Surgiram narrativas contraditórias após o bombardeamento de uma escola no Irão, no contexto dos ataques israelo-americanos no país. O Cubo analisa as imagens de satélite e as notícias que afirmam mostrar o que aconteceu.
O ataque de um míssil que atingiu a escola primária de Shajarah Tayyebeh, no sul do Irão, matando mais de 170 pessoas, provocou a indignação internacional no contexto da continuação da guerra no Irão.
A UNESCO considerou-o uma "grave violação do direito humanitário", tendo as autoridades e os meios de comunicação social classificado este ataque como o mais mortífero do conflito até à data.
Os Estados Unidos e o Irão apressaram-se a apontar o dedo um ao outro, estando em curso uma investigação sobre o que aconteceu exatamente e quem são os responsáveis.
A equipa de fact-checking da Euronews, O Cubo, analisou imagens de satélite e notícias para dissecar o desenrolar dos acontecimentos que antecederam e se seguiram à tragédia.
A cronologia
A escola foi atingida na manhã de 28 de fevereiro, com relatos dos meios de comunicação social estatais iranianos afirmando que mais de 100 crianças estavam entre os mortos.
O ataque ocorreu ao mesmo tempo que um ataque a uma base naval adjacente, gerida pelo Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, e as imagens de satélite mostram que as duas bases estão próximas uma da outra.
As declarações oficiais das forças norte-americanas revelam que estavam a atacar bases navais na zona, o que sugere que é provável que também tivessem como alvo esta base.
Durante um briefing a 3 de março, o Comando Central dos EUA afirmou que o seu ataque ao Irão - denominado Operação Fúria Épica - tinha como prioridade a destruição dos centros de comando e controlo da Guarda Revolucionária do Irão ao longo da costa de Hormozgan, no sul do país, para os impedir de fechar o Estreito de Ormuz.
Os vídeos mostram que os ataques utilizaram mísseis Tomahawk, e os EUA são o único país envolvido no conflito que os utiliza - não são mísseis genéricos, como afirmou o presidente norte-americano Donald Trump.
"Bem, eu não vi, e digo que o Tomahawk, que é uma das armas mais poderosas que existem, é vendido e utilizado por outros países", disse Trump durante uma conferência de imprensa a 9 de março. "E quer seja o Irão - [que] também tem alguns Tomahawks, gostariam de ter mais - mas quer seja o Irão ou outro país, o facto de um Tomahawk... um Tomahawk é muito genérico. É vendido a outros países".
Contrariamente às afirmações do presidente, os únicos países, para além dos EUA, que utilizam ou compraram mísseis Tomahawk são a Austrália, o Japão, os Países Baixos e o Reino Unido, nenhum dos quais participa na guerra contra o Irão.
O grupo de investigação Bellingcat, que também geolocalizou as imagens divulgadas pelo jornal semi-oficial iraniano Mehr News (fonte em inglês), afirmou que o vídeo parece contradizer a afirmação de Trump de que o Irão era o responsável.
A escola foi provavelmente atingida por um míssil Tomahawk no meio de uma rápida sucessão de bombas lançadas sobre o complexo.
Quem culpa quem?
No entanto, Trump tentou culpar Teerão pelo ataque. "Com base no que vi, foi feito pelo Irão", afirmou a 7 de março. "Pensamos que foi feito pelo Irão porque eles são muito imprecisos, como sabem, com as suas munições. Não têm qualquer precisão. Foi feito pelo Irão".
O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou entretanto que os EUA estão a fazer tudo o que está ao seu alcance para garantir que os civis não são atingidos e que irão investigar minuciosamente quaisquer relatos em contrário.
O Irão culpou os Estados Unidos e Israel, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros, Seyed Abbas Araghchi, afirmado que (fonte em inglês) estes "crimes contra o povo iraniano não ficarão sem resposta".
Entretanto, Israel, que tem sido o principal parceiro dos EUA na guerra contra o Irão, negou qualquer envolvimento no ataque à escola.
"Verificámos várias vezes e não encontrámos qualquer ligação entre as FDI [Forças de Defesa de Israel] e o que aconteceu naquela escola", disse o porta-voz militar israelita, tenente-coronel Nadav Shoshani.
A culpa é dos EUA, diz relatório preliminar
No entanto, o New York Times publicou um artigo no dia 11 de março (fonte em inglês) afirmando que uma investigação preliminar concluiu que os Estados Unidos foram efetivamente culpados pelo ataque à escola.
Pessoas familiarizadas com a investigação, incluindo funcionários norte-americanos e outras pessoas informadas sobre a mesma, terão afirmado que a escola foi atingida por engano devido a dados desatualizados da Agência de Inteligência da Defesa, que erradamente classificou a escola como um alvo militar.
A investigação ainda está em curso, tendo o New York Times referido que subsistem dúvidas sobre a razão pela qual foram utilizadas informações desatualizadas e quem não as verificou.
Os meios de comunicação locaisafirmam que a escola foi efetivamente utilizada como instalação militar no passado, antes de ser convertida.
O Cubo identificou imagens de satélite de 2013 que mostram que a escola fazia parte do mesmo complexo que a base, mas fotografias mais recentes revelam que, desde então, foi vedada.
Questionado sobre a investigação em curso, Trump disse que não sabe nada sobre o assunto, mas o presidente está a enfrentar uma pressão crescente em casa sobre a forma como lidou com o ataque ao Irão.
Os democratas condenaram o "horrível" ataque à escola primária de Shajarah Tayyebeh e pediram uma investigação rápida sobre o assunto, enquanto os líderes europeus pediram a máxima contenção e garantias de que os civis não serão feridos enquanto a guerra continua.