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Degelo dos glaciares pode travar as alterações climáticas? Cientistas pensavam que sim até agora

Roseta de amostragem com garrafas cinzentas à esquerda, o corrimão do navio em baixo à direita e a frente da plataforma de gelo ao fundo
Roseta de amostragem com garrafas cinzentas à esquerda, amurada do navio em baixo à direita e frente da plataforma de gelo ao fundo. Direitos de autor  Robert Sherrell
Direitos de autor Robert Sherrell
De Liam Gilliver
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A fertilização com ferro tem sido apontada como uma esperança face ao aumento das emissões, mas um novo estudo parece ter deitado por terra essa teoria

Aquilo que muitos viam como um «lado positivo» duradouro face aos efeitos das alterações climáticas está a ser posto em causa, depois de cientistas terem identificado uma grande falha nessa teoria.

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À medida que as emissões com efeito de estufa continuam a aquecer o planeta, os glaciares da Antártida estão a derreter a um ritmo sem precedentes. Apesar de estarem geograficamente isolados da presença humana, o desaparecimento destas vastas massas de gelo tem um impacto significativo em todo o mundo.

O Thwaites Glacier, também conhecido como Doomsday Glacier, já é responsável por 4 por cento da subida anual do nível médio do mar. Se colapsar totalmente, o nível do mar poderá aumentar cerca de 65 centímetros.

Para se ter uma ideia da dimensão, os cientistas estimam que, por cada centímetro de subida do nível do mar, cerca de seis milhões de pessoas fiquem expostas a inundações costeiras.

Mas, no remoto Oceano Antártico, a teoria da fertilização por ferro parecia oferecer uma réstia de esperança.

O que é a fertilização por ferro?

Com a subida das temperaturas e o degelo dos glaciares, o ferro retido no gelo é libertado para o oceano.

Os cientistas teorizaram que esse ferro alimenta enormes proliferações de algas microscópicas, capazes de retirar dióxido de carbono da atmosfera através da fotossíntese.

Quando morrem, estas algas afundam-se no fundo do mar, potencialmente sequestrando carbono para sempre.

Alguns investigadores têm defendido a descarga de grandes quantidades de ferro no oceano, como parte de estratégias de geoengenharia para enfrentar o aumento das emissões, mas outros alertam que isso pode criar «zonas mortas».

São áreas em que os níveis de oxigénio são tão baixos – neste caso, consumidos pela decomposição das algas – que quase não existe vida abaixo da superfície. Fenómenos deste tipo já ocorreram em zonas como o Mar Báltico, devido à poluição de nutrientes resultante da atividade humana.

O degelo dos glaciares pode ajudar a reduzir as emissões de carbono?

Mas uma equipa de cientistas marinhos da Rutgers University-New Brunswick, nos Estados Unidos, concluiu que a água de degelo da plataforma de gelo antártica fornece muito menos ferro às águas circundantes do que se pensava.

Em colaboração com várias universidades dos EUA e do Reino Unido, Rob Sherrell, professor no Departamento de Ciências Marinhas e Costeiras, e a sua equipa viajaram em 2022 até à plataforma de gelo Dotson, no mar de Amundsen, na Antártida Ocidental.

O mar de Amundsen é responsável pela maior parte da subida do nível do mar provocada pelo degelo antártico. Nesta região, a água de degelo glacial vem de baixo das plataformas de gelo flutuantes, impulsionada sobretudo por água quente que ascende do oceano profundo para as cavidades sob o gelo.

Para medir quanto ferro esta água de degelo acrescenta às águas circundantes, os investigadores identificaram o ponto onde a água do mar entra numa dessas cavidades e o ponto por onde sai após a mistura com a água de degelo. Recolheram amostras de água tanto à entrada como à saída.

De volta aos Estados Unidos, o colega de Sherrell, Venkatesh Chinni, analisou as amostras para determinar o teor de ferro, tanto na forma dissolvida como em partículas em suspensão, e calcular quanto mais ferro saía da cavidade em comparação com o que entrava.

Para surpresa da equipa, apenas cerca de 10 por cento do ferro dissolvido no escoamento vinha da própria água de degelo. A maior parte provinha da água profunda que entra na cavidade (62 por cento) e dos sedimentos da plataforma continental (28 por cento).

«Água de degelo transporta muito pouco ferro»

«Cerca de 90 por cento do ferro dissolvido que sai da cavidade sob a plataforma de gelo vem das águas profundas e dos sedimentos fora da cavidade, não da água de degelo», afirma Chinni.

O estudo, publicado na revista científica Communications Earth and Environment, concluiu também que, por baixo do glaciar, existe uma camada líquida de água de degelo sem oxigénio dissolvido. Esta pode ser uma fonte de ferro mais importante do que o próprio degelo da plataforma de gelo.

«O que defendemos neste artigo é que a água de degelo, por si só, transporta muito pouco ferro e que a maior parte do ferro que leva consigo resulta da trituração e dissolução da rocha de base na camada líquida situada entre essa rocha e a camada de gelo, e não do gelo que está a provocar a subida do nível do mar», explica Sherrell.

A equipa considera que é agora necessária mais investigação para compreender as fontes de ferro da Antártida num mundo em aquecimento. Isto significa que o «lado positivo» em que muitos cientistas depositavam esperança pode afinal não se confirmar.

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