Mais de 20 anos após o assassinato do pequeno Jonathan Coulom em Loire-Atlantique, o julgamento do seu presumível homicida, o assassino em série alemão Martin Ney, começa esta terça-feira em França.
Martin Ney, assassino em série alemão enfrenta o banco dos réus do Tribunal de Nantes, 22 anos após trágico desaparecimento e consequente morte de Jonathan Coulom, de 10 anos.
O alemão de 55 anos, que já foi condenado a prisão perpétua na Alemanha, é julgado a partir de hoje em França pelo rapto, sequestro e assassínio do rapaz, crimes que aconteceram na primavera de 2004 em Guérande, Loire-Atlantique.
Para a família da vítima e para os investigadores da unidade de Rennes, que nunca desistiram, este julgamento pode representar o fim de um "percurso jurídico muito longo", declarou à Agência France Presse o advogado da avó da criança, parte civil no processo.
"O que podemos esperar, sem acreditar muito, é que Martin Ney assuma finalmente a sua responsabilidade e explique os seus actos", acrescentou.
Uma noite escura em abril de 2004
O caso teve início na noite de 7 para 8 de abril de 2004, em Saint-Brevin-les-Pins, no departamento de Loire-Atlantique. Jonathan, aluno do 4.º ano do ensino básico, desapareceu durante um estágio no litoral, enquanto dormia num centro de férias. O seu desaparecimento desencadeou uma vasta operação de busca, que envolveu centenas de militares e gendarmes.
O corpo do rapaz só foi encontrado a 19 de maio, seis semanas depois do seu desaparecimento, na lagoa uma propriedade privada em Guérande, a cerca de trinta quilómetros do local onde tinha desaparecido. Amarrado com nós de marinheiro e pesado com um bloco de cimento, a criança morreu por asfixia e não por afogamento, segundo a autópsia.
Foram recolhidas amostras de ADN de dezenas de pessoas e foram efetuados inquéritos exaustivos nos bairros da região.
No entanto, apesar de anos de investigação e de milhares de testemunhos, os inquéritos permaneceram infrutíferos durante muito tempo, até que a cooperação franco-alemã permitiu o aparecimento de um novo suspeito.
Para compreender como é que o sistema judicial descobriu o caso de Martin Ney, é preciso mergulhar nos arquivos criminais alemães. Do outro lado do Reno, os meios de comunicação social depressa o apelidaram de "Schwarzmann" ("o homem de negro") ou "Maskenmann" ("o homem mascarado").
Nascido em 1970, este antigo professor e assistente social do Norte da Alemanha causou estragos entre 1992 e 2004, atuando com uma disciplina e frieza que durante muito tempo desconcertaram as autoridades alemãs.
O seu modus operandi, meticulosamente documentado pela justiça do seu país, era implacável. Martin Ney visava colónias de férias, internatos ou centros de lazer isolados no meio do nada. Passava dias a explorar os locais, entrando nos dormitórios das crianças à noite, vestido com roupas escuras, usando uma balaclava e armado com uma faca. Raptava ou abusava sexualmente de rapazes, aproveitando a escuridão e o sono das outras crianças, antes de fugir para a floresta sem deixar o mínimo rasto.
Após quase 20 anos de perseguição, a máscara caiu finalmente em 2011, graças a novas análises das pistas e a testemunhos importantes.
Em 2012, Martin Ney foi condenado pelo tribunal de Verden a prisão perpétua pelos assassínios na Alemanha de três crianças (Stefan, Dennis e Mitchell, com idades compreendidas entre os 9 e os 13 anos) e por cerca de quarenta agressões sexuais a menores.
Confissão a um companheiro de cela
Apesar de Martin Ney ter negado durante muito tempo qualquer envolvimento fora da Alemanha, tudo mudou em 2018. Um colega de prisão na Alemanha contactou as autoridades: o assassino em série tinha-lhe feito confidências. No decurso destas conversas, o assassino deu pormenores precisos e até então confidenciais sobre o assassinato de um rapaz em França, mencionando a data, a região de Loire-Atlantique e o modus operandi, em particular o peso do corpo de Jonathan.
Estas revelações aceleraram a investigação francesa. Em 2021, após uma longa batalha administrativa e judicial, Martin Ney foi temporariamente extraditado para França para ser interrogado e acabou por ser acusado.
Na terça-feira, 19 de maio, aniversário da descoberta do corpo da criança, há 22 anos, o júri, a família de Jonathan e os peritos vão dissecar o funcionamento arrepiante de um assassino em série.
O julgamento deverá durar 13 dias e Martin Ney arrisca-se, uma vez mais, a ser condenado a prisão perpétua.