2022, a União Europeia impôs sanções a funcionários e ao fabricante de drones no Irão.

De acordo com a Bloomberg, desde outubro de 2021 — vários meses antes da invasão em grande escala da Ucrânia — a Rússia comprou mais de 4 mil milhões de dólares em armas do Irão, incluindo mísseis balísticos.

"Quanto à cooperação militar, ela está realmente a expandir-se", observou Smagin.

A Rússia agora está a produzir Shaheds em seu próprio território, renomeando-os como "Geran-2", após comprar a tecnologia do Irão em 2023.

"A Rússia localizou em grande parte a produção destes drones e, além disso, começou a fabricar os seus próprios. O auge da importância do Irão como parceiro militar da Rússia já passou há muito tempo; foi em 2022 e 2023", disse Smagin.

A dinâmica está a inverter-se: a Rússia procura cada vez mais fornecer armas ao Irão.

"Isto inclui vários tipos de armamento, como caças Su-35 e helicópteros de ataque Mi-28. Há informações de que os primeiros helicópteros deste tipo chegaram ao Irão durante os protestos", explicou Smagin.

"Há também outras categorias que não são declaradas publicamente, mas que surgiram em relatórios, incluindo veículos blindados Spartak, sistemas de guerra eletrónica e radares", acrescentou.

O Irão está a tornar-se um destinatário cada vez mais significativo das exportações militares russas, mas Smagin salientou que a Rússia "não se comprometeu totalmente nessa direção, pois está absorvida pela guerra com a Ucrânia e, nesse sentido, tem capacidades limitadas".

Apesar dos recentes reveses na Síria e na Venezuela, Moscovo mantém a capacidade de ajudar os parceiros em dificuldades.

Num artigo para a Foreign Policy, Nicole Grajewski, investigadora do programa de política nuclear da Carnegie Endowment, observou que, no caso do Irão, a Rússia não está a procurar uma intervenção direta, mas sim a reforçar o aparelho de segurança interna do regime.

Numa entrevista à Euronews, Smagin disse que há suspeitas de que os sistemas de guerra eletrónica russos estejam a ajudar o Irão a interferir com o Starlink ou, no mínimo, a perturbar o funcionamento do serviço de Internet por satélite de Elon Musk.

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