Durante décadas, a Europa tem sido um parceiro fundamental de África, prestando apoio ao desenvolvimento e moldando os quadros de governação, mas os críticos dizem que o modelo está desfasado de uma realidade global em mudança.
A Europa está a mudar dos modelos tradicionais de ajuda para parcerias com África orientadas para os seus interesses, à medida que a concorrência da China, da Rússia e dos Estados Unidos se intensifica e a guerra do Irão perturba o abastecimento energético do Médio Oriente.
Para os líderes africanos, esta situação cria oportunidades tanto a nível interno como externo, segundo o antigo presidente do Malawi, Lazarus Chakwera.
"À medida que se cresce, o que era adequado para o objetivo de ontem pode não ser adequado para o objetivo de hoje. Por isso, é necessário que haja um diálogo constante para ver qual a melhor forma de proceder para que a situação se torne vantajosa para todos", afirmou Chakwera.
Segundo ele, existem vários níveis deste tipo de parceria. Por exemplo, a Europa negoceia entre si muito mais do que os países africanos fazem em todo o continente.
"Dizemos que a integração económica no continente deve ser promovida tanto quanto temos acordos bilaterais com nações fora desse continente", afirmou Chakwera.
"E, por isso, se estamos a falar de comércio livre no continente, temos de encontrar formas de facilitar a implementação, a implementação mais rápida de tais coisas", explicou.
UE volta-se para África para o fornecimento de gás
Hoje, perante a concorrência crescente dos EUA, da China e da Rússia, os responsáveis políticos afirmam que era uma questão de tempo até a Europa mudar a sua abordagem para não se tornar irrelevante em África.
"Penso que temos de rever a nossa política com os países africanos e abandonar esta política de ajuda ao desenvolvimento, que está ultrapassada e que não tira as consequências das realidades concretas", afirma Younous Omarjee, eurodeputado (França/Esquerda) e vice-presidente do Parlamento Europeu.
No fórum "Africa Political Outlook", em Bruxelas, Omarjee afirmou que a Europa deve, por seu lado, assumir que tem interesses em África. "Porque o desenvolvimento e a prosperidade no continente africano determinam o desenvolvimento e a prosperidade na Europa".
"Portanto, temos interesses em África e os países africanos têm interesses e têm interesse na sua parceria com a Europa", acrescentou.
Uma dessas áreas de interesse é a paisagem energética da Europa, que sofreu uma grande mudança desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia em 2022.
E como a guerra do Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz por Teerão perturbam as rotas alternativas de petróleo e gás, a importância de África no mercado mundial da energia aumentou devido à sua proximidade geográfica e às rotas marítimas relativamente seguras.
Para substituir os fornecimentos perdidos, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anunciou na quarta-feira uma cooperação energética mais estreita com a Argélia para aumentar o fornecimento de gás ao seu país. Segundo Meloni, mais de 30% das necessidades de gás natural de Itália são atualmente satisfeitas pela Argélia.
A Nigéria continua a ser um dos principais fornecedores do Sul da Europa, sendo que mais de metade das importações de GNL de Portugal provêm da Nigéria.
Os analistas acreditam que este aprofundamento dos laços energéticos entre a Europa e África poderá alterar rapidamente os fluxos de investimento e a sorte económica em África. Mas os principais desafios a este comércio continuam a ser as infraestruturas e a segurança.
UE celebra acordos na África Ocidental
Em março, a chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, visitou os Estados da África Ocidental, Nigéria e Gana, assinalando um marco importante na parceria estratégica entre as duas regiões.
Na Nigéria, Kallas assinou um acordo de readmissão sobre migração e anunciou um pacote de apoio de 288 milhões de euros que abrange os setores da saúde, agricultura, finanças, migração, clima e infraestruturas públicas digitais.
No Gana, Kallas assinou a primeira Parceria de Segurança e Defesa UE-Gana em matéria de luta contra o terrorismo e de segurança marítima no Golfo da Guiné.
"Esta parceria permite-nos trabalhar mais estreitamente em domínios importantes para a segurança dos nossos cidadãos, tanto na Europa como no Gana", afirmou Kallas, descrevendo o acordo como o primeiro do género entre a UE e um país africano.
As visitas e o acordo de segurança surgem numa altura em que o domínio europeu na região está enfraquecido, na sequência de uma série de golpes de Estado que, segundo alguns analistas, foram motivados pela propaganda russa, pelo anticolonialismo e pela incapacidade de travar a violência jihadista.
Os golpes de Estado ocorridos entre 2020 e o início de 2026 no Mali, Burkina Faso, Guiné, Gabão, Níger, Guiné-Bissau e Madagáscar expulsaram as forças militares lideradas pela França do Sahel, diminuindo a influência da França, um país há muito considerado a principal potência europeia em África.
Durante décadas, a Europa tem sido um parceiro fundamental de África, prestando ajuda ao desenvolvimento e moldando os quadros de governação.
Mas, de acordo com um novo relatório do African Political Outlook sobre o "Estado da Governação Africana: Forças do Futuro", a era da ajuda externa tradicional chegou ao fim.
UE continua a ser o principal parceiro comercial de África
Mouctar Bah, presidente do Centro Bruxelas-África, afirma que a economia global está a deslocar-se para África, mas os decisores políticos europeus têm sido lentos a adaptar-se.
"As pessoas ainda estão a viver no passado. Não estão a ver o futuro", afirmou.
O intercâmbio comercial UE-África em 2024 foi de 355 mil milhões de euros, com a UE a permanecer o principal parceiro comercial de África, seguida de perto pela China, de acordo com dados da UE.
A UE assinou seis acordos de parceria económica com 15 países da África subsaariana e quatro acordos de associação com países do Norte de África.
Isabelle Herbert-Collet, especialista em mercados e percepções do cliente, afirma que uma nova abordagem deve ter em conta o que designa por "ancoragem local".
"Não se trata apenas de investimento, mas também de imaginar os produtos e serviços corretos e simplesmente facilitar o intercâmbio intercultural", afirmou.