A indignação de Trump contra os aliados da NATO, por não se terem juntado à guerra contra o Irão, provocou receios de que este tentasse retirar os Estados Unidos da aliança com quase oito décadas.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a repreender a NATO, esta quinta-feira, depois de parecer renovar as ameaças de tomar a Gronelândia. As novas ameaças foram feitas numa reunião à porta fechada com o secretário-geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte, durante a qual se esperava que se discutisse a possibilidade de abandonar o bloco.
"Nenhuma destas pessoas, incluindo a própria NATO, muito dececionante, entendeu nada, a não ser sob pressão", esscreveu Trump numa publicação na rede social Truth Social, sem dar mais explicações.
A indignação de Trump contra os aliados da NATO, por não se terem juntado aos Estados Unidos na guerra contra o Irão, provocou receios de que o líder norte-americano tentasse retirar o seu país da aliança.
Nas primeiras declarações após a reunião com Rutte, na quarta-feira, Trump limitou-se a reiterar a sua frustração. "A NATO não estava presente quando precisámos dela e não estará presente se voltarmos a precisar dela", afirmou o presidente dos EUA na Truth Social. "Lembrem-se da Gronelândia, aquele pedaço de gelo grande e mal gerido", acrescentou.
A ameaça de Trump de confiscar a vasta ilha no Atlântico Norte à Dinamarca, aliada da NATO, foi uma questão-chave que agitou a aliança no início deste ano.
Rutte, ex-primeiro-ministro dos Países Baixos conhecido pela proximidade com Trump, entrou na ala oeste da Casa Branca por um portão lateral. A reunião foi realizada à porta fechada. "Foi uma discussão muito franca, muito aberta", disse Rutte mais tarde à CNN.
Questionado várias vezes sobre se Trump tinha dito que iria abandonar a aliança, Rutte não respondeu diretamente.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse aos jornalistas antes da reunião que uma possível saída dos EUA da NATO é "algo que o presidente discutiu, e penso que é algo que o presidente irá discutir dentro de algumas horas com o secretário-geral Rutte".
O Wall Street Journal noticiou que Trump estava a considerar a possibilidade de punir alguns membros da NATO, que considera terem sido "inúteis" durante a guerra, retirando as tropas dos EUA dos seus países.
A reunião teve lugar um dia depois de Washington e Teerão terem acordado um frágil cessar-fogo de duas semanas.
O presidente dos EUA já tinha classificado a NATO como um "tigre de papel", depois de alguns dos seus membros se terem recusado a liderar os esforços para abrir o estratégico Estreito de Ormuz e terem limitado as forças norte-americanas a utilizar bases nos seus territórios.
Trump atacou pessoalmente vários líderes, criticando o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, por "não ser um Winston Churchill" e ridicularizando os navios de guerra britânicos, descrevendo-os como "brinquedos".
O plano divulgado pelo Wall Street Journal fica aquém das ameaças frequentemente proferidas por Trump de retirar totalmente os EUA da NATO, uma medida que exigiria a aprovação do Congresso.
Crise após crise
O secretário-geral da NATO, no entanto, orgulha-se de ter conseguido atrair Trump para o seu lado. Antes da visita à Casa Branca, Rutte reuniu-se com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para discutir sobre o Irão, a guerra da Rússia na Ucrânia e as responsabilidades da NATO.
"Os dois líderes discutiram a Operação Epic Fury, os esforços em curso liderados pelos EUA para pôr um fim negociado à guerra Rússia-Ucrânia, e aumentar a coordenação e a transferência de encargos com os aliados da NATO", disse o porta-voz adjunto principal do Departamento de Estado, Tommy Pigott.
Rutte deverá também encontrar-se com o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, durante a sua estadia em Washington.
A NATO tem sido fustigada por crises atrás de crises desde que Trump regressou ao poder no ano passado, sobretudo pela sua ameaça de se apoderar da Gronelândia.
Nos últimos meses, o líder dos EUA também puxou o tapete à Ucrânia, que continua a defender-se da invasão russa, e ameaçou não proteger os aliados a menos que estes gastem mais em defesa.
Rutte tem sido fundamental nos esforços dos aliados para lisonjear e apaziguar Trump, a quem chamou "papá" numa cimeira no ano passado.
No que diz respeito ao Irão, tem procurado pôr a mão na massa, chamando aos esforços dos EUA para diminuir a capacidade militar de Teerão algo que deve ser "aplaudido".
Envolvimentos estrangeiros
Joe Kent, ex-diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos da América, afirmou numa publicação nas redes sociais que a eventual saída dos Estados Unidos da NATO não se destina a "evitar envolvimentos externos", mas sim a apoiar Israel em qualquer combate contra a Turquia.
"Vamos sair da NATO para podermos ficar do lado de Israel quando a Turquia e Israel entrarem em conflito na Síria", escreveu Kent numa publicação no X.
A Turquia é membro de longa data da NATO, ao contrário de Israel. Se Ancara invocasse a cláusula de defesa mútua do artigo 5 da aliança, Washington seria legalmente obrigado a apoiar a Turquia.
"Está na altura de deixar de brincar aos incendiários e aos bombeiros no Médio Oriente, não vale a pena", disse Kent.
A Turquia e Israel têm estado envolvidos num conflito estratégico sobre o que deverá ser a Síria após o afastamento do antigo ditador Bashar al-Assad, em dezembro de 2024.
A Turquia quer um Estado sírio estável sob a sua esfera de influência para combater qualquer movimento de autonomia curda, enquanto Israel prefere uma Síria fragmentada para evitar um potencial poder hostil na sua fronteira.
Kent, republicano, demitiu-se do cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo em março, invocando as suas preocupações quanto à justificação dos ataques militares no Irão e afirmando que "não pode, em boa consciência", apoiar a guerra.
"Sempre o achei um tipo simpático, mas sempre o achei fraco em matéria de segurança", disse Trump aos jornalistas após a demissão de Kent. "É bom que ele tenha saído porque disse que o Irão não era uma ameaça".