A incerteza geopolítica, a escassez de oferta e a recente reforma fiscal da China ameaçam fazer disparar os preços dos painéis solares. Mas será assim tão grave?
Durante anos investimento exorbitante reservado à “eco-elite”, a energia solar tornou-se rapidamente uma das fontes de eletricidade mais baratas do mundo. Mas poderá esta tendência inverter-se?
Os painéis solares fotovoltaicos (PV), compostos por células solares individuais que convertem a luz do sol em eletricidade, viram os preços cair cerca de 90 % na última década. Segundo a Our World In Data, os custos descem cerca de 20 % sempre que a capacidade global acumulada duplica.
Em paralelo, o preço das baterias solares, que permitem às famílias armazenar eletricidade nas horas de pico, também baixou 90 % desde 2010, graças a avanços na química das baterias e na produção.
A UE descreve hoje a energia solar como a “estrela brilhante” da transição limpa europeia, responsável por quase um quarto (23,4 %) do consumo de eletricidade em 2024. Em junho do ano passado, o sol foi a principal fonte da eletricidade gerada na UE.
Em plena guerra com o Irão, a energia solar está a ajudar a amortecer, para as famílias, os choques provocados pela volatilidade dos combustíveis fósseis. Uma análise recente concluiu que aproveitar a luz solar para produzir eletricidade permitiu à Europa poupar mais de 100 milhões de euros por dia ao longo de março, ao reduzir as importações de gás.
Se os preços se mantiverem elevados, devido ao controlo do Irão sobre o estreito de Ormuz, especialistas estimam que estas poupanças possam chegar a 67,5 mil milhões de euros até ao final do ano.
O conflito contínuo no Médio Oriente também aumentou o interesse pela eletrificação das casas, com várias empresas de energia na Europa a registarem recentemente um aumento dos pedidos de informação sobre painéis e baterias solares.
Mas, com a procura de painéis solares a disparar, políticas fiscais externas, o preço da prata e outros fatores podem em breve desencadear uma nova subida de preços.
Europa: de onde vêm os painéis solares
Embora a UE atribua à energia solar um “papel significativo na transição para uma energia mais limpa, acessível e segura”, continua fortemente dependente de países fora do bloco para a produção de painéis PV.
Em 2024, a UE importou 14,6 mil milhões de euros em produtos de energia verde, incluindo 11,1 mil milhões de euros em painéis solares. A China foi, de longe, o maior fornecedor, responsável por 98 % de todas as importações.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA (fonte em inglês)), a China investiu mais de 50 mil milhões de dólares (43 mil milhões de euros) em nova capacidade da cadeia de fornecimento de PV – 10 vezes mais do que a Europa – e criou mais de 300 000 empregos industriais em toda a cadeia de valor da energia solar desde 2011. Atualmente, a quota do país em todas as fases de fabrico de painéis solares ultrapassa 80 % a nível global.
“Os fabricantes chineses atingiram escalas e níveis de custos impossíveis de igualar fora da China”, afirma Jannik Schall, da startup de tecnologia limpa 1KOMMA5°, à Euronews Earth.
“Existem fábricas noutros países, até na Europa, mas limitam-se à montagem final dos painéis solares e não conseguem competir com a China em termos de custos.”
O monopólio chinês dos painéis solares não se traduziu numa vitória clara para o país, com a forte concorrência a empurrar as empresas para vendas abaixo do custo. Um relatório da IEA publicado no ano passado concluiu que as empresas solares sediadas na China acumularam perdas líquidas de cerca de 5 mil milhões de dólares (4,3 mil milhões de euros) desde o início de 2024.
Esta situação levou o Ministério das Finanças e a Administração Fiscal do Estado da China a anunciarem uma grande reforma das generosas subvenções às renováveis, criadas originalmente para apoiar o comércio externo.
Desde 1 de abril de 2026, o reembolso de 9 % do IVA à exportação de produtos solares foi eliminado, enquanto o reembolso de 9 % do IVA à exportação de produtos de baterias foi reduzido para 6 %. O reembolso do IVA nas exportações de baterias será completamente abolido a partir de 1 de janeiro de 2027.
Pouco antes de a reforma fiscal entrar em vigor, as exportações solares chinesas dispararam, à medida que vários países se apressaram a antecipar a subida de preços.
O laboratório de ideias de energia Ember (fonte em inglês) apurou que, em março de 2026, vários países europeus, incluindo França, Itália, Polónia e Roménia, atingiram máximos históricos no número de importações de painéis solares chineses.
Reforma do IVA na China vai encarecer a energia solar?
“Só a eliminação dos reembolsos de IVA à exportação na China vai fazer subir os preços dos módulos cerca de 10 %”, diz Schall à Euronews Earth. Módulo solar é o termo usado no setor para designar uma unidade PV.
O jornal britânico The i noticiou que um instalador solar nacional foi obrigado a cobrar mais 800 libras (918 euros) por uma instalação média em telhado.
Será de esperar um aumento generalizado dos preços? A resposta não é tão linear.
Peritos lembram que o mercado não reage tão depressa e que a subida do preço dos painéis solares não se fará sentir de imediato.
Os analistas também não esperam que o aumento de custos limite a procura de energia solar, dado o preço ainda competitivo. Mas a situação mostra que nem as renováveis estão totalmente protegidas das complexidades da geopolítica – um argumento frequentemente invocado quando se fala dos choques nos combustíveis fósseis.
A InfoLink Consulting, empresa sediada em Taipé que fornece informação de mercado, previsões de preços e análise de cadeias de abastecimento para o setor solar, afirma que, embora os projetos montados em solo (frequentes em grandes parques solares) tenham registado ligeiras subidas nas últimas semanas, o elevado volume de encomendas tem limitado qualquer aumento nos preços médios.
Já o preço dos sistemas solares de pequena escala ou “distribuídos”, como os instalados diretamente em telhados ou coberturas de parques de estacionamento, continuou a descer ligeiramente, adiantou a InfoLink (fonte em inglês) no início desta semana (13 de maio).
Prata: o novo ponto crucial da energia solar
Para perceber porque os custos da energia solar oscilam, é preciso olhar para a forma como os painéis PV são concebidos.
Os painéis solares são feitos sobretudo de vidro, polímeros plásticos e alumínio. A prata, o metal que melhor conduz eletricidade e calor, é outro material essencial para os painéis PV.
Apesar de representar menos de 5 % do peso total de um painel PV, a pasta de prata pode responder por até 30 % dos custos totais de uma célula solar, segundo analistas do grupo tecnológico alemão Heraeus.
De acordo com o Silver Institute (fonte em inglês), só em 2023 foram usadas cerca de 4 000 toneladas de prata na produção de painéis PV, o equivalente a 14 % do consumo global deste metal. Investigadores alertam que esta quota deverá subir para 20 % até 2030, quatro vezes mais do que em 2014.
Por isso, os fabricantes chineses têm vindo a intensificar esforços para responder a este desafio, substituindo a prata por metais mais baratos, como o cobre. Especialistas estimam que a passagem de metalizações à base de prata para cobre poderá poupar à indústria solar cerca de 15 mil milhões de dólares (12,8 mil milhões de euros) por ano em todo o mundo.
No entanto, o preço do cobre também aumentou nos últimos anos, ainda que a um ritmo mais lento do que a prata.
“Impulsionados pela incerteza geopolítica, por constrangimentos na oferta e pelo aumento da procura de centros de dados de IA, os preços do cobre, do alumínio e do lítio subiram significativamente desde o quarto trimestre de 2025”, explica Schall.
“O preço da prata registou aumentos superiores a 150 % em poucas semanas no início de 2026, tornando-se o principal fator de custo nos painéis solares. Estes aumentos nos materiais de base demoram a percorrer a cadeia de valor e deverão chegar aos consumidores finais este verão.”
A 1KOMMA5° prevê que o acréscimo dos custos das matérias-primas, somado ao fim do reembolso do IVA na China, possa provocar subidas de 15 a 20 % em componentes individuais.
Schall acrescenta que, embora os clientes residenciais venham a ser afetados “a médio prazo”, quem instalar painéis PV agora ainda consegue beneficiar de “preços mais favoráveis”.
A Euronews Earth contactou duas empresas de energia na Europa para saber se tencionam aumentar o preço dos painéis solares após a reforma fiscal chinesa e a subida do preço da prata. Ambas recusaram comentar.
Apesar da incerteza, especialistas lembram que os preços da energia solar continuam cerca de 50 % abaixo dos de 2023, o que a mantém entre as fontes de eletricidade mais baratas do mundo.