Em Moscovo realizou-se o desfile do Dia da Vitória, encurtado e sem equipamento militar, com segurança reforçada devido ao receio de ataques de drones ucranianos
Foram adotadas medidas de segurança reforçadas em Moscovo antes do discurso do presidente Vladimir Putin no desfile da Praça Vermelha, dedicado à derrota da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, a trégua de três dias alcançada com mediação dos Estados Unidos atenuou os receios de eventuais ataques ucranianos contra a capital russa durante as comemorações.
Putin, no poder há mais de um quarto de século, utiliza o Dia da Vitória, o mais importante feriado civil da Rússia, para exibir o poder militar do país e mobilizar apoio à invasão da Ucrânia lançada em 2022. Este ano, pela primeira vez em quase duas décadas, o desfile decorre sem tanques, mísseis nem outro armamento pesado, à exceção da tradicional passagem de aviões de combate.
As autoridades russas justificaram a mudança súbita de formato com a "situação operacional atual" e apontaram a ameaça de ataques ucranianos. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que foram tomadas "medidas de segurança adicionais".
Acordos de cessar-fogo anteriores não se mantiveram.
A Rússia declarou um cessar-fogo unilateral para sexta-feira e sábado e o presidente ucraniano, Volodimir Zelenskyy, decretou uma trégua a partir de 6 de maio, mas nenhum destes entendimentos foi respeitado, com as partes a trocarem acusações mútuas de ataques continuados.
Na sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que a Rússia e a Ucrânia aceitaram o seu pedido de cessar-fogo de sábado a segunda-feira e acordaram uma troca de prisioneiros, afirmando que a pausa nos combates pode ser o "início do fim" da guerra.
Zelenskyy, que no início da semana afirmara que as autoridades russas "temem que drones possam sobrevoar a Praça Vermelha" a 9 de maio, pegou na declaração de Trump e emitiu um decreto que, em tom de troça, autoriza a Rússia a celebrar o Dia da Vitória no sábado, declarando a Praça Vermelha temporariamente fechada a ataques ucranianos.
Peskov, porta-voz do Kremlin, classificou o decreto de Zelenskyy como uma "piada estúpida". "Não precisamos da autorização de ninguém para nos orgulharmos do Dia da Vitória", declarou Peskov aos jornalistas.
As autoridades russas advertiram que, se a Ucrânia tentar perturbar as celebrações de sábado, a Rússia lançará um "ataque maciço de mísseis contra o centro de Kiev". O Ministério russo da Defesa instou a população civil e os funcionários das missões diplomáticas estrangeiras a "deixar a cidade imediatamente". A UE afirmou que os seus diplomatas não abandonarão a capital ucraniana, apesar das ameaças russas.
Putin utiliza as comemorações do Dia da Vitória para reforçar o orgulho nacional e sublinhar o estatuto da Rússia como potência mundial. A União Soviética perdeu 27 milhões de pessoas entre 1941 e 1945, na chamada Grande Guerra Patriótica.
Dirigindo-se aos participantes no desfile, o presidente russo recordou o enorme contributo do povo soviético para a vitória sobre o fascismo e afirmou que, hoje, os seus soldados combatem na Ucrânia contra uma "força agressiva" apoiada pela NATO.
Putin expressou confiança na vitória na Ucrânia: "A vitória foi sempre nossa e continuará a ser", afirmou Putin, enquanto as colunas de tropas se alinhavam na Praça Vermelha. "A chave do sucesso é a nossa força moral, a coragem e a bravura, a nossa unidade e a capacidade de aguentar tudo e superar qualquer desafio".
Em seguida, foi exibida aos presentes na Praça Vermelha uma sequência de vídeos de propaganda, destinada a sublinhar o poder do exército russo e as suas alegadas "conquistas" na guerra contra a Ucrânia.
Desde 2008, os desfiles do Dia da Vitória na Praça Vermelha costumam mostrar uma vasta gama de armamento pesado, desde veículos blindados a mísseis balísticos intercontinentais com ogivas nucleares. Noutras partes do país realizam-se desfiles mais pequenos, mas desta vez muitos foram reduzidos ou mesmo cancelados por razões de segurança.
Pela principal praça de Moscovo desfilaram formações de diferentes ramos das forças armadas russas, enquanto o locutor enunciava, em tom solene, os seus méritos. Entre os que marchavam estavam também soldados norte-coreanos, enviados em apoio do exército russo na guerra contra a Ucrânia. Segundo o discurso do locutor, teriam dado um grande contributo "para a derrota dos invasores neonazis na região de Kursk".
Ao fim de apenas 45 minutos após o início, o desfile foi dado por concluído.
No sábado, enquanto as tropas se preparavam para desfilar na Praça Vermelha, as autoridades impuseram restrições ao acesso à internet móvel e aos serviços de mensagens de texto na capital russa, invocando a necessidade de garantir a segurança pública. O governo tem vindo a apertar de forma sistemática a censura na internet e a estabelecer um controlo cada vez mais rígido sobre a atividade online, o que alimenta o descontentamento e esporádicas manifestações públicas de protesto.
Às comemorações na capital russa assistiram o rei da Malásia, sultão Ibrahim Iskandar, o presidente do Laos, Thongloun Sisoulith, o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, o presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, e o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico.