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Gronelândia: cientista estuda fiordes glaciais e risco de ponto crítico climático

RRS Sir David Attenborough na Gronelândia em 2024.
RRS Sir David Attenborough na Gronelândia em 2024 Direitos de autor  British Antarctic Survey
Direitos de autor British Antarctic Survey
De Liam Gilliver
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Investigadores vão também testar um protótipo de “sistema de alerta precoce” para alterações dos glaciares na Gronelândia, à medida que o degelo continua a acelerar

Uma equipa internacional de cientistas quer perceber a que velocidade o degelo dos glaciares da Gronelândia está a empurrar o oceano Atlântico para um ponto de não retorno climático crítico.

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No âmbito de um projeto de cinco anos, o GIANT (Greenland Ice sheet to Atlantic Tipping Points), investigadores de 17 entidades parceiras – liderados pelo British Antarctic Survey (BAS) – vão deslocar-se este verão à ilha autónoma para uma expedição de dois meses.

Financiado pela Advanced Research and Invention Agency (ARIA), o projeto pretende apurar quanta água de degelo é libertada pelos glaciares que desaguam nos fiordes da Gronelândia, de que forma essa água entra no oceano Atlântico Norte e como este processo afeta o sistema climático global.

Porque o ponto de não retorno da Gronelândia é motivo de preocupação global

O recuo das calotes de gelo da Gronelândia já contribuiu para cerca de um quinto da subida do nível médio do mar a nível global, numa altura em que as emissões de gases com efeito de estufa fazem disparar as temperaturas.

Segundo o National Snow and Ice Data Centre, a camada de gelo da Gronelândia contém água suficiente para elevar o nível médio do mar em 7,4 metros se derretesse por completo. Por cada centímetro de subida, cerca de seis milhões de pessoas em todo o mundo ficam expostas a inundações costeiras.

O degelo na Gronelândia também liberta enormes quantidades de água doce para o oceano, o que, receiam os cientistas, pode afetar um importante sistema de correntes do Atlântico conhecido como Giro Subpolar. Esse sistema transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte, regulando as temperaturas e o clima na Europa e na América do Norte.

Mas a água doce de degelo pode formar uma espécie de «tampa» sobre o Giro Subpolar, impedindo a formação de água mais quente e densa que alimenta a vasta «correia transportadora» oceânica global responsável por distribuir calor e nutrientes pelo planeta. Algumas projeções alertam que o Giro Subpolar pode sofrer alterações já nos próximos quatro anos.

Corrida para compreender o degelo dos glaciares da Gronelândia

Apesar das implicações evidentes, os cientistas ainda não têm uma imagem clara de como os glaciares que desaguam nos fiordes da Gronelândia e os cerca de 200 fiordes estreitos da ilha interagem realmente com o oceano que os rodeia.

É por isso que os investigadores viajam este verão para a Gronelândia munidos de um «conjunto sofisticado» de tecnologias, que inclui drones aéreos, robots marinhos autónomos, satélites e instrumentos que podem ser inseridos diretamente no gelo dos glaciares.

Este sistema de observação coordenado vai permitir aos cientistas aproximarem-se dos glaciares, desde a análise de fendas individuais no gelo até ao acompanhamento do fluxo de água de degelo e de icebergs para o Atlântico Norte.

Os dados recolhidos serão depois introduzidos em vários modelos informáticos e servirão para desenvolver um protótipo de Sistema de Alerta Precoce que possa dar sinais antecipados de qualquer alteração rápida dos glaciares.

«Este é um projeto extremamente ambicioso e urgente», afirma a climatóloga Kelly Hohan, co-criadora do GIANT e investigadora no British Antarctic Survey.

«Sabemos que a Gronelândia está a perder gelo a um ritmo sem precedentes e que isso vai afetar o oceano envolvente, desde os fiordes costeiros, tão importantes para as comunidades locais, até às grandes correntes que trazem calor para a Europa Ocidental.»

O GIANT vai centrar-se em dois tipos de glaciares na Gronelândia que oferecem «perspetivas contrastantes mas complementares» sobre a sua estabilidade. Incluem-se os glaciares de maré perto de Kangerlussuaq, no sudeste da Gronelândia, e o glaciar Petermann, no noroeste da Gronelândia.

«Tentar construir sistemas de modelização capazes de captar alterações abruptas nos glaciares é uma aposta arrojada e arriscada», sublinha o professor Paul Holland, responsável pela componente de modelização numérica do GIANT.

«A ciência é complexa e existe uma possibilidade real de não conseguirmos prever perdas súbitas de gelo.»

Mesmo que o projeto não corresponda totalmente ao previsto, Holland defende que a comunidade científica sairá desta iniciativa com melhores capacidades de previsão climática e uma compreensão mais sólida de como a Gronelândia poderá afetar o oceano no futuro.

Sistema de alerta precoce para os glaciares da Gronelândia

Os investigadores esperam que, ao desenvolverem um Sistema de Alerta Precoce, os governos possam preparar-se melhor para responderem às consequências das alterações climáticas.

Este sistema digital combinaria observações por satélite, dados recolhidos no terreno e modelos estatísticos de comportamento dos glaciares para prever quando é que a perda de gelo para o Atlântico Norte poderá aumentar de forma súbita.

Sarah Bohndiek, do programa Forecasting Tipping Points da ARIA, lembra que os cientistas não conseguem atualmente prever quando é que os pontos de não retorno climático poderão ser ultrapassados, deixando-nos «pouco preparados para lidar com as consequências potencialmente irreversíveis» de passar esses limiares.

«Desenvolver um sistema de alerta precoce é essencial para dar aos governos, à indústria e à sociedade em geral a informação de que precisam para reforçar a resiliência e acelerar medidas de adaptação climática proativas», acrescenta.

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