De território colonizado a país independente com uma das democracias mais estáveis de África. Cabo Verde elege hoje um novo governo para os próximos 5 anos nas eleições legislativas.
Mais de 400 mil eleitores cabo-verdianos votam neste domingo para eleger o novo governo para os próximos cinco anos de legislatura. Considerado um dos sistemas democráticos mais estáveis de África, o país, com cerca de 525 mil habitantes, é representado por 72 deputados eleitos que compõem a Assembleia Nacional.
Entre os cinco partidos na corrida, destaca-se o Movimento para a Democracia (MPD), do atual chefe de governo, Ulisses Correia da Silva, que procura renovar para um terceiro mandato consecutivo. O atual primeiro-ministro promete melhorar o serviço nacional de saúde, aumentar os salários e reforçar a economia.
O PAICV, maior partido da oposição, quer regressar ao governo com Francisco Carvalho, atual presidente da Câmara Municipal da cidade da Praia, capital cabo-verdiana. No seu programa eleitoral, o autarca aposta na gratuitidade do ensino e no acesso à saúde e promete reduzir os custos dos transportes entre as ilhas do arquipélago. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas e oito ilhéus.
Estes dois partidos têm alternado a liderança do país desde as primeiras eleições livres em 1991.
A atual terceira força política é a União Cabo-verdiana Independente e Democrática (UCID), liderada por João Santos Luís, que tenta “quebrar a bipolarização partidária”.
Segundo os especialistas, esta eleição vai ser "renhida", mas a disputa vai se concentrar entre o MPD e o PAICV. “A sociedade cabo-verdiana continua dividida entre os dois maiores partidos, o que poderá dificultar o crescimento das formações menores”, interpreta a DW-África depois de conversar com o jurista cabo-verdiano João Santos.
O sufrágio está a decorrer nas 1.342 mesas de voto, sob a supervisão da CNE cabo-verdiana, sendo 1.058 no território nacional e 284 na diáspora. Ainda de acordo com este órgão eleitoral, estão inscritos 416.335 eleitores, dos quais 344.284 no território nacional e 72.051 na diáspora.
O país recebe missões de observação eleitoral internacionais. Nestas eleições, 218 observadores internacionais estão credenciados, informa a CNE.
Últimas eleições com maioria absoluta
Nas legislativas de 2021, o MPD renovou o mandato com maioria absoluta. O partido do atual primeiro-ministro elegeu 38 deputados contra 30 do PAICV e 4 da UCID. Foi, aliás, mais uma maioria conquistada por este partido. Nas últimas décadas, tanto o MPD como o PAICV têm governado sempre com maiorias parlamentares desde a consolidação do multipartidarismo naquela que é considerada “a melhor democracia e a mais livre de África”, segundo o Governo.
Ao todo, em 2021, votaram 225.761 cabo-verdianos, o que correspondeu a uma taxa de participação eleitoral de 57,57%.
Cabo Verde um arquipélago descoberto por italianos e portugueses
Santiago terá sido a primeira cidade povoada pelos colonizadores. Ali, terão se fixado navegadores italianos e portugueses ao comando da coroa portuguesa, em 1460.
As dez ilhas e os oito ilhéus do arquipélago dividem-se entre o Barlavento, com as ilhas de Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista, e o Sotavento, formado pelas ilhas de Santiago, Maio, Fogo, Brava.
Dada a sua localização, a ilha de Cabo Verde tornou-se um importante entreposto nas rotas atlânticas entre a Europa, a África e a América Latina, sobretudo durante o período de tráfego de escravos para o Brasil.
Esta centralidade marcou profundamente a formação da sociedade cabo‑verdiana, construindo uma economia e uma estrutura social dependentes da coroa portuguesa.
Com a abolição do comércio de escravos, decretada em fevereiro de 1836 pelo marquês Sá de Bandeira, e, mais tarde, o fim da escravatura (1869), europeus livres e escravos da costa africana fundiram-se num só povo, o cabo-verdiano. O crioulo, língua local, emergiu e a comunidade, maioritariamente mestiça, formou-se com uma forma de estar e de viver muito própria. Ao longo dos séculos, Cabo Verde foi fustigado por secas recorrentes e por falhas na produção agrícola, o que levou o arquipélago a entrar em decadência e a viver numa “economia pobre e de subsistência”.
Em 1956, Amílcar Cabral fundou um partido para lutar contra a ditadura e o colonialismo portugueses. Um dos percursores da "descolonização das mentes", Cabral foi o principal estratega na luta contra o colonialismo na Guiné-Bissau e em Cabo Verde. Foi assassinado, em Conacri, no dia 20 de janeiro de 1973, em circunstâncias ainda hoje questionadas e dois anos antes da independência de Cabo Verde.
Em dezembro de 1974, após uma longa guerra colonial no chamado ultramar português, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) assinou um acordo com Portugal para instaurar um governo de transição. Em 5 de julho de 1975, Abílio Duarte, presidente da Assembleia Nacional Popular, declarou a independência do país.
Em 1991, na sequência das primeiras eleições multipartidárias livres realizadas no país, foi instituída uma “democracia parlamentar com todas as instituições de uma democracia moderna”, o que fez de Cabo Verde um dos países africanos com maior estabilidade e paz social.