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Da guerra ao 'militainment': o que nos dizem os vídeos e memes sobre o conflito no Irão?

Quando a guerra vira entretenimento: o que nos dizem os vídeos e memes sobre o conflito no Irão?
Quando a guerra vira entretenimento: o que nos dizem os vídeos e memes sobre o conflito no Irão? Direitos de autor  AP Photo/U.S. Central Command
Direitos de autor AP Photo/U.S. Central Command
De Diana Rosa Rodrigues
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Super-heróis, música épica e jogos de vídeo fundem-se com imagens reais do conflito no Médio Oriente, nomeadamente através dos canais de comunicação dos EUA. A propaganda não é algo novo mas os mecanismos da era digital trazem novos desafios para quem quer dominar a guerra da informação.

Se o conflito no Médio Oriente se trava com ataques no campo da batalha, as palavras e imagens podem ser consideradas outras armas mas no campo da informação. Para o governo dos Estados Unidos, a guerra é muitas vezes descrita com imagens fortes e uma narrativa marcada, como revelam os vários vídeos publicados nas redes sociais oficiais da atual adminsitração.

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Exemplo disso mesmo é um vídeo que mistura cenas de filmes de Hollywood com imagens de alegados ataques reais, perpetrados pelos Estados Unidos em solo iraniano.

“Justice the American Way” é a legenda que acompanha o vídeo publicado na conta oficial de Instagram da Casa Branca. Um slogan forte, escrito em letras maiúsculas para intensificar a mensagem de uma aparente justiça e justificação para o conflito em curso. A guerra e o entretenimento fundem-se num produto final, publicado num meio rápido, direto e de massas.

“Esta administração americana, de facto, tem um discurso muito heroico, sempre vencedor” explica à Euronews Nelson Ribeiro, professor universitário, atualmente vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa.

“Ao mesmo tempo, há uma espécie de compensação desse discurso pouco elaborado, procurando uma retórica muito marcada por slogans e entretenimento: apresentar a narrativa do herói, do conquistador, e isso é acompanhado não apenas dessa retórica, mas também de imagens que, no fundo, ilustram um pouco esta forma de falar e de comunicar a guerra".

A publicação em questão gerou mesmo alguma polémica, com atores cujo trabalho surgiu no vídeo, como Ben Stiller, que protagonizou o filme de 2008 _Tropic Thunde_r, e Steve Downes, que interpreta o protagonista de Halo, a indicarem que não deram autorização para a utilização das imagens, exigindo que fossem removidas.

Na rede social X, Ben Stiller afirmou que "não tinha qualquer interesse em fazer parte da de propaganda" da Casa Branca. "A guerra não é um filme", escreveu.

O vídeo é apenas um das dezenas de exemplos capazes de ilustrar a aparente estratégia de comunicação da Casa Branca, pelo menos, no meio digital. Sucessivas montagens de imagens de explosões reais da guerra, misturados com heróis de ação do cinema, imagens de videojogos e até desportos como futebol americano ou o basebol, onde uma tacada se transforma rapidamente em mais um ataque bem-sucedido em solo iraniano.

A linguagem visual deixa pouca margem para interpretação, com os conteúdos apresentados a privilegiarem mensagens rápidas, visuais e emocionalmente carregadas, onde a ação militar surge como necessária, legítima e até inevitável.

Aqui não parece haver espaço, nem tempo, para contextos complexos, implicações geopolíticas ou até consequências humanitárias. Com vídeos curtos e impactantes, a narrativa parece reduzida a algo simples e binário onde o mal e o bem existem em polos contrários, claros e que não se misturam.

A propapaganda e a tentativa de controlo da narrativa são quase tão antigos como a própria guerra.

"Em tempos de guerra sempre houve desinformação, desde a Antiguidade Clássica, sempre. É um instrumento importantíssimo para, no fundo, tentar derrotar os inimigos, desmoralizar, conseguir a adição da opinião pública contra os inimigos. Portanto, tudo isso, mais uma vez, é o livro clássico da propaganda", explica Nelson Ribeiro. Porém, as nuances dos produtos mediáticos recentemente divulgados podem ser consideradas uma "novidade".

"Para mim, talvez, a grande novidade, surpresa, estranheza também, foram nomeadamente vídeos que o governo americano divulgou, em que mistura imagens reais com imagens de jogos e imagens cinematográficas. Qualquer linha que existisse entre aquilo que era a realidade e a ficção, temos dificuldade hoje em dia em encontrá-la", explica o professor.

Nas redes sociais, a guerra ganha outra dimensão: a de espetáculo. Uma fusão entre o setor militar e o setor do entretenimento, que até já tem um conceito próprio: o "militainment". O termo não existe em português mas, numa tradução livre, pode ser aqui referido como "mili-entretenimento".

Guerra vs entretenimento

"Há uma longa tradição daquilo que até se chama 'militainment' que é, no fundo, produzir entretenimento que simula a atividade militar" explica Nelson Ribeiro, indicanto que esta é uma prática comum em tempos de guerra mas também fora deles. "Sabemos que, por exemplo, a indústria de Hollywood tem uma relação privilegiada com as Forças Armadas Americanas para produzir conteúdos que, de certa forma, romantizam a atividade militar, desde filmes clássicos como, por exemplo, Top Gun, até outras produções mais recentes".

A presença de imagens militares no meio mediático também não é novidade. "A Guerra do Golfo, nos anos 90, foi talvez um conflito que iniciou aqui uma nova forma de as forças militares americanas fornecerem imagens, normalmente de grande qualidade, aos médias internacionais", explica o especialista.

