Em Davos, Merz descreve um mundo cada vez mais hostil, em que a política de pressão aumenta – e, a partir disso, elabora um plano de quatro pontos para a Europa. Ao mesmo tempo, estabelece limites claros em relação aos EUA: ameaças de violência contra o território europeu são inaceitáveis.
O chanceler alemão Friedrich Merz iniciou o seu discurso em Davos com um diagnóstico: a ordem mundial dominada pelos EUA está a desintegrar-se cada vez mais, e o mundo entrou numa "era de política de grandes potências". Segundo Merz, este novo mundo será construído com base no poder, na força e, se necessário, também na violência.
Ao mesmo tempo, enfatizou que a Europa não está à mercê dessa evolução e pode ajudar a moldá-la. O chanceler dirigiu-se expressamente à elite económica internacional: a Europa e a Alemanha "entenderam a mensagem" e agora precisam de agir com determinação.
Merz saúda a cedência de Trump, mas estabelece limites
No seu discurso, Merz também fez referência ao recente agravamento do conflito em torno da Gronelândia e às relações com o presidente dos EUA, Donald Trump. Embora tenha saudado a cedência de Trump após um primeiro acordo referente ao conflito sobre a Gronelândia ("este é o caminho certo"), deixou bem claro: qualquer ameaça para ocupar território europeu pela força é inaceitável.
Igualmente clara foi a sua advertência contra uma espiral de tarifas: na sua opinião, novas tarifas minariam os alicerces das relações transatlânticas, ao que a Europa reagiria de forma "unida, calma, adequada e forte".
Merz associou a questão da Gronelândia a um argumento mais amplo de política de segurança: num mundo em que as grandes potências demarcam zonas de influência, a Europa deve reforçar a sua capacidade de defesa, mas sem comprometer levianamente a aliança com os EUA.
Defendeu ainda que a parceria transatlântica não deve ser "precipitadamente descartada" e sublinhou o papel da NATO como âncora de segurança baseada na confiança. Ao mesmo tempo, colocou o "extremo norte" em foco como espaço estratégico e anunciou que a Alemanha apoiaria mais fortemente a Dinamarca e a Gronelândia e, juntamente com os aliados, contribuiria mais para a proteção contra as ameaças russas.
Agenda de Merz para a UE: autodefesa e mais crescimento
Em termos de conteúdo, Merz traça uma agenda de trabalho europeia: a Ucrânia deve continuar a ser apoiada para que uma "paz justa" seja possível. A Europa também deve ser capaz de se defender, algo que Merz associa à exigência de investir largamente na sua própria segurança.
Um terceiro ponto importante: reduzir as dependências que tornam a Europa vulnerável, uma lição aprendida com as crises recentes, que vão desde as questões energéticas até às cadeias de abastecimento e às tecnologias críticas.
Em quarto lugar, a UE deve garantir que a sua economia possa explorar todo o seu "potencial". Merz formula esse ponto considerando uma estratégia dupla, porque, na sua ótica, competitividade e poder de influência geopolítica estão interligados.
Mercosul como teste de resistência para a política comercial da Europa
Merz também foi claro no que diz respeito ao comércio livre: apresentou o acordo com o Mercosul como uma alavanca central para um maior crescimento e considerou-o "justo e equilibrado". Ao mesmo tempo, criticou o Parlamento Europeu, que iniciou uma análise jurídica por via do Tribunal Europeu de Justiça – na sua opinião, mais um obstáculo que trava a Europa numa fase de mudanças no equilíbrio de poder global.
A mensagem de Merz ao público em Davos passou por dar conta de que a Europa não se deixará deter por tais contratempos, mas buscará ativamente novas parcerias. Mencionou igualmente, nesse contexto, conversações com a Índia e outros acordos, por exemplo, com o México e a Indonésia.
"Campeão mundial da regulamentação excessiva"
No que diz respeito à política interna, foi no tema da regulamentação que Merz colocou uma das tónicas mais acentuadas: a Alemanha e a Europa desperdiçaram um "incrível potencial de crescimento" devido ao adiamento de reformas; a UE tornou-se o "campeão mundial do excesso de regulamentação".
Como solução, Merz defende uma espécie de travão de emergência à burocracia e à legislação, bem como um orçamento comunitário modernizado. Juntamente com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, formulou recomendações para o efeito.
Fez referência a uma cimeira extraordinária da UE a 12 de fevereiro, na qual os chefes de Estado e de Governo deverão discutir medidas para reforçar a competitividade.
No final do seu discurso, Merz apresentou uma linha governamental que combina segurança, competitividade e unidade europeia.
A Alemanha deve assumir um papel fundamental e ajudar a moldar ativamente o "destino da UE" – sem alarmismo, mas com a ambição de responder de forma estruturada e a longo prazo aos desafios dos novos tempos. A sua mensagem central continua a ser: o mundo está a tornar-se mais difícil, mas a Europa pode ser capaz de agir se se reforçar militar, económica e politicamente.
Imediatamente após o seu discurso em Davos, Merz pretende, de acordo com os planos atuais, seguir para Bruxelas para a cimeira da UE, onde, entre outros assuntos, o conflito da Gronelândia será novamente discutido.