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União Europeia prestes a aprovar centros de retorno na mais dura repressão migratória

As autoridades italianas transferem migrantes irregulares para um centro de detenção gerido por Itália em Shengjin, Albânia, considerado modelo para centros de retorno
As autoridades italianas transferem migrantes em situação irregular para um centro de detenção gerido por Itália em Shengjin, Albânia, modelo para centros de retorno Direitos de autor  Copyright 2025 The Associated Press. All rights reserved
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De Vincenzo Genovese
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A UE prepara-se para aprovar a controversa lei da migração, que permite centros de retorno fora do bloco, prolonga detenções e acelera deportações, refletindo o receio crescente dos eleitores face à migração

A União Europeia prepara-se para alargar de forma significativa os seus poderes de expulsão, com uma lei considerada emblemática que permite enviar migrantes para centros de retorno fora da Europa e facilita a remoção de pessoas sem direito a permanecer nos países.

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Espera-se para hoje um acordo entre os governos da UE e o Parlamento Europeu sobre o Regulamento dos Retornos, que marca a viragem mais restritiva da política migratória europeia em décadas. Sob pressão política sobre a migração e com a ascensão de partidos anti-imigração, Bruxelas passa a defender medidas que há poucos anos seriam impensáveis.

A nova lei pretende aumentar a taxa de retorno já que, atualmente, cerca de 28% dos migrantes com ordem de saída são efetivamente enviados para fora da Europa. Governos e instituições da UE procuram reforçar o controlo sobre quem pode ficar e quem tem de partir, refletindo sondagens que mostram eleitores europeus cada vez mais preocupados com fluxos migratórios descontrolados.

“Vamos garantir que quem não tem direito a permanecer na UE é de facto devolvido”, prometeu o comissário europeu dos Assuntos Internos, Magnus Brunner, ao apresentar a lei.

O tema deverá marcar as próximas eleições nos países da UE e alimentar o crescimento de forças de extrema-direita como o National Rally, em França, e o Vox, em Espanha, apesar dos dados que mostram uma queda acentuada das chegadas irregulares em 2026 e 2025.

Em conjunto com regras mais rígidas para o asilo e expulsões mais facilitadas, a legislação evidencia a forma como a política migratória da UE tem mudado no segundo mandato de Ursula von der Leyen. O foco passou de gerir a migração dentro do bloco para acelerar a remoção de pessoas sem direito a permanecer na Europa.

Centros de retorno inauguram a “era das deportações”

No centro da lei está uma disposição que permite aos países da UE criarem centros de expulsão fora do bloco, a par de períodos de detenção mais longos, proibições de entrada mais duras e novos poderes para localizar migrantes em situação irregular.

“A era das deportações começou”, afirmou o eurodeputado conservador de direita sueco Charlie Weimers, um dos negociadores da lei, quando o Parlamento a aprovou pela primeira vez.

Os países da UE poderão devolver migrantes irregulares a países terceiros sem relação com o seu país de origem, desde que existam acordos bilaterais com um Estado não pertencente à UE para construir no seu território os chamados “centros de retorno”. Estes centros podem funcionar como locais de trânsito ou como espaços onde uma pessoa é destinada a permanecer.

A medida representa uma rutura significativa com as regras atuais. Hoje, os migrantes só podem, em regra, ser devolvidos ao país de origem ou a um país com o qual tenham uma ligação comprovada. Com o novo sistema, esta exigência será eliminada. Famílias com crianças poderão ser transferidas para centros de retorno, embora os menores não acompanhados estejam excluídos.

Organizações de direitos humanos criticam duramente a proposta, alertando que ela pode deixar migrantes retidos em países onde não têm qualquer ligação e dispõem de poucas garantias legais.

Mais de 250 organizações da sociedade civil apelaram à rejeição do regulamento. “A UE está a legitimar prisões extraterritoriais, perfis raciais e a detenção de crianças como nunca tínhamos visto”, afirmou Sarah Chander, diretora da Equinox Initiative for Racial Justice.

Os críticos alegam também que estes centros terão pouco impacto nos fluxos migratórios e no ritmo dos retornos. O governo italiano já está a aplicar um projeto semelhante na Albânia, com dois centros a acolher menos de uma centena de migrantes no total, apesar de o plano inicial prever a receção de 36 000 pessoas por ano.

Apesar da polémica, vários governos avançam com a ideia. Itália já opera um esquema semelhante na Albânia, enquanto Alemanha, Países Baixos, Áustria, Dinamarca e Grécia se juntaram para identificar potenciais países parceiros para futuros centros de retorno.

Conteúdo do novo regulamento

As autoridades nacionais dos Estados-membros da UE poderão também revistar o “local de residência ou outras instalações relevantes” de migrantes em situação irregular, uma disposição que ONG e organizações da sociedade civil comparam às notórias rusgas conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controlo Aduaneiro dos Estados Unidos.

Outra mudança de relevo diz respeito aos recursos. Pelas regras atuais, as expulsões são automaticamente suspensas enquanto decorrem impugnações judiciais. A nova lei elimina essa proteção automática, deixando aos tribunais a decisão, caso a caso, sobre a suspensão de uma ordem de retorno.

A nova lei aumentará igualmente o período máximo de detenção legal de migrantes irregulares a aguardar retorno, dos atuais seis meses para dois anos, sem limite de duração para pessoas consideradas uma ameaça para a segurança.

As proibições de entrada tornar-se-ão também substancialmente mais duras, passando de cinco para dez anos na maioria dos casos, com a possibilidade de proibições vitalícias para quem for considerado um risco para a segurança.

Negociadores dos países da UE e do Parlamento Europeu devem iniciar as discussões às 18 horas, em Bruxelas. Estão totalmente alinhados quanto ao conteúdo da lei e divergiam apenas sobre o calendário de aplicação durante as últimas conversações em Estrasburgo.

Depois de alcançado um acordo, o texto final terá de ser formalmente aprovado pelos eurodeputados e pelos países da UE.

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