O conceito surge aliado a outro. A chamada "gamificação" do conflito, no qual são aplicadas lógicas e estruturas típicas dos jogos de vídeo à forma como os os conflitos são comunicados e, consequentemente, percecionados pelo público.

As "operações militares são apresentadas quase como se estivessem**, efetivamente, a falar de um jogo ou de uma coisa para nos entreter",** reforça Nelson Ribeiro.

"Isto vem, num certo sentido, em sequência daquilo que tem sido a postura de comunicação desta administração americana, que apresenta sempre uma linguagem muito pobre, do ponto de vista do conteúdo, mas que é sempre compensada com grandes slogans e com atitudes, comportamentos, imagens, palavras, que têm um grande valor de entretenimento".

A estratégia parece clara, principalmente na atualmente administração, liderada por Donald Trump, "um homem dos média e do entretenimento". "Eu creio que ele está muito convencido que, enquanto as pessoas estão entretidas, não estão a pensar nas coisas realmente importantes", reforça.

"Muitas vezes, aliás, nem há tempo de pensar porquê. Quando as pessoas estão a tentar focar num tema, ele lança mais uma coisa escandalosa. E a atenção das pessoas é logo desviada para um outro tema. Portanto, também devemos reparar que a profusão de temas e de declarações que provocam escândalos são tantas, que a capacidade que a opinião pública tem de se focar a analisar alguma coisa que esteja a correr mal, é muito pouca".

Propaganda na era digital: "O limite seria sempre o bom senso"

Mas esta forma de comunicar não é exclusiva da administração norte-americana. Israel também tem vindo a publicar vídeos de cariz humorístico, reforçando a mesma narrativa. Existem vários exemplos, mas num dos vídeos publicados pelas Forças de Defesa de Israel na sua página do X, é possível ouvir a música Macarena durante um vídeo sobre a aliança israelo-americana que iniciou o conflito.

E a propaganda de guerra nem sequer é exclusiva de um dos lados do conflito. Esta é uma munição que existe para os dois lados, com o próprio Irão a responder na mesma moeda.

O país divulgou um vídeo de inteligência artificial, com personagens estilo Lego que personficam Donald Trump e Benjamin Netanyahu, destacando eventos como o ataque a uma escola de raparigas no Irão e até o caso dos ficheiros Epstein.

O vídeo foi produzido pelo instituto estatal iraniano Revayat-e Fath, foi transmitido pela televisão nacional iraniana, controlada pelo governo, e depois replicado em diferentes canais digitais, que amplificam a narrativa criada.

"O ambiente digital amplifica três coisas. A velocidade de comunicação, a escala com que se comunica, porque chega muito rapidamente a muita gente, e a emoção, cada vez mais. Isto pode já entrar nesta questão da gamificação, que procura o argumento emocional e o argumento que apele ao âmbito das nações que estão, neste caso, a ser defendidas ou atacadas", explica José Pedro Mozos, consultor e diretor de Assuntos Públicos na agência ALL Comunicação.

"O objetivo não é propriamente provar que algo é verdade, mas sim fazer com que as pessoas acreditem naquela versão dos factos ou saibam no que acreditar no meio de tanta desinformação que circula", explica o especialista, indicando que as redes sociais e o meio digital ganham especial importância na comunicação direta com o público-alvo.

"Cada vez mais a comunicação entre políticos, decisores e líderes mundiais é feita diretamente com o cidadão, procurando até fugir um pouco à intermediação que tradicionalmente foi desempenhada pela comunicação social".

O meio digital traz acessibilidade e facilidade de propagação, mas traz também desafios ao nível da veracidade da informação, amplificados pela introdução da inteligência artificial.

"Com o digital ficou muito mais fácil, mas agora, então, com a inteligência artificial já nem é uma questão de ser fácil, é uma questão instantânea. Carregamos num botão e fabricam-se imagens. E, portanto, isso acresce ou aumenta o volume da desinformação, porque, como é instantâneo, é produzido em larga escala e é colocada circular por todo o lado nas redes e leva a que nós, inconscientemente, mesmo que inadvertidamente, estejamos a ser expostos a essa desinformação", indica Nelson Ribeiro.

"Portanto, do ponto de vista moral, não tenho dúvidas de que há aqui muitos problemas. E do ponto de vista ético. Agora, infelizmente, é esse o caminho que está a ser seguido", explica.

A batalha da informação é apenas mais uma vertente da guerra, onde se reclamam versões e impõe argumentos, como se de ataques se tratassem. A verdade dos factos pouco importa, sendo o número de apoiantes de cada teoria o mais importante.

"O que é progressivamente preocupante nos tempos que ocorrem é que já não estamos só a discutir diferentes perceções sobre o mesmo facto. Já estamos num plano em que muitas vezes estamos a discutir cada um a sua verdade, a minha verdade contra a do outro. E antes havia um entendimento sobre o que é que tinha acontecido e havia duas perceções, ou três ou quatro diferentes, mas não se questionavam os factos", explica José Pedro Mozos.

"Hoje em dia, isso tudo está a ser posto em causa. O desafio é ainda maior, quer para quem comunica, quer para quem recebe esta informação e é impactado por ela. O limite seria sempre o bom senso, mas, infelizmente, não é isso que tem regido não só a comunicação, mas também a ação política de muitos líderes mundiais nos últimos tempos", conclui.

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