As autoridades russas impuseram às instituições de ensino superior do país a tarefa de recrutar estudantes a contrato, segundo o jornal Faridaily. O ministro da Ciência e do Ensino Superior da Rússia terá comunicado esta medida aos reitores das maiores universidades numa reunião no início de 2026.
Pelo menos 2% dos estudantes russos terão de celebrar contratos com o Ministério da Defesa da Federação Russa, escreve a publicação Faridaily, citando o reitor de uma das universidades de Moscovo, que esteve presente na reunião onde essa meta foi anunciada.
Segundo uma fonte da publicação, o ministro da Ciência e do Ensino Superior da Federação Russa, Valery Falkov, comunicou aos dirigentes das universidades, numa reunião à porta fechada no início deste ano, a necessidade de garantir o cumprimento da meta de 2% do número total de estudantes para esse fim.
Os meios de comunicação independentes russos referem que as primeiras notícias sobre a campanha de recrutamento nas universidades e institutos técnicos da Federação Russa surgiram já em 2025.
"O Ministério da Defesa da Federação Russa começou a 'informar' diretamente os estudantes das principais universidades russas sobre a possibilidade de assinarem um contrato militar e servirem como operadores de drones. Em troca, prometem pagamentos de cinco milhões, formação 'longe das ações de combate' e o regresso à universidade ao fim de um ano", noticiou a publicação T-Invariant.
Os estudantes são convidados, em primeiro lugar, a integrar as unidades de sistemas não tripulados criadas no outono passado.
O Ministério da Defesa da Federação Russa pretende recrutar 78,8 mil pessoas para as novas unidades, principalmente estudantes, ex-militares de unidades da Força Aérea e mulheres, segundo noticiou o site "Vazhnye Istorii" no início de março.
De acordo com dados oficiais do ano passado, 2,2 milhões de homens frequentavam as universidades russas. Se a exigência do Ministério da Educação e da Ciência for cumprida, o exército da Rússia será reforçado com cerca de 44 mil jovens. Se a meta de 2% for imposta não só às universidades, mas também aos institutos técnicos, então um total de cerca de 76 mil pessoas terão de assinar um contrato.
Promete-se aos jovens que, ao regressarem do serviço militar, poderão retomar os estudos e são-lhes recordados os elevados subsídios e benefícios estatais a que têm direito os participantes na guerra com a Ucrânia. As grandes universidades, em particular a Universidade Estatal de Moscovo (MGU) e a Universidade Estatal de São Petersburgo (SPbGU), prometem aos estudantes pagamentos adicionais.
A publicidade ao serviço militar por contrato nas instituições de ensino da Federação Russa não se limita agora a cartazes, ecrãs e redes sociais; os estudantes são convidados para "conversas sobre assuntos importantes" e "aulas de coragem". A publicação "Verstka" contabilizou pelo menos 200 encontros de mobilização que tiveram lugar em universidades e institutos de ensino superior em toda a Rússia.
Os defensores dos direitos humanos alertam que, se os jovens que assinaram o contrato não corresponderem aos requisitos de qualificação de operador de UAV [Veículo Aéreo Não Tripulado, na sigla em inglês] e não obtiverem autorização para trabalhar de forma autónoma, poderão ser transferidos para outro ramo das forças armadas por ordem específica do comandante.
Quotas para as empresas
Na região de Ryazan, na Rússia, as autoridades obrigaram os empregadores a encarregar-se da procura de contratados para o Ministério da Defesa.
A Conflict Intelligence Team publicou no seu canal no Telegram o decreto do governador da região, Pavel Malkov, no qual se afirma que, de 20 de março a 20 de setembro, são "estabelecidas metas" para as entidades económicas localizadas no território da região: as empresas com um quadro de pessoal entre 150 e 300 funcionários devem selecionar dois candidatos para o serviço militar por contrato; as com um quadro entre 300 e 500 funcionários, três; e as com mais de 500 funcionários, cinco.
O governador remete para os decretos do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, n.º 756 e n.º 757, de 19 de outubro de 2022, que conferem aos chefes das entidades regionais poderes "para a implementação de medidas destinadas a satisfazer as necessidades" das Forças Armadas da Federação Russa.
Malkov "reservou para si" o controlo da execução do decreto, sem especificar que tipo de responsabilidade poderá recair sobre as empresas que não cumpram a "missão de seleção de candidatos para o serviço militar".