A sessão de dois dias com ministros e altos funcionários constitui o ponto alto político da Primeira Conferência sobre a Transição para Abandonar os Combustíveis Fósseis, onde mais de 50 países têm vindo a debater como abandonar o petróleo, o gás e o carvão.
Líderes mundiais reuniram-se em Santa Marta, na Colômbia, para as primeiras conversações globais com vista a acelerar o abandono dos combustíveis fósseis, um passo que as nações participantes afirmam ser não só uma prioridade climática mas também vital para a independência energética.
A cimeira de dois dias de ministros e altos funcionários constitui o ponto central político da Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, onde mais de 50 países têm vindo a discutir a forma de abandonar o petróleo, o gás e o carvão - os principais responsáveis pelo aquecimento global - em favor de energias mais limpas.
A conferência foi anunciada no ano passado, após o fim da cimeira oficial das Nações Unidas sobre o clima COP30 no Brasil, que não incluiu uma referência explícita aos combustíveis fósseis no seu acordo final.
A reunião reflete a frustração crescente de alguns governos e defensores de que décadas de negociações da ONU sobre o clima não conseguiram abordar diretamente a produção de combustíveis fósseis, o que levou a cimeira de Santa Marta a colocar a questão fora das conversações formais.
As negociações recentes reconheceram a necessidade de uma transição, mas os países continuam divididos quanto à forma de a implementar e de financiar a mudança.
“A conclusão é inevitável: temos de abandonar os combustíveis fósseis — não só porque é bom para o clima, mas porque reforça a nossa independência e segurança energéticas”, afirmou Stientje van Veldhoven, ministra da Política Climática e do Crescimento Verde dos Países Baixos, país que coorganiza a conferência com a Colômbia.
“Nós, na Europa... estamos a perder 500 milhões de euros por cada dia que esta guerra continua”, disse o enviado climático da UE, Wopke Hoekstra, aos delegados.
“Já tínhamos uma razão muito boa para avançar (para além dos combustíveis fósseis) em prol da ação climática... Agora temos também essa razão por motivos comerciais e de independência.”
Independência energética na sequência da guerra do Irão
Os organizadores afirmam que a guerra no Médio Oriente, que estrangulou as exportações de energia do Golfo, sublinhou a urgência de quebrar a dependência dos combustíveis fósseis.
"Algumas pessoas usam independência, outras usam soberania, mas basicamente precisam de segurança energética", disse à AFP a enviada do Reino Unido para o clima, Rachel Kyte, em Santa Marta.
"Cada vez mais, o mundo está a concluir que os combustíveis fósseis são uma fonte de instabilidade".
Mesmo com investimentos recorde em energias renováveis, os cientistas alertam para o facto de o ritmo ser ainda demasiado lento para manter o aumento da temperatura global em níveis seguros.
O mundo já aqueceu cerca de 1,4ºC em relação à era pré-industrial e está a prever-se que ultrapasse os 1,5ºC numa questão de anos.
O presidente colombiano Gustavo Petro advertiu que "a floresta amazónica está a arder", acrescentando que "sem ela chegamos a um ponto sem retorno".
Petro afirmou que as negociações da ONU sobre o clima ficaram aquém do esperado, argumentando que "a unidade dos Estados falhou" e apelando a uma ação mais ampla para além dos governos.
O presidente colombiano também associou os conflitos atuais à dependência energética, afirmando que "as guerras a que assistimos são motivadas por estratégias geopolíticas desesperadas em torno dos recursos fósseis".
Reduzir a dependência dos combustíveis fósseis é um desafio
Na lista de participantes encontram-se os principais produtores de combustíveis fósseis, como o Canadá, a Noruega e a Austrália, e gigantes petrolíferos em desenvolvimento, como a Nigéria, Angola e o Brasil.
Juntam-se a eles mercados emergentes dependentes do carvão, como a Turquia e o Vietname, e pequenas nações insulares extremamente vulneráveis aos choques climáticos, entre outros.
No entanto, os maiores emissores mundiais de gases com efeito de estufa, incluindo os Estados Unidos, a China e a Índia, não estarão presentes, tal como os Estados do Golfo, ricos em petróleo.
Não se espera que a conferência resulte em compromissos vinculativos, mas sim num conjunto de propostas para os países que pretendem substituir gradualmente a produção e o consumo de combustíveis fósseis por formas de energia mais limpas.
Este é um desafio particular para os países em desenvolvimento fortemente dependentes das receitas do petróleo e do gás, como a anfitriã Colômbia.
Na terça-feira, França revelou um "roteiro" dos combustíveis fósseis que estabelece prazos para a eliminação progressiva do carvão até 2030, do petróleo até 2045 e do gás até 2050 para fins energéticos.
Os países irão discutir a forma de concretizar estes planos, bem como a reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis que criam barreiras ao investimento em energias renováveis, entre outras questões.
Segundo os organizadores, a conferência tem por objetivo criar uma dinâmica política e reunir os países dispostos a acelerar a transição fora do processo formal da ONU.
É também vista como um trampolim para as próximas negociações sobre o clima global, onde se espera que o financiamento e os prazos para a redução do uso de combustíveis fósseis continuem a ser pontos-chave de debate.