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«Não podem viver sem nós»: gigantes dos combustíveis fósseis recuam nas promessas verdes?

Nesta fotografia de arquivo de terça-feira, 20 de janeiro de 2015, vê-se uma pluma de vapor a sair da central a carvão Merrimack Station, em Bow, N.H.
Nesta foto de arquivo de terça-feira, 20 de janeiro de 2015, vê-se uma pluma de vapor a sair da central a carvão Merrimack, em Bow, New Hampshire. Direitos de autor  AP.
Direitos de autor AP.
De Liam Gilliver
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Nova análise alerta que algumas das maiores petrolíferas mundiais entraram numa fase de “gaslighting” para reforçar os lucros

As grandes petrolíferas foram acusadas de estarem a “abandonar discretamente” as suas promessas climáticas para justificarem a continuação do uso de combustíveis fósseis poluentes.

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Uma nova investigação da Clean Creatives, um projeto para profissionais de relações públicas e publicidade conscientes do clima, acompanhou a forma como as grandes petrolíferas têm vindo a alterar de forma “sistémica” a sua narrativa nos últimos quatro anos, apesar dos repetidos alertas sobre o aquecimento do planeta.

O relatório, intitulado Toxic Accounts: do greenwashing ao gaslighting (fonte em inglês), analisa mais de 1 800 conteúdos de campanha das gigantes dos combustíveis fósseis BP, Shell, ExxonMobil e Chevron entre 2020 e 2024.

Incluem-se anúncios pagos em redes sociais como Facebook, YouTube, TikTok e Instagram, bem como anúncios de televisão, arquivos de bibliotecas, comunicados de imprensa, informação para investidores e discursos de executivos.

Grandes petrolíferas fazem “gaslighting climático”?

O relatório concluiu que as campanhas no início do período analisado davam destaque a metas climáticas e a promessas de transição para as energias limpas, apresentando frequentemente as empresas como parceiras na transição.

No entanto, em 2023, a mensagem passou a enquadrar cada vez mais o petróleo e o gás como “permanentes, indispensáveis e essenciais para a estabilidade económica e a segurança nacional”.

Em 2020, a BP passou da promessa de neutralidade carbónica e da retórica de “tornar as empresas mais verdes” para campanhas que, segundo a Clean Creatives, defendem a continuação da expansão do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que reduzem as ambições em matéria de energias renováveis.

A Chevron também abandonou o posicionamento “Human Energy” e passou a adotar uma “mensagem nacionalista” que liga a produção interna de combustíveis fósseis à segurança económica e nacional, conclui o relatório.

Os investigadores alertam que, apesar das diferenças de tom, todas as grandes petrolíferas analisadas seguiram mudanças narrativas semelhantes, passando de mensagens em que se apresentavam como “parte da solução” para um discurso de “não podem viver sem nós”.

O relatório concluiu ainda que as campanhas passaram a promover cada vez mais o gás natural liquefeito (GNL), a captura e armazenamento de carbono (CAC), o hidrogénio azul, os biocombustíveis e o gasóleo renovável como soluções climáticas, apesar de haver provas de que estas tecnologias continuam a ser derivadas de combustíveis fósseis ou não estão comprovadas em grande escala.

“A rapidez com que as empresas passaram a uma mensagem centrada na segurança energética esteve em linha com o seu desempenho financeiro”, lê-se no relatório.

“A Chevron e a ExxonMobil foram rápidas a orientar a sua mensagem para a dominância dos combustíveis fósseis e, como resultado, lideraram o mercado.”

O relatório concluiu também que a Shell, que no ano passado foi acusada de minimizar o impacto climático dos combustíveis fósseis, deixou de se apresentar como líder da neutralidade carbónica para passar a destacar o GNL como mercado de crescimento a mais longo prazo.

Manter combustíveis fósseis “lucrativos” numa época de mudança de atitudes

“O greenwashing assumiu uma nova forma”, afirma Nayantara Dutta, responsável pela investigação na Clean Creatives e autora principal do relatório.

“Em vez de fazerem alegações falsas, as grandes petrolíferas promovem falsas soluções como a CAC e o gás natural, apesar de serem derivadas de combustíveis fósseis e criarem uma dependência de longo prazo destes combustíveis.”

Dutta defende que as petrolíferas estão a construir uma narrativa que as mantém “lucrativas e no poder” perante uma oposição crescente.

A transição para longe dos combustíveis fósseis tornou-se um dos temas mais sensíveis da cimeira COP30 das Nações Unidas, em Belém, no ano passado, apesar de não constar oficialmente da agenda.

Mais de 90 países, entre os quais a Alemanha e os Países Baixos, apoiaram a ideia de um roteiro que permita a cada país definir as suas próprias metas para avançar para a energia verde.

Apesar do crescente apoio a esta ideia, todas as referências aos combustíveis fósseis foram retiradas do acordo final nas últimas horas da cimeira. Isto significa que a esperança de um futuro sem combustíveis fósseis passa agora por fora do âmbito da ONU.

Um relatório da Carbon Majors concluiu recentemente que 17 dos 20 maiores emissores em 2024 eram empresas controladas por países que vieram a bloquear o roteiro da COP30. Entre eles estão a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar, a Índia, a Rússia e a China.

Irão: grandes petrolíferas e a guerra

“A passagem do greenwashing para a defesa da dominância da energia fóssil é a mais recente pirueta retórica na manipulação da opinião pública para aceitar as emissões de gases com efeito de estufa como parte normal da atividade económica”, afirma Robert Brulle, sociólogo ambiental na Universidade Brown.

“Ao mesmo tempo, a guerra no Médio Oriente mostra o absurdo da ideia de que os combustíveis fósseis proporcionam ‘segurança energética’.”

Vários especialistas têm usado a guerra contra o Irão para sublinhar a necessidade urgente de uma transição para energia limpa, numa altura em que os preços do petróleo e do gás continuam a disparar.

A organização sem fins lucrativos [350.org](http://350.org %28fonte em inglês%29/) apelou recentemente aos países do G7 para que implementem um imposto sobre lucros inesperados às gigantes dos combustíveis fósseis, que acusa de estarem a “lucrar” com o conflito crescente no Médio Oriente.

Embora a guerra no Irão também tenha reforçado os apelos para que o Reino Unido abra licenças de exploração no Mar do Norte, uma análise da Universidade de Oxford concluiu que apostar nas energias renováveis é muito mais provável que reduza as faturas de energia das famílias.

“O que estamos a ver é a desinformação climática a evoluir em tempo real”, afirma Dana Schran, da coligação Climate Action Against Disinformation (CAAD).

“Em vez de negarem a crise, empresas como a BP e a Shell estão a reconfigurar a história para que a expansão dos combustíveis fósseis pareça necessária e responsável. É um esforço sofisticado para proteger a influência política e os lucros, mesmo quando os impactos das alterações climáticas se tornam mais intensos.”

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