Delegados no Fórum Urbano Mundial, em Baku, alertaram no terceiro dia que a guerra e as alterações climáticas afetam as cidades mais depressa do que os governos conseguem responder, apelando ao abandono de modelos habitacionais padronizados.
Guerra e alterações climáticas estão a transformar as cidades a um ritmo mais rápido do que os governos conseguem reconstruí-las, alertaram esta quarta-feira delegados no Fórum Urbano Mundial, enquanto um responsável ucraniano revelou que só na sua região foram recuperadas perto de 30 mil estruturas danificadas ou destruídas desde que a Rússia lançou a sua invasão em grande escala.
"No que diz respeito à região de Kiev, temos estado na linha da frente da reconstrução", disse Mykola Kalashnik, chefe da Administração Regional de Kiev, à Euronews em Baku.
"Graças ao nosso presidente, governo, parlamento e parceiros internacionais, conseguimos reconstruir 80% dessas estruturas. O número total de infraestruturas recuperadas ascende agora a 24 mil", agradeceu.
Kalashnik adiantou que o Azerbaijão tornou-se um parceiro direto nesse esforço. "O Azerbaijão está a ajudar-nos a reconstruir a região de Kiev. Dois projetos já ficaram concluídos: uma escola em Irpin e um hospital com abrigo, porque a nossa zona é perigosa e precisamos de espaços subterrâneos seguros, que os nossos parceiros nos ajudaram a construir."
O Azerbaijão, com a SOCAR entre os parceiros, participa ainda na concretização de mais quatro projetos, disse, incluindo um prédio de habitação coletiva, um centro de artes, uma escola de desporto para crianças e jovens e um projeto de infraestrutura social.
A cooperação vai além da construção. Irpin, uma das cidades mais danificadas da região de Kiev, estabeleceu uma parceria com Lachin, na região do Carabaque, no Azerbaijão, também ela reconstruída após anos de conflito.
Kalashnik disse que 100 crianças da região de Kiev vão participar num campo de férias de saúde no Azerbaijão este verão.
As alterações climáticas foram o outro grande tema do dia. Moges Tadesse, diretor de resiliência de Adis Abeba, disse à Euronews que as consequências para as cidades africanas já são graves.
"As alterações climáticas são um desafio global, mas não afetam apenas a habitação. Afetam a economia, afetam também a vida humana e são muito destrutivas", afirmou, apelando a um maior investimento internacional para ajudar os países vulneráveis a suportar custos gerados sobretudo pelas nações mais ricas.
"Penso que a comunidade internacional deve investir muito para mitigar o impacto das alterações climáticas", acrescentou.
A pressão demográfica que acompanha a crise climática é considerável, dizem especialistas.
O economista Jeffrey Sachs, presidente da Sustainable Development Solutions Network, avisou os delegados de que "África deixará de ser rural dentro de 25 anos".
Prevê-se que a população urbana da África Subsaariana duplique no espaço de um quarto de século, acrescentando cerca de mil milhões de pessoas a cidades que já enfrentam dificuldades, uma mudança que exigirá investimentos massivos em habitação e emprego.
Na América Latina, por sua vez, verifica-se o movimento oposto: cerca de 20% dos agregados familiares são atualmente compostos por uma única pessoa, o que está a transformar as necessidades numa procura por fogos urbanos mais pequenos e acessíveis.
A filantropa saudita princesa Lamia bint Majid Al Saud contestou modelos habitacionais uniformes à escala global.
"Não existe um modelo único que sirva para todos, porque o que funciona na Arábia Saudita não serve para a Índia, não serve para a Europa, não serve para a América", disse à Euronews, defendendo que as cidades devem desenhar comunidades adaptadas ao seu próprio contexto em vez de importar soluções desenvolvidas noutros locais.
Crise habitacional na Europa
A própria crise habitacional da União Europeia mereceu comentários contundentes de Matthew Robert Baldwin, diretor-geral adjunto da Comissão Europeia que lidera o seu grupo de trabalho para a Habitação Acessível. Assinalou que cerca de 20% dos fogos em todo o bloco de 27 Estados-membros estão vazios, enquanto os arrendamentos de curta duração disparam. "Em todos estes mercados habitacionais sobreaquecidos? Isso é um escândalo", afirmou.
Baldwin afirmou que o investimento público, por si só, não será suficiente para colmatar a falta de oferta.
"Todo o dinheiro público do mundo nunca chegaria. Precisamos de encontrar uma forma inteligente de mobilizar financiamento privado, esse capital paciente e responsável que não procura lucros rápidos, para apoiar habitação acessível para todos", explicou.
O grupo de trabalho apresentou um plano de oito pontos para melhorar a habitação acessível em todo o bloco.
Ainda assim, mostrou-se otimista quanto ao quadro global mais amplo. "Temos muitas ferramentas à nossa disposição e, pela primeira vez, a habitação é uma questão prioritária", disse. "Vamos enfrentar este problema de frente."
Os debates foram organizados em torno do lançamento do mais recente Relatório sobre as Cidades do Mundo da ONU-Habitat, que concluiu que quase 3 mil milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas por habitação inadequada, custos incomportáveis ou falta de acesso a serviços básicos, enquanto mais de 1,1 mil milhões continuam a viver em bairros de lata e assentamentos informais.
O relatório indica que os preços da habitação estão a subir mais depressa do que os rendimentos em muitas regiões, agravados pelos deslocamentos provocados pelo clima e pelo aumento das desigualdades.
"Os problemas habitacionais nas cidades vão agravar-se ainda mais até 2050", afirmou Ben Arimah, chefe da Unidade de Relatórios Globais e Tendências da ONU-Habitat.
"Apenas 25% da população mundial pode recorrer a crédito à habitação para garantir casa. Isto mostra que a capacidade financeira da maioria das pessoas é insuficiente."
O Fórum prossegue em Baku até 22 de maio.