Em entrevista exclusiva à Euronews, a lenda italiana que venceu o Mundial há 20 anos e hoje treina o Uzbequistão explica por que a equipa está pronta para defrontar o Portugal de Cristiano Ronaldo.
Vinte anos depois de erguer a taça de campeão do mundo como capitão de Itália, a estrela Fabio Cannavaro está de volta ao torneio mais importante do planeta, a orientar o Uzbequistão rumo à primeira presença no maior palco do futebol.
“É a primeira vez que vamos ao Mundial, é a primeira vez que estou a treinar neste tipo de torneio”, disse Cannavaro à Euronews numa entrevista exclusiva.
“Vi muitos jogadores com grande ambição. Querem aprender, melhorar, trabalhar muito e, claro, não temos nada a perder.”
Para este país da Ásia Central, com cerca de 36 milhões de habitantes, a qualificação para o torneio representou um marco histórico depois de décadas de presenças falhadas por pouco.
O Uzbequistão tem agora pela frente um grupo difícil, com a República Democrática do Congo, a Colômbia de James Rodríguez e Luis Díaz, e a seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo. Mas Cannavaro acredita que a imprevisibilidade do Mundial faz com que qualquer equipa possa ombrear com os gigantes.
“Acho que é um palco muito exigente, porque a Colômbia e Portugal estão entre as 20 melhores seleções do mundo”, explicou.
“No Congo, muitos jogadores atuam na Ligue 1, na Premier League, por isso será difícil. Durante o Mundial, não se pode dizer que uns são mais fortes do que outros, porque é o Mundial”.
O antigo defesa da “Azzurra”, amplamente considerado um dos melhores centrais de sempre, assumiu o comando da seleção do Uzbequistão numa altura em que o país intensifica a preparação para o Campeonato do Mundo de 2026 da FIFA.
Nascido em Nápoles, onde se afirmou como um jogador sólido, elegante e taticamente inteligente, Cannavaro não é estranho ao drama, à emoção e às recompensas máximas do futebol.
Em 2006, ergueu a taça do Mundo na Alemanha, ganhando a alcunha de “Il Muro di Berlino”, ou “Muro de Berlim”, pelas exibições que permitiram à “Azzurra” somar cinco jogos sem sofrer golos e encaixar apenas dois tentos em todo o torneio.
Integrando, no mesmo ano, a Juventus que conduziu ao título da Serie A e os “galácticos” do Real Madrid, tornou-se um dos poucos defesas da história a conquistar a Bola de Ouro, uma honra que partilha apenas com duas outras lendas do futebol, Franz Beckenbauer e Matthias Sammer.
Depois de terminar a carreira como jogador, passou para o banco, orientando clubes na China, na Arábia Saudita e na Europa antes de aceitar o desafio no Uzbequistão.
Agora, em vez de competir dentro de campo, o homem que outrora organizava a equipa dentro das quatro linhas está no banco, a ajudar uma nova geração de jogadores a preparar-se para um momento que nenhum futebolista uzbeque viveu até hoje.
“O Mundial é algo que, enquanto jogador de futebol, é um sonho”, afirmou Cannavaro.
“Como futebolista, é o torneio mais importante e participar nele é um privilégio. Ao mesmo tempo, é preciso perceber que haverá um ambiente muito especial em redor”, explicou.
“É preciso desfrutar, é preciso estar feliz por participar neste torneio.”
Mentalidade dos mata-gigantes
No seio da seleção, a competição por um lugar tem-se intensificado à medida que o torneio se aproxima.
O médio Otabek Shukurov, que joga no Baniyas, na liga profissional dos Emirados Árabes Unidos, disse à Euronews que a equipa tenta pensar menos na pressão e mais no significado da ocasião.
“Esta é a nossa primeira participação num Mundial”, afirmou Shukurov.
“Precisamos de deixar toda a pressão de lado, entrar em campo, desfrutar do jogo e mostrar que o Uzbequistão é um país com um futebol forte.”
O jovem médio Umarali Rahmonaliyev, que atua no Azerbaijão, afirmou que a competição interna está mais forte do que nunca, com todos os jogadores determinados em garantir um lugar na convocatória final.
“A competição sempre existiu, mas, antes do Mundial, tornou-se ainda mais intensa”, disse.
“Por isso vamos dar tudo o que temos, erguer bem alto a bandeira do nosso país e mostrar o nosso potencial no palco mundial”, concluiu Rahmonaliyev